Bons (e maus) conselhos

E tomou Roboão conselho com os anciãos, que estiveram perante Salomão seu pai, enquanto viveu, dizendo: Como aconselhais vós que se responda a este povo?
E eles lhe falaram, dizendo: Se te fizeres benigno e afável para com este povo, e lhes falares boas palavras, todos os dias serão teus servos.
Porém ele deixou o conselho que os anciãos lhe deram; e tomou conselho com os jovens, que haviam crescido com ele, e estavam perante ele. – 2 Crônicas 10:6-8

Conselhos. Na vida, sempre precisamos de conselhos para tomar alguma decisão difícil ou passar por um momento de angústia ou adversidade que enfrentamos. Ao admitir que precisamos de conselhos, reconhecemos que não somos detentores de todo o conhecimento, nos colocamos numa posição de humildade e dependência, em primeiro lugar de Deus, e em seguida de outras pessoas. Não somos 100% independentes de tudo e de todos, e não fomos criados para sermos assim, pelo contrário, a interdependência saudável nos leva a crescimento e amadurecimento em todas as áreas de nossas vidas.

Ocorre que, como o texto da Palavra nos ensina hoje, nem sempre devemos ouvir todos os conselhos que nos são dados. Na verdade, nem todo mundo que quer nos aconselhar busca o nosso melhor interesse ou tem o nosso bem estar em mente quando vem nos “aconselhar”. Não só isso, sabendo que somos pecadores, mesmo na melhor das boas intenções, muitas vezes falhamos em dar bons conselhos aos nossos amigos e a pessoas a quem amamos, e a recíproca também é verdadeira com relação aos conselhos que recebemos.

Roboão tomou conselho com os anciãos, e isso não quer dizer necessariamente que eram bons conselhos, afinal velhice em idade não significa maturidade, mas pelo texto tiramos que realmente eram bons os conselhos que aqueles homens experimentados haviam dado ao novo rei. Eles tinham conhecimento de causa, afinal haviam trabalhado por tantos anos com seu pai, Salomão. Roboão fez mal ao desprezar o conselho daqueles homens. O problema não foi exatamente buscar conselhos em seus amigos, já que a própria Palavra diz que “na multidão de conselhos há segurança” (Pv 11:14), mas 1) desprezar conselhos dados que já eram muito bons e, 2) buscar o conselho em amigos “sem futuro”, jovens inexperientes e imaturos, que visavam apenas o poder e o prestígio, como o restante do texto demonstra. O resto é história: a divisão de Israel em dois reinos, ficando a descendência de Davi com a liderança de uma porção bem menor de gente e território.

Que a lição que aprendemos hoje possa nos levar a tomar melhores decisões, afinal, como vimos recentemente sobre a sabedoria, o temor do Senhor é a própria fonte de sabedoria. Não há sabedoria, não há boas escolhas longe do Senhor, apartadas da sua própria Palavra, que venham de pessoas que não buscam a sua Face e seu Caminho. O tipo de conselho e de conselheiros que devemos aceitar são pessoas que servem a Cristo, e delas, as que sabemos de antemão que se importam conosco de verdade, conselhos que visam o nosso bem e não coisas fúteis.

Essa é a minha oração por mim e por você hoje.

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Pregação ICS 08/09/2019 – A quem servir na igreja local

Pregação ICS 08/09/2019 – A quem servir na igreja local

Texto base: Lucas 10:25-37

Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: “Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?”
“O que está escrito na Lei?”, respondeu Jesus. “Como você a lê?”
Ele respondeu: “‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento’ e ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’”.
Disse Jesus: “Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá”.
Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: “E quem é o meu próximo?”
Em resposta, disse Jesus: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto.
Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado.
E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado.
Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele.
Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.
No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse-lhe: ‘Cuide dele. Quando voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver’.
“Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”
“Aquele que teve misericórdia dele”, respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: “Vá e faça o mesmo”.

 

Introdução

Jesus, em seus três anos de ministério, fez e ensinou muitas coisas, conheceu muita gente, e as pessoas quando vinham ao seu encontro, estavam motivadas por todo tipo de sentimento e expectativa, algumas justas e razoáveis, outras nem tanto, somente curiosidade ou até despeito mesmo, buscando alguma razão para fazê-lo cair em alguma armadilha no seu discurso.

A história que lemos hoje é sobre um desses encontros, quando um especialista na Lei Mosaica questiona o Senhor a respeito de algo que em tese ele mesmo sabe, porque não era um tema obscuro, não era um pormenor escondido, um detalhe de uma nota de rodapé. Era o cerne da Lei, que resumidamente se encontra nos 10 mandamentos em Êxodo 20, ou seja, a ética do nosso relacionamento com Deus e com o ser humano, que continua sendo a mesma ética do Reino de Deus hoje, já que Deus é o mesmo ontem e hoje, Ele não muda.

Deuteronômio 6:5 diz: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças”.

Já Levítico 19:18 fala: “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”.

Novamente, não eram textos obscuros. Então o especialista estava pondo Jesus à prova: “Será que esse ‘Rabi’ conhece a Lei”?

Mas como Jesus não a conheceria, já que Ele é a pessoa que a inspirou?! A Lei apontava para o Filho, nos conduzindo até Ele, cf. Gálatas 3:24,25. A Lei entregue por Deus a Moisés e por meio dele ao povo de Israel, muito embora cercada de cerimônias, rituais, sacrifícios, trazia em meio a suas muitas proibições e mandamentos um valor intrínseco que desafia a nossa leitura superficial da mesma, que é igual à leitura que aquele homem estava fazendo: a salvação é algo que eu posso conquistar com meu esforço e mérito, EU sou o senhor do meu destino.

Na verdade, a Lei, que somente o Filho conseguiu cumprir com perfeição, apontava para algo que nós hoje temos clara certeza: a salvação vem pela fé, por meio da graça, e isso não é por ação humana, é dom de Deus, cf. Efésios 2:8-10, o texto mais conhecido sobre esse tema, mas que não é o único.

Paulo, em Romanos 11, falando a respeito de como Deus reservou 7000 homens que não dobraram seus joelhos a Baal nos tempos de Elias, explica que Deus o fez “segundo a eleição da graça” (v. 5), ou seja, mesmo no período da Lei, Deus sempre se relacionou com o homem com base na graça, no amor, e não em coisas que “temos a capacidade de fazer”.

