A verdadeira semeadura financeira

Assim, achei necessário recomendar que os irmãos os visitem antes e concluam os preparativos para a contribuição que vocês prometeram. Então ela estará pronta como oferta generosa, e não como algo dado com avareza.
Lembrem-se: aquele que semeia pouco, também colherá pouco, e aquele que semeia com fartura, também colherá fartamente.
Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.
E Deus é poderoso para fazer que lhes seja acrescentada toda a graça, para que em todas as coisas, em todo o tempo, tendo tudo o que é necessário, vocês transbordem em toda boa obra.
Como está escrito: “Distribuiu, deu os seus bens aos necessitados; a sua justiça dura para sempre”.
Aquele que supre a semente ao que semeia e o pão ao que come, também lhes suprirá e aumentará a semente e fará crescer os frutos da sua justiça.
Vocês serão enriquecidos de todas as formas, para que possam ser generosos em qualquer ocasião e, por nosso intermédio, a sua generosidade resulte em ação de graças a Deus.
O serviço ministerial que vocês estão realizando não está apenas suprindo as necessidades do povo de Deus, mas também transbordando em muitas expressões de gratidão a Deus.
Por meio dessa prova de serviço ministerial, outros louvarão a Deus pela obediência que acompanha a confissão que vocês fazem do evangelho de Cristo e pela generosidade de vocês em compartilhar seus bens com eles e com todos os outros. – 2 Coríntios 9:5-13

Acho muito bacana esse texto, pois lido como um todo, dentro do seu contexto, podemos desmascarar um dos versículos mais usados erroneamente pelos adeptos da teologia da prosperidade, que aquele que fala da semeadura, como se devêssemos investir em Deus, ou melhor, em uma instituição religiosa terrena que se faz chamar de igreja e age supostamente em nome de Deus, literalmente como um investimento financeiro, como um CDB ou caderneta de poupança, e Deus garantiria, supostamente, o retorno, a uma taxa de juros impraticável em qualquer operação honesta…

Não, esse texto não fala sobre esse tipo de investimento. De fato, coloquei um contexto maior para dar o real pano de fundo desse texto da semeadura, qual seja, uma coleta que havia sido feita VOLUNTARIAMENTE pela igreja da Acaia (região de Corinto) e avisada ao apóstolo Paulo, com a finalidade específica de ajudar uma outra igreja cujos membros estavam padecendo de severas necessidades.

O dinheiro então 1) não foi pedido, implorado, ou pior extorquido pelo apóstolo Paulo que não usou de sutilezas ou de chantagem emocional, ou ainda de suposta hierarquia ou unção, ou conexão com o Pai para angariar esses fundos, que 2) foram usados para comprar comida, roupas talvez e quem sabe água, muito como nós hoje fazemos pelos sertanejos aqui no Nordeste ou quando acontece algum desastre natural e fazemos coletas e doações para os desabrigados, e não para comprar equipamentos luxuosos para as igrejas-instituições, nem construir estruturas físicas megalomaníacas, nem exaltar uns e outros à condição de celebridades, nem manter um padrão de vida elevado e destoante do restante dos fiéis que possuem alguns líderes religiosos.

É engraçado, aliás, seria se não fosse trágico mesmo, que no meio do texto que fala de semeadura, e percebemos que a semente é financeira mesmo, vemos que devemos dar de coração, não de maneira forçada, constrangida, ou como barganha, pois Deus se alegra daquele que oferece-se sacrificialmente até, mas não por um negócio, não com o fim de ficar rico depois ou ser curado ou ter seus problemas resolvidos, mas, ao contrário, a fim de resolver os problemas (ou ajudar, pelo menos) dos outros, numa disposição altruísta de espírito que em nada lembra aquilo que é ensinado nessas igrejas caça níquel de hoje.