Continuaremos falando sobre isso mais adiante.

 

A Quem servimos?

O tema da nossa reflexão de hoje sobre o serviço é “A Quem servimos”? Essa pergunta pode parecer meio óbvia como a feita por aquele doutor da Lei. Vamos falar, sim, um pouco do óbvio, e talvez pensar também em outras respostas menos óbvias a esse questionamento.

 

1 – Servimos a Deus

Em primeiro lugar, a resposta óbvia quando pensamos no destinatário do nosso serviço é: Deus.

Sim! Em primeiro lugar, servimos a Deus. Se nosso serviço não brotar de um coração movido por generosidade como resposta de gratidão por tudo que Deus tem sido e feito por nós e em nós, nosso serviço não terá repercussões espirituais para a vida eterna.

E por repercussões espirituais para a vida eterna – lembrando aqui das palavras do personagem de Russel Crowe no filme “Gladiador” (“O que fazemos na vida ecoa na eternidade”), pense não apenas nos galardões ou recompensas que teremos (e não vou entrar no mérito de quais, quantos ou como serão, salvo que nossas obras não devem ter essa motivação principal), mas pense nos frutos que produzimos, quantas almas ajudamos a levar a Jesus, quantas vidas abençoamos de tantas maneiras.

Segundo o texto de Efésios, a salvação não vem pelas obras, diferentemente do que aquele doutor da Lei pensava. Nunca será pelo “que posso fazer”. Aliás, essa ansiedade por fazer, fazer, fazer é algo intrínseco à nossa natureza humana. É a dificuldade que temos de entregar o controle remoto da nossa vida a outra pessoa, no caso Deus. Em outra passagem, Lucas 18 narra um moço rico perguntando a Jesus o que fazer para herdar a vida eterna, como se ele ou nós pudéssemos fazer algo nesse sentido.

A esse respeito, as coisas que fazemos são chamadas pelo profeta Isaías de trapo imundo. Abra comigo sua Bíblia em Isaías 64:4-6.

Porque desde que o mundo é mundo, ninguém ouviu, nenhum ouvido percebeu e olho nenhum viu um Deus como o nosso, que trabalha para aqueles que nele confiam.
O Senhor recebe de braços abertos quem tem alegria em praticar a justiça, que se lembra do Senhor e quem anda nos seus caminhos. Mas nós vivemos pecando e fizemos o Senhor se irar; com todo o nosso pecado, como podemos ser salvos?
Todos nós nos tornamos impuros. As nossas boas ações, que pensamos ser um lindo manto de justiça, não passam de trapos imundos. Murchamos como as folhas no outono; os nossos pecados nos levam sem destino, como o vento faz com as folhas.

Vejamos de trás pra frente:

1) somos pecadores. Nossas boas ações, que temos em alta conta, não valem nada. Menos que nada, são trapos imundos!

2) como, então podemos ser salvos? Por nossas obras, parece claro que não é!

3) “O Senhor recebe de braços abertos quem tem alegria em praticar a justiça, que se lembra do Senhor e quem anda nos seus caminhos” e “trabalha para aqueles que nele confiam”. Essa é a resposta para a pergunta que é minha, sua, do moço rico e do conhecedor da Lei do texto base de hoje. A Palavra chave é confiar. Crer não é um simples acreditar. Acreditar até os demônios acreditam, cf. Tiago 2:19. Crer é confiar. E da confiança vem a motivação e a capacidade para obedecer. Eu só consigo obedecer, eu só desejo obedecer aquele em quem confio. Essa é a fé salvadora, uma fé que não vem de obras, mas produz obras que são frutos de justiça, frutos dignos de arrependimento, o fruto do Espírito cf. Filipenses 1:11, Lucas 3:8 e Gálatas 5:22.

Usando a conhecida metáfora de uma árvore, as obras que fazemos são nossos frutos, e a salvação pela graça, por meio da fé, é a raiz. A planta nasce em Deus e frutifica em nós, na mutualidade, “uns aos outros” como diversas vezes Jesus nos ensinou a fazer, e não o contrário.

Mas, esse mesmo Jesus também nos diz que a árvore que não dá fruto, o agricultor, que é o Pai, vem e corta, e lança fora para ser queimada (cf. Mateus 7:19).

Então, nessa metáfora, nós somos pomar do Senhor. Alegra ao Pai ver árvores frondosas e frutíferas, que dão o seu fruto no devido tempo (cf. Salmos 1:3), ou seja, o homem que “tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite” (cf. v. 2), árvores de frutas saborosas, que alimentam os famintos, e não árvores secas que não produzem fruto e só ocupam espaço e dão trabalho.

Devemos servir a Deus em primeiro lugar. Ele deve sempre ocupar o foco de nossa vida e serviço. Nos relacionamos com Ele primeiro, com maior dedicação, mais intensidade, com profunda comunhão e intimidade. Depois, qualquer outra pessoa. Igualmente, primeiro O servimos, e em seguida aos demais. Sim, porque servimos também a outras pessoas. Não para nEle o serviço, e, aliás, também O servimos quando servimos seus filhos.

Josué 24:14,15 diz assim:

Agora temam o Senhor e sirvam-no com integridade e fidelidade. Joguem fora os deuses que os seus antepassados adoraram além do Eufrates e no Egito, e sirvam ao Senhor.
Se, porém, não lhes agrada servir ao Senhor, escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas, eu e a minha família serviremos ao Senhor.

O Senhor requer nossa dedicação exclusiva, no sentido de que nada nem ninguém pode ocupar o seu lugar em nossos corações, vida e serviço. Não podemos servir a Deus e ao dinheiro, por exemplo, cf. Mateus 6:24.

O serviço, nesse caso, é uma forma de relacionamento entre o servo e o seu senhor. Nós somos os servos, ou, pelo menos, deveríamos ser. Mas, quem tem sido nosso senhor? A quem, realmente, temos servido?

Será que temos servido a Deus ou a nós mesmos? Qual tem sido nossa motivação diária quando acordamos: honrar a Deus, nosso Pai de amor? Glorificar o seu nome através de um testemunho fiel? Amar sua família como Ele mesmo nos ensinou? Ou buscar nossos próprios interesses, por melhores e mais ingênuos que pareçam?

Marcos 14:3 narra a história de uma pessoa que tinha um entendimento correto da prioridade ao servir. Seu nome é Maria, irmã de Marta e Lázaro. O texto diz assim:

Estando Jesus em Betânia, reclinado à mesa na casa de um homem conhecido como Simão, o leproso, aproximou-se dele certa mulher com um frasco de alabastro contendo um perfume muito caro, feito de nardo puro. Ela quebrou o frasco e derramou o perfume sobre a cabeça de Jesus.
Alguns dos presentes começaram a dizer uns aos outros, indignados: “Por que este desperdício de perfume?
Ele poderia ser vendido por trezentos denários, e o dinheiro dado aos pobres”. E a repreendiam severamente.
“Deixem-na em paz”, disse Jesus. “Por que a estão perturbando? Ela praticou uma boa ação para comigo.
Pois os pobres vocês sempre terão consigo, e poderão ajudá-los sempre que o desejarem. Mas a mim vocês nem sempre terão.
Ela fez o que pôde. Derramou o perfume em meu corpo antecipadamente, preparando-o para o sepultamento.
Eu lhes asseguro que onde quer que o evangelho for anunciado, em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória”.

Sabe o que eu falei sobre repercussões espirituais para a vida eterna? Aqui está uma pessoa que entendeu bem esse conceito. Maria não se importou com o valor de seu sacrifício ao servir, e aliás, se importou sim, mas não como a gente se importa, com mesquinharia, contando centavos… Pra ela quanto mais caro, quanto maior o sacrifício, mais feliz e realizada ela ficou pois sabia que aquilo agradaria ao seu amado. Maria não se importou foi com o que os outros poderiam pensar, se ou como seria julgada – ela sabia que seria julgada, e isso não foi empecilho como muitas vezes o é para nós. Ela não fez aquilo para ser vista. Ela se importou em agradar a Jesus, e isso bastava.

Perceba que esta é a mesma Maria que Lucas, ao narrar as palavras de Jesus, descreve como tendo escolhido “a boa parte, e esta não lhe será tirada”, enquanto Marta sua irmã, cujo serviço desvirtuou-se em ativismo, recebe a repreensão do Senhor: “Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas; todavia apenas uma é necessária”, (cf. Lucas 10:38-42). Jesus não condena o serviço, mas Ele enxerga onde está o coração do homem, e o tipo de serviço que Ele gosta e recebe deve partir de priorizarmos o mais importante, que é o relacionamento, é o simplesmente estar a seus pés.

Um último aspecto, temos em 2 Timóteo 2:4: “Nenhum soldado se deixa envolver pelos negócios da vida civil, já que deseja agradar aquele que o alistou”.

Como o próprio texto deixa claro, a vida comum, em que pé esteja, não pode servir de obstáculo à nossa missão.

Mas… que negócios seriam esses? Qualquer coisa que não diga respeito direta e imediatamente à própria missão, qual seja, viver e pregar que o Reino de Deus é chegado!

Nesse sentido, a correta prioridade das coisas da vida deve ser: 1) nos relacionarmos com Deus individualmente, em intimidade; 2) nos relacionarmos com Deus como família, com nossas esposas e filhos; 3) nos relacionarmos com Deus como igreja, irmãos e irmãs que se reúnem nos lares ou coletivamente; e 4) nos relacionarmos com Deus no mundo, ou seja, pregando seu amor e sacrifício em Jesus a quem ainda não Lhe conhece.

Essa é a nossa missão diária, a nossa guerra, o nosso serviço.

 

2 – Servimos aos irmãos

Em segundo lugar, servimos aos nossos irmãos. Já falamos aqui em outra oportunidade, servimos prioritariamente à nossa família espiritual e à nossa família natural. Sobre isso Paulo nos fala em 1 Timóteo 5:4,8:

Mas, se alguma viúva tiver filhos, ou netos, aprendam primeiro a exercer piedade para com a sua própria família, e a recompensar seus pais; porque isto é bom e agradável diante de Deus.
Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel.

Fazendo uma ponte com o primeiro tópico, há duas considerações que precisamos fazer:

1) Não podemos crer que serviremos a Deus sem servir ou ignorando sua família. Irmãos, Deus não precisa do nosso serviço. É um privilégio nosso servi-lo. Na verdade, nós precisamos servir a Deus, de modo a sermos transformados pela atuação do Espírito Santo. Servir à família de Deus é uma oportunidade que Deus nos dá de contribuir para o crescimento do Reino.

2) Servindo a família de Deus, que é a nossa família espiritual, estamos também servindo ao próprio Pai, cf. Mateus 25:34-40:

Então o Rei dirá àqueles à sua direita: ‘Venham, benditos do meu Pai, para o Reino preparado para vocês desde a criação do mundo. Porque eu tive fome, e vocês me deram de comer; eu tive sede, e vocês me deram de beber; eu era um estranho, e vocês me convidaram para suas casas; eu estive nu, e vocês me vestiram; eu estive doente, e vocês cuidaram de mim; estive na prisão, e vocês me visitaram’.
Então os justos responderão: ‘Senhor, quando foi que nós vimos o Senhor com fome, e lhe demos de comer? Ou com sede, e lhe demos alguma coisa para beber? Ou como estranho, e o socorremos? Ou nu, e o vestimos? Quando foi que vimos o Senhor doente, ou na prisão, e o visitamos?’
E o Rei lhes dirá: ‘Digo a verdade a vocês: Quando vocês fizeram isso ao menor destes meus irmãos, estavam fazendo a mim!’

Não vou entrar no mérito do “como” servimos pra não dar spoilers das próximas mensagens, mas deve estar claro em nossos corações que o serviço é relacionamento, e deve ter o propósito de buscar a piedade, ou seja, caminhar em intimidade com o Pai em primeiro lugar, e com os irmãos em segundo.

Serviço que não tem esse entendimento deixa de ser serviço e vira ativismo religioso ou nem isso. Podemos proporcionar um bem individual ou coletivo até expressivo, mas teremos perdido o foco da missão, que é levar pessoas a Jesus! Já disse uma vez e digo outra, não adianta termos pessoas recuperadas das drogas, com casamentos e famílias restauradas, educadas, com emprego, saúde e barriga cheia, mas caminhando para o inferno! Esse tipo de obra não “ecoa para a eternidade”. O prejuízo eterno é maior do que qualquer vantagem ou bem-estar adquirido nesta vida.