Finalmente, o apóstolo Paulo nos dá 3 lições a respeito dessa oferta generosa que coletamos em prol dos desfavorecidos:

  1. Deus já é fiel em nos suprir, independente da nossa fidelidade, então não pagamos pela sua fidelidade. O que fazemos, portanto, é uma demonstração nossa de gratidão a Deus pelo muito que temos, pelo muito que recebemos, e recebemos dEle! Isso é importante porque demonstra nossa gratidão, mas também a daqueles que recebem o amor de Deus de forma prática através das nossas vidas, da nossa ajuda.
  2. Deus NÃO nos retribui com vistas a que fiquemos ricos ou vivamos sobejando, ou luxando, ou coisa que o valha. O texto claramente diz que seremos enriquecidos em tudo (!!!) para que possamos ser generosos em qualquer ocasião, e que isso então redunde em ação de graças a Deus, que é um deus generoso e que não deseja que ninguém passe necessidade, portanto, o que Ele porventura dá “a mais” a uns é especificamente para suprir as eventuais necessidades de outros.
  3. O resultado da generosidade de nosso coração, da nossa resposta positiva ao chamado e mandamento de Deus, é que as pessoas irão reconhecer que a nossa fé é autêntica e não vazia, que nosso discurso não é mera teoria, que o Deus que nós dizemos crer é de fato o único e verdadeiro Deus, que não é uma divindade distante e má, antes é um Deus perto e Pai de amor.

Ao lermos textos como esse somos revigorados em nosso entendimento de que devemos sim dar nossos dízimos e ofertas, mas não como muitas vezes temos feito, ou como muitas vezes, infelizmente, temos sido ensinados ou cobrados em igrejas cuja administração não é transparente, dinheiro que muitas vezes não tem sido bem empregado, cuja finalidade, assim como a motivação de dar, passa longe daquilo que Deus, Cristo e seus discípulos nos ensinaram nas Escrituras. A motivação correta é a de salvar vidas através da propagação de um evangelho integral, que foi aquele ensinado por Jesus, uma fé não apenas teórica ou que se pauta exclusivamente no aspecto religioso ou espiritual da vida da pessoa mas alcança todas as dimensões de sua existência, pois dificilmente a pessoa reconhecerá o amor de Deus se nós que nos dizemos seus filhos, sua família, dizemos um “Deus te abençoe” para o miserável faminto e não damos o pão que irá matar sua fome, tendo nós bastante ou até sobrando.

Deus nos abençoe.

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Carol

“Se for mulher, vai se chamar Carol…”

Assim me respondeu uma mulher grávida que pede esmolas na Av. Rogaciano Leite quando perguntei se já tinha escolhido o nome de seu bebê.

Já falei dela antes e hoje, “coincidentemente”, neste dia das mães, voltei a vê-la.

Não passa despercebida a sua magreza, o seu ar doente, o seu abandono.

É curiosa, no entanto, a mudança no seu olhar quando perguntei pelo nome de sua criança que ainda haveria de nascer.

Foi quase como se ela tivesse pousado novamente seus pés de volta à realidade, recuperado ainda que momentaneamente a identidade, a humanidade.

Ouvir que alguém realmente tinha curiosidade de saber, e mais do que mera curiosidade como um expectador que olha para um bicho por trás das grades de um zoológico, alguém que parecia se importar, sim eu estranhamente me importei, qual seria o nome que ela escolheu para seu filho ou filha, talvez uma das poucas escolhas que ela se possa dar o luxo de fazer, deu um brilho de orgulho àquela mulher privada de todo ele, um orgulho de poder reconhecer que breve seria mãe, mãe de uma criança que essa sociedade não irá receber de braços abertos como já não o faz com a própria mãe, alguém que já desde o ventre é despida de sua dignidade, felicidade, esperança, humanidade.

Que Deus abençoe aquela mulher com quem eu nunca hesito em falar, vai que eu sou o único infeliz a lhe dirigir a palavra o dia inteiro, uma frase de verdade ao invés de um sonoro não com a cara fechada.

Que Deus abençoe aquela criança, que seja mais uma Carol para alegrar a vida de sua família e de todos nós, alguém que possa ter um futuro melhor por mais que tudo diga o contrário e conspire contra.