Voltemos ao texto base. Há um detalhe importante nessa parábola que muito poucas vezes é mencionado, e talvez nos passe desapercebido. Jesus fala que o sacerdote e o levita desciam de Jerusalém a Jericó.

Já ouvi algumas vezes que uma possível causa para aqueles homens não atenderem ao caído teria sido por razão religiosa. Explico. A Lei moisaica dizia em diversos locais que tocar em um cadáver, uma pessoa ou animal morto, era motivo de tornar alguém cerimonialmente impuro e, portanto, afastava essa pessoa do convívio social e das obrigações religiosas por determinado período de tempo, fosse um ou alguns dias. Levítico 11, Levítico 21, Números 19, entre outros textos, falam desse assunto. Vejamos Números 19, como exemplo:

Quem tocar em uma pessoa morta ficará impuro durante sete dias. Deverá purificar-se lavando-se com a água purificadora no terceiro e no sétimo dia. Mas, se não se purificar no terceiro e no sétimo dia, não estará puro. Aquele que tocar em uma pessoa morta e não se purificar, contamina o Tabernáculo do Senhor. Por isso, essa pessoa será eliminada de Israel, porque a água purificadora não foi borrifada sobre ela, e a sua impureza permanece sobre ela. – Números 19:11-13

O texto continua com mais detalhes e situações onde esse mandamento se aplicaria. O ponto é: havia uma previsão na lei cerimonial que regia o povo de Israel que poderia “explicar” a reação daqueles dois religiosos.

Explica, mas não justifica, porque em face da miséria humana, deveríamos fazer como Jesus em situação parecida: ter misericórdia, sentir a dor do outro em nós, em nossos corações, e nos mover da inatividade para a ação!

Mas, na verdade, e aqui entra o detalhe da parábola, nem a explicação religiosa convence, pois o texto deixa claro que eles desciam de Jerusalém a Jericó. Tanto sacerdotes quanto levitas possuíam turnos de serviço, semelhante às escalas que temos hoje de 24 horas trabalhadas por 72 de descanso, no caso deles normalmente uma semana a cada tantos meses, e o seu turno já havia encerrado, caso contrário eles estariam subindo a Jerusalém e não descendo de volta a Jericó. Eles não precisavam, em tese, se preocupar com suas “obrigações religiosas” para fugir da responsabilidade humanitária.

Fato é, irmãos, que muitos de nós, eu e vocês tantas vezes, temos buscado escorar nossa preguiça e desdém sob tantas desculpas esfarrapadas, e a religião pode muito bem ser uma delas. Como aquele doutor da lei, procuramos “brechas” para escapar de nossa obrigação de ajudar, de servir o próximo, afinal “quem é o meu próximo”?

Qual tem sido nossa justificativa? “Não posso perder meu tempo”? “Não posso me contaminar”? “O que será que vão pensar de mim”? “Não adianta mesmo…”? “Não concordo com essa visão de igreja ou com teologia A, B ou C”?

Quando não temos em mente a missão, quando não enxergamos o serviço à família de Deus como algo importante, fundamental, não percebemos o nosso papel no corpo, como vimos no acampamento e já agora nessas duas séries sobre serviço, procuraremos desculpas e qualquer uma vai servir para nos manter presos à nossa zona de conforto.

Os dois primeiros homens da parábola viram aquela situação como uma causa perdida. Pra eles não importava a vida da pessoa que estava ali caída tanto quanto as suas preocupações religiosas, suas reputações ou qualquer outra motivação que tenham tido.

A questão, então, é a seguinte: será que de alguma maneira a religião está nos afastando das pessoas? Será que em razão da religião, reputação, acomodação ou de qualquer outra coisa a gente está desprezando ou ficando cegos a pessoas que podem estar morrendo ao nosso redor? E não apenas ficando cegos no sentido passivo, insensíveis, mas será que não estamos fechando os olhos de propósito pra essas pessoas e, pior, usando alguma dessas desculpas? Será que só servimos quando há plateia, quando podemos explorar a exposição que teremos, ou será que só servimos para sermos vistos?

 

3 – Servimos ao mundo

Em terceiro lugar, servimos ao mundo. Quando servimos ao mundo devemos ter em mente a missão principal que continua sendo servir a Deus e glorificar o seu nome. Óbvio! Não somos uma ONG, somos a Igreja, corpo de Cristo, pescadores de homens em busca de resgatar os perdidos.

Servindo ao mundo, podemos servir três tipos de pessoas: os “amigos” do reino, pessoas próximas cujo evangelho já tem sido semeado em seus corações; os indiferentes ao reino, “neutros”, por assim dizer; mas também os inimigos do reino, aqueles que ativamente perseguem ao Senhor e aos seus filhos.

Sobre isso, Jesus nos ensina:

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?
E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus. – Mateus 5:43-48

Quando amamos aos nossos inimigos, quando servimos a quem nos persegue – nós individualmente, ou à mensagem da Cruz – oportunizamos que o Espírito Santo trabalhe poderosamente em suas vidas, conforme a palavra de Paulo em Romanos 12:17-21:

A ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas, perante todos os homens.
Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens.
Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor.
Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.
Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.

Sim, meus irmãos, fazer o bem, dar a outra face quando levarmos um tapa, andar uma segunda milha, dar também a capa, cf. Mateus 5:38-41. Eu vou ser bem honesto com vocês, isso não é fácil. Sério, a vontade ao receber um tapa não é oferecer a outra face, não é servir, não é demonstrar gentileza e um coração manso como fruto do Espírito. A vontade é dar uma mãozada ainda maior. Mas nós não devemos ceder à nossa carne, e sim submeter a nossa vontade ao Espírito Santo que nos ajudará a frutificarmos em serviço até por quem nos persegue e maltrata.

Nisso, muito nos ajudam as disciplinas espirituais; em busca da piedade mortificamos a nossa carne, a nossa natureza pecadora, nossos desejos egoístas, fortificamos nosso espírito e caminhamos para ficar cada vez mais parecidos com nosso Senhor; e entre as disciplinas está o serviço, serviço que nos humilha, impedindo que sejamos soberbos, arrogantes, e que nos torna mais dependentes de Deus e uns dos outros, em vez de independentes e centrados apenas em nós mesmos e em nossos próprios interesses e vontades.

Percebam que, na parábola do bom samaritano, o único que se dispôs a ajudar o seu próximo era um inimigo étnico e religioso. Se não estivesse naquela condição, o homem caído talvez nem sequer lhe estendesse a mão ou lhe cumprimentasse. Pior, quem sabe se a história se invertesse se aquele judeu agiria como agiu o samaritano… Dificilmente.

Será que temos sidos constrangidos pelo Espírito Santo quando ímpios fazem por nós algo que seríamos incapazes de fazer por eles? Que tapa com luva de pelica levamos cada vez que incrédulos, idólatras, pessoas até sem religião alguma nos pagam o mal que fazemos em bem. É Deus clamando por meio de pedras, igreja, falando por meio de jumentas, com o perdão da expressão, para ver se o seu povo se converte, pra ver se o meu e o seu coração de pedra viram carne e vertem algum sangue.

Gostaria de lembrar, ainda sobre servir ao mundo, a respeito de um “paradoxo”, digamos assim. Mateus 13:24-30 nos conta a parábola do joio e do trigo. Lucas 8:5-15 fala da parábola do semeador.

Essas duas estórias nos ensinam, entre outras coisas, que do nosso lado na igreja pode haver um descrente fazendo-se passar por irmão. Isso mesmo! E eu não estou falando da pessoa que você ou eu convidamos para ouvir a Palavra, estou falando de membros e frequentadores rotineiros.

Olhe pra pessoa que está do seu lado. Ela pode estar cantando como a gente, dando glória a Deus com empolgação, ou mesmo chorar em êxtase em determinado momento mas ainda não ser convertida, esconder uma vida não arrependida cheia de pecados não confessados, e frequenta esse local e ambiente apenas porque faz bem à sua alma, lhe dá algum tipo de satisfação, pelas amizades que conquistou, quem sabe um contato profissional, ou pior, até com más intenções como talvez algum de nós já tenha visto ou ouvido falar de pessoas assim.

Por outro lado, como pescadores que lançam suas redes ao mar, como o semeador que saiu a semear, nosso trabalho talvez tenha que ser para a igreja que ainda está lá fora e precisa que alguém vá lá e pregue, cf. Romanos 10:14-16.

Em último lugar, João 13 conta como Jesus, na noite em que foi traído, lavou os pés de seus discípulos, inclusive os de Judas. O verso 1º desse capítulo diz que “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”.

Por uma série de razões, entendemos que, na verdade, os discípulos até este momento ainda não eram inteiramente convertidos. Todos iriam abandonar a Jesus, um iria negá-lo explicitamente, outro iria traí-lo, vendendo-o a preço de escravo.

E a todos estes Jesus amou. Amou. Amar é o melhor serviço, amar é o maior dom, cf. 1 Coríntios 12:31 e o capítulo 13 inteiro.

 

Conclusão

Se eu não submeto a minha carne a Jesus, se eu não obedeço os seus mandamentos, cf. João 14, não adianta eu servir. Aliás, servir desse jeito talvez seja uma grande demonstração de hipocrisia…

Serviço não é um “liquid paper” que vai apagar os meus erros cometidos, ele não é uma forma de aceitação, de salvação, não! A forma de aceitação é a graça. Demonstramos que fomos aceitos por meio da obediência. Só assim podemos servir.

Não adianta a gente cometer todo tipo de absurdo, ter a vida toda errada, e vir fazer jejum, e vir fazer serviço, vir fazer outras coisas. As disciplinas espirituais não são um contrapeso de balança, em que eu tento equilibrar os meus pecados com “virtudes” a perseguir. Não funciona assim. Mas sim, uma vez salvos, elas colaboram e muito no nosso processo de santificação.

A graça nos motiva a servir de maneira dedicada ao Senhor, a quem tudo devemos. Ele é a pessoa mais importante. Quando enxergamos a sua grandeza, fazemos ofertas como a de Abel, o melhor que temos de tempo, dinheiro, dons, esforço, serviço. Caso contrário, é mera religiosidade vã, é cópia barata, é como o sacrifício de Caim, qualquer coisa serve, de qualquer jeito tá bom. É a perigosa religião dos israelitas no tempo de Malaquias, que entregavam a Deus ofertas de pães imundos e animais doentes e defeituosos e tinham a cara lisa de querer que Deus aceitasse aquilo tudo numa boa e ainda os abençoasse.

Como falei, Deus não precisa do nosso serviço. Nós é que precisamos servir ao Senhor! Precisamos servir ao nosso próximo, especialmente aos da família da fé, aproximando os que hoje estão distantes, perdidos no mundo, mas sem afastar quem está perto.

Servimos, por exemplo, aos pobres em suas carências materiais, mas servimos também aos ricos que possuem outros tipos de carências. Uma das coisas que vi na África foi pessoas realmente miseráveis, que não tinham luz elétrica, água encanada ou qualquer conforto da vida moderna, muitas vezes nem comida, mas eram ricos porque conheciam Jesus, porque tinham um relacionamento com Ele.

Por outro lado a Europa, um continente que alguns chamam de “pós-cristão”, é lar de pessoas que têm tudo, mas não têm Jesus, então são pobres naquilo que mais importa, bem parecido com o retrato narrado por João no Apocalipse, quando da carta enviada à igreja de Laodiceia (cf. 3:17): “Você diz: ‘Eu sou rico, tenho tudo o que necessito; não preciso de coisa alguma’. E não percebe que espiritualmente você é um desgraçado, um miserável, um pobre, cego e nu”.

A quem servimos? Servimos a Deus, à igreja, e ao mundo. Os detalhes do porquê, como, etc., temos visto e continuaremos a ver nessas mensagens sobre serviço.

A nossa resposta pessoal a tudo que ouvimos hoje deve ser obediência à palavra final de Jesus àquele perito na lei: “vá e faça o mesmo”!

Deus nos abençoe.

Meditação semanal: sabedoria

Naquela noite Deus apareceu a Salomão e disse: “Peça o que quiser, e eu darei a você!”
Salomão respondeu: “Ó Deus, o Senhor foi tão bondoso com o meu pai Davi, e me colocou como rei em seu lugar. Agora, ó Senhor Deus, meu desejo é que o Senhor cumpra a promessa que fez a meu pai Davi, porque me fez rei sobre uma nação tão numerosa como o pó da terra! Peço que o Senhor me dê sabedoria e conhecimento para governar esse povo. Pois quem pode, sozinho, dirigir uma nação tão grande como esta?”
Deus respondeu: “Já que o seu maior desejo é ajudar o seu povo e, em vez de pedir tesouros, riqueza pessoal, honras, a destruição dos seus inimigos, ou vida longa, pediu sabedoria e conhecimento para dirigir bem o meu povo sobre o qual o coloquei como rei, eu vou dar a sabedoria e o conhecimento que você pediu! Mas também vou dar riquezas, bens e honra, como nenhum outro rei antes de você teve e nenhum outro terá depois de você!”
Então Salomão deixou o Tabernáculo, desceu do monte Gibeom e voltou a Jerusalém para governar Israel. – 2 Crônicas 1:7-13

Em minha leitura da Palavra hoje pela manhã, meditei nesse texto que narra como Salomão foi ungido Rei de Israel. Salomão percebeu que para bem desempenhar o seu encargo, e reconhecendo a enorme responsabilidade de liderar o seu povo, ele teria que necessariamente buscar forças e sabedoria no Senhor, o mesmo Deus que escolheu seu pai Davi e o ajudou em todo seu reinado.

As lições que podemos tirar da vida de Salomão são muitas, nesse e em outros textos, coisas que ele fez que foram boas e podemos aprender para aplicá-las em nossas vidas, guardadas as devidas proporções e contextos, mas também as negativas, coisas que devemos aprender a evitar, não apenas para nosso sucesso na vida, mas, principalmente, para caminharmos em intimidade com o Pai.

Aqui, particularmente, quero focar o aspecto da sabedoria. Salomão sabia que toda a sabedoria e conhecimento que o mundo pode oferecer, embora tivessem o seu proveito, seriam insuficientes para realizar a sua missão. Além disso, ele percebe o valor que reside na sabedoria, o quanto ela deve ser priorizada em nossa caminhada, e não apenas acúmulo de conhecimento para glória pessoal, ao contrário, sabedoria para administrar, de maneira altruísta, as bençãos que o próprio Deus derramaria em prol do povo de Israel.

Em nossas vidas, como Salomão comprovou, podemos adquirir muitas coisas e realizar outras tantas com nosso esforço pessoal e dedicação, podemos desenvolver nossa carreira, estudar e conseguir títulos acadêmicos, trabalhar e ganhar quem sabe muito dinheiro. Tudo isso pode ser bom, nenhuma dessas coisas tem um valor intrínseco, mas para que sejam boas e façam o bem, para nós e para aqueles que amamos, devem vir necessariamente acompanhadas da sabedoria, e sabedoria que vem do alto, sabedoria que flua em direção de ajudar os outros.

O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, o seu fundamento, o seu alicerce, cf. Provérbios 9:10, texto escrito pelo mesmo Salomão após receber de Deus este presente e comprovar como sendo um dos bens mais preciosos que alguém, eu e você, poderia sonhar em receber.

Pela humildade de se colocar diante de Deus com um coração sedento por sabedoria, ao invés de ganancioso pelos bens materiais, luxo e riquezas que este mundo pode oferecer, especialmente a um rei, o Senhor concede seu pedido, e lhe acrescenta até o que não pediu, aquelas coisas que todos desejam, e muitos até se destroem na tentativa desesperada de conseguir. E só após receber esse presente, Salomão desce o monte e vai realizar o seu trabalho. Trabalho que é feito de maneira apressada, sem ter recebido de Deus a sabedoria, por maior que seja o esforço e dedicação, não terá o mesmo sucesso que aquele empregado na força e sabedoria do Pai.

Concluindo, Tiago 1:5 nos fala que “se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada”. Sabedoria é o tipo de presente que Deus, que é um bom pai, tem prazer em dar a seus filhos, e, como diz o texto, de maneira liberal, ou seja, superabundante, e não lança no rosto, porque Ele mesmo sabe que a sabedoria produz frutos riquíssimos, de comunhão consigo mesmo, e de crescimento para seu povo.

A minha oração hoje, para mim e para você, é que possamos recorrer a Deus buscando a sabedoria para os nossos desafios diários que a vida nos apresenta, entendendo, como Salomão, que a sabedoria que vem do alto é a melhor coisa que podemos aspirar, a linha mestra que deve conduzir a nossa vida e as nossas decisões de modo a nos tornar pessoas felizes, prósperas e, principalmente, íntimas do Senhor.

Deus nos abençoe.

Meditação semanal: soldados

Nenhum soldado se deixa envolver pelos negócios da vida civil, já que deseja agradar aquele que o alistou. – 2 Timóteo 2:4

Ontem (25/08) comemorou-se no Brasil o dia do soldado, aqueles de nós que lembramos e consideramos essa data por alguma razão.

Soldado, aqui no texto bíblico, não significa a patente específica de uma força militar em particular, mas o combatente em geral, aquele que dá sua vida pela causa que lhe fez alistar-se, seja amor ao país, certos valores, ou, no nosso caso, nosso Senhor que nos arregimenta ao seu “exército”.

O apóstolo Paulo, autor desse texto, em uma das muitas metáforas que utiliza para a vida cristã, nos compara a soldados, e nosso Senhor Jesus Cristo a nosso general, comandante máximo, líder de sua tropa e a quem devemos submissão e honra, nos moldes da hierarquia e disciplina sem as quais nenhuma força armada consegue funcionar e operar, em tempos de guerra ou de paz.

Então, considerando esse texto, seu contexto e significado, que lições podemos tirar para nossa vida cristã?

Em primeiro lugar, como o próprio texto deixa claro, nenhum soldado se deixa envolver pelos negócios da vida civil, ou seja, a vida civil, em que pé esteja, não pode servir de obstáculo ou empecilho à nossa missão. Mas… que negócios seriam esses? Qualquer coisa que não diga respeito direta e imediatamente à própria missão, qual seja, viver e pregar que o Reino de Deus é chegado! Nesse sentido, temos que ter a clara noção da missão e da prioridade das coisas da vida: nos relacionarmos com Deus individualmente, em intimidade; nos relacionarmos com Deus como família, com nossas esposas e filhos; nos relacionarmos com Deus como igreja, irmãos e irmãs que se reúnem nos lares ou coletivamente; nos relacionarmos com Deus no mundo, ou seja, pregando seu amor e sacrifício em Jesus a quem ainda não Lhe conhece. Essa é a nossa missão diária, a nossa guerra.

Em segundo lugar, cabe lembrar outro texto do apóstolo Paulo sobre quem é nosso inimigo, contra quem fazemos guerra. Encontra-se em Efésios 6, do qual pinçaremos três versículos:

Vistam-se de toda a armadura de Deus, a fim de que possam permanecer a salvo das táticas e das artimanhas de Satanás. Porque nós não estamos lutando contra gente feita de carne e sangue, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais. Portanto, usem cada peça da armadura de Deus para resistir ao inimigo sempre que ele atacar e, quando tudo estiver acabado, vocês ainda estejam de pé. – Efésios 6:11-13

Nosso inimigo, irmãos, não é nosso governo do qual discordamos, forças políticas ou ideológicas A ou B, os corruptos e criminosos deste mundo que roubam a nossa paz, forças invasoras de um império estrangeiro, nem muito menos as pessoas com quem convivemos no dia a dia e que podem nos causar problemas, nos atormentar o juízo, algumas das quais bem próximas, colegas de trabalho querendo subir na carreira pisando em nossas cabeças, um chefe incompreensivo, ou quem sabe uma esposa, pais, filhos, irmãos de sangue que não compreendem os valores de Cristo e nos perseguem por essa razão (e feliz se formos perseguidos por essa razão, cf. Mateus 5:11, e não porque somos chatos mesmo, ou temos o temperamento difícil, ou somos maus profissionais ou pessoas de difícil convivência)…

Nosso inimigo é o diabo e seus demônios, buscando sempre uma brecha ou fragilidade em nosso caráter ou comportamento para nos atacar, já que sua missão é roubar, matar e destruir (cf. João 10:10): a nossa vida, a nossa família, o plano de Deus em e através de nós. Por isso as armas de nosso exército são armas espirituais, conforme a continuação do texto de Efésios: oração, meditação na Palavra de Deus, o próprio Espírito Santo… Foi com esse poder que Cristo, nosso comandante em chefe, venceu todas as ciladas de Satanás, desde o deserto em que foi tentado até a cruz, quando por sua morte venceu (SIM, sua morte nos trouxe vida, glória a Deus!) de uma vez por todas o inimigo, e nos capacita cada dia a fazer o mesmo pelo poder e autoridade do seu nome!

Uma terceira e última lição para nós hoje é a razão principal de não nos deixarmos envolver com as coisas dessa vida passageira, que é agradar Aquele que nos alistou. Isso mesmo! Como conscritos, não fomos nós que voluntariamente nos alistamos a uma causa, mas Deus que nos amou (cf. João 3:16) nos alistou no seu exército e então, por gratidão, honra e obediência, fazemos tudo que podemos para agradá-lo. Se soldados comuns possuem as razões que possuem para dedicar-se à sua missão, que dirá nós àquele que deu a própria vida em nosso favor? Por Jesus somos obedientes, a Deus fazemos sua vontade, mesmo sem entender, mesmo que seu plano seja distante da nossa compreensão, afinal, ao soldado lhe é confiada uma missão e essa deve ser cumprida e não questionada, mas o grande plano cabe ao general, cujo propósito vai muito além do aqui e agora que enfrentamos e que já nos causa suficiente comoção.

A minha oração hoje é para que, imbuídos desse entendimento, ajamos como soldados bem treinados desse exército, não abrindo portas para os ataques vis e sorrateiros do inimigo que tentará a todo custo obter vitórias sobre a nossa vida e sobre as vidas daqueles a quem amamos usando táticas ardilosas a fim de causar a maior quantidade de baixas de guerra. Busquemos vestir as armaduras espirituais que estão ao nosso dispor cada dia, permanecendo firmes e vigilantes como todo bom soldado, prontos a agir sempre que formos chamados ao combate.

Deus nos abençoe.

Meditação semanal: o exemplo de Jabez

Jabez foi o homem mais respeitado de sua família. Sua mãe lhe deu o nome de Jabez, dizendo: “Com muitas dores o dei à luz”.
Jabez orou ao Deus de Israel: “Ah, abençoa-me e aumenta as minhas terras! Que a tua mão esteja comigo, guardando-me de males e livrando-me de dores”. E Deus atendeu ao seu pedido. – 1 Crônicas 4:9,10

Em meu tempo a sós com Deus hoje pela manhã li esse trecho da Palavra onde conta, em apenas dois versículos, a vida deste homem ilustre chamado Jabez.

O trecho começa afirmando que Jabez foi o homem mais respeitado de sua família. Disso tiramos já duas lições:

  1. a família de Jabez era uma família de homens respeitados, o que nos leva a perceber o tipo de contexto familiar onde essa característica dele pôde nascer e florescer. Famílias saudáveis e de valores coerentes com o Reino de Deus tendem (percebam que o verbo é *tender*) a produzir membros e descendência cujos mesmos valores sejam perpetuados, cumprindo assim a promessa de Deus de fazer misericórdia a milhares dos que O amam (cf. êxodo 20:6). Então, no que cabe a nós, sejamos os agentes multiplicadores do amor de Deus em nossa casa!
  2. Jabez foi além do padrão familiar. Muitos de nós reclamam que viemos de contextos familiares nocivos, lares destroçados, pais abusadores, mas, respeitando realmente essas situações particulares que podem ser responsáveis por começarmos mal a nossa jornada e nos fazer carregar fardos pesados de traumas, vemos em Jabez um exemplo de alguém que foi além, não se limitou ao que aprendeu dentro de casa, mesmo que tenha sido algo já bom e proveitoso. Então temos hoje duas opções em nossas mãos: pegar a “maldição” que recebemos e fazê-la parar aqui, agora, em nossa geração, não passar adiante esse mal; ou nos deixarmos vencer e abater pelo mal sofrido e aprendido e fazê-lo nascer e crescer mais uma vez na vida de nossos filhos… É uma questão muito mais de escolha do que de discurso vitimista.

Perceba que o verso 10 fala que Jabez recebeu esse nome em razão de como tinha nascido, “com muitas dores”, costume da época dos pais batizarem seus filhos com base em sentimentos ou experiências pessoais, que acabava impactando a vida dessa pessoa para o futuro (outro exemplo é Jacó, que significa enganador, e que viveu realmente desta forma até seu encontro com Deus no vale de Jaboque, onde teve seu nome mudado para Israel). Jabez significa aflição, mas ele não parece ter vivido com base no significado do seu nome, nas expectativas de sua mãe, em um “rótulo” ou estigma social.

Ao contrário, talvez aquilo tenha lhe servido de motivação para a busca da excelência. “Eu não me deixarei dominar pela minha história e meu passado”, ou talvez ainda “eu não serei conhecido pelo meu nome, mas pelo meu caráter”. Não sei, só podemos imaginar, mas é algo razoável de pensarmos, e mais ainda de aplicarmos em nossas próprias vidas.

Se temos sido chamados de algo que pegou, e isso tem moldado nosso caráter até hoje, é hora e dia de mudarmos de vida, nos arrependermos e buscarmos a Deus como Jabez, que orou ao Senhor uma oração que, a princípio, poderia talvez nem ser respondida, por ser uma oração *aparentemente* egoísta (cf. Tiago 4:3), mas Deus curiosamente atende seu pedido. Ele não será mais conhecido como homem de dores, de aflições, de males, mas um homem cuidado pela mão do Senhor. O que nos impede de fazer o mesmo, buscarmos ao Senhor, invocarmos o seu nome, clamarmos pela sua benção e proteção?

Tenho por mim que sua oração foi respondida porque a motivação de sua oração por bens e prosperidade não era para gastar com seus próprios deleites e razões fúteis apenas, mas para propagar a benção de Deus em favor de outros, afinal ele era um homem excelente, o mais respeitado / honrado de sua família de homens também excelentes.

Que seu exemplo de vida e oração possam servir a nós, hoje, em nome de Jesus.

Deus nos abençoe.

Meditação semanal: Deus, o melhor Pai

“Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.
Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono.
Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão.
Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade.
Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, mas falarão com os seus inimigos à porta.” – Salmos 127:1-5

Ontem foi dia dos pais, meu primeiro dia dos pais, mesmo que Benjamin ainda esteja na barriga da minha mulher, e ultimamente tenho meditado na qualidade de Pai que temos em Deus. Deus, o Senhor, é o nosso pai, e que pai!

É Ele quem edifica nossas casas, nossas vidas, nossos casamentos, nossas famílias, e nos será inútil empreender qualquer esforço que seja desprovido dessa percepção e desse reconhecimento. Devemos, portanto, nos colocar numa posição de completa submissão e dependência dEle, como filhos pequenos em relação ao seus pais terrenos, que confiam cegamente naqueles que para si são como “super-heróis”.

Em outra passagem, Jesus, confrontando os líderes religiosos, diz que se nós, sendo maus, sabemos dar boas coisas a nossos filhos, que dirá Deus, o melhor Pai, aos seus filhos, fazendo menção especificamente ao melhor presente, que é o seu próprio Espírito Santo a habitar em nós (cf. Lucas 11:13).

O melhor que podemos considerar entregar às próximas gerações, aos nossos filhos que, como o salmista enfatiza, são herança do Senhor, nosso maior “patrimônio”, nossa recompensa, mais do que a educação ou o cuidado – que já fazemos! – é o entendimento de que eles pertencem não a nós, mas a Deus, nós somos meros mordomos de suas vidas enquanto estiverem sob nossa responsabilidade.

Pense nisso hoje, mesmo você que talvez ainda não seja pai. Que o Senhor que é o nosso Pai, o melhor pai que alguém poderia desejar, capacite você a também desempenhar bem esse papel tão importante, que você nunca esqueça que pode contar sempre com Sua ajuda, e mesmo que você não tenha tido um pai tão bom assim, saiba que Deus é infinitamente melhor e pode lhe capacitar a ser o tipo de pai que você gostaria de ter tido, vencer os traumas passados e entregar uma melhor criação aos seus próprios filhos.

Essa é a minha oração hoje por mim e por você.

Deus nos abençoe.

Meditação semanal: sobre o amor sofredor

O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. – 1 Coríntios 13:4

O texto bem conhecido de 1 Coríntios 13, tão lembrado em contextos de amor romântico, casamento, namoro etc., na verdade está inserido entre dois capítulos que falam dos dons espirituais que o Espírito Santo concede à sua Igreja.

O amor a que Paulo se refere é um dom de Deus, e não apenas qualquer dom, mas o dom que reflete um de seus atributos divinos. Amor não é simplesmente um sentimento, amor é uma decisão e uma predisposição de se entregar em prol da pessoa amada, entrega que significa serviço sacrificial. Não à toa, o amor de 1 Coríntios 13 é o amor agape.

Começamos domingo último uma série de pregações em nossa igreja sobre o serviço, e vimos que Cristo deu-nos o exemplo do tipo de serviço que agrada a Deus, aquele que é feito para sua pessoa, ainda que reflita em nossos irmãos ou outras pessoas. Sendo assim, reflita comigo nesta pergunta: Será que tenho amado verdadeiramente a Jesus, de maneira sacrificial? Será que esse amor tem me levado a servi-lo e à sua família com dedicação?

Cristo deu-nos a si mesmo em nosso favor, em nosso lugar, Ele mesmo é a essência do servo sofredor, conforme descrição do profeta Isaías, Ele, cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e nos leva a um entendimento correto do que é o serviço, que não é mero ativismo, não é o “servir” pelo servir, que pode virar idolatria, mas onde essa ação, juntamente com esse propósito e essa motivação, juntas, em sinal de obediência, agradam o Pai.

O amor, este que é o melhor dos dons, cf. 1 Coríntios 12:31, nos faz caminhar a segunda milha, dar a outra face, perdoar, exercitar a mutualidade, aproxima os que estavam distantes, e nos capacita, nós que já somos próximos – irmãos! família! – a vivermos juntos em unidade e intimidade.

A minha oração hoje é para que cada um de nós, juntamente com nossos familiares e pessoas a quem amamos, possamos aprender com Jesus o significado de ser servos. Que esses dois meses de estudo sobre esse tema possam ser abençoadores, mas também desafiadores, chacoalhando nossas estruturas, quebrando cadeias de preconceitos e nos retirando da nossa zona de conforto em direção à vontade de Deus. E nisso, caminhando até lá chegarmos, exercitarmos a disciplina do serviço, de maneira a sermos cada dia mais parecidos com Jesus, nosso Senhor.

Deus nos abençoe!