Igreja Batista de Vilas do Atlântico

Não sei se escrevi o nome Vilas do Atlântico correto; hoje em dia, com a mania de internacionalizar, seja para o inglês, francês ou outro idioma, os nomes dos empreendimentos imobiliários, fica cada vez mais difícil soletrar um nome aparentemente comum.

Mas voltando ao assunto do post (cá estou eu internacionalizando esse texto), ontem pela manhã fui prestar culto na Igreja Batista de Vilas do Atlântico, por convite dos tios de minha namorada que lá frequentam.

Chegamos minha namorada, sua mãe e um tio, e eu na igreja à tempo de assistirmos parte da escola bíblica, ministrada por um pastor já bem idoso, e que, pelo sotaque, aparentava ser de origem extrangeira. Mas que conhecimento possuía aquele senhor. E empolgação. Gostei bastante do que ouvi, e ele me lembrou bastante Maurição, um bastião da fé e do conhecimento da Palavra de Deus que conheço.

Posteriormente seguiu-se o culto propriamente dito, e na hora da mensagem, o pastor pregou sobre um tema bastante relevante e contextualizado para a realidade local de Salvador, a visão da bíblia, e de Deus, sobre a feitiçaria, bruxaria, tão comum, infelizmente, no nosso meio. Ele usou diversos versículos e textos como suporte, mas iniciou usando o texto de Deuteronômio 18:10-14, que diz "Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR, teu Deus, os lança de diante de ti. Perfeito serás para com o SENHOR, teu Deus. Porque estas nações que hás de possuir ouvem os prognosticadores e os adivinhadores; porém a ti o SENHOR, teu Deus, não permitiu tal coisa.".

O pastor falou sobre os diversos tipos de abominação mencionados no texto, inclusive a própria palavra abominação, que significa algo como irritar além dos limites do tolerável, e falou sobre a questão das "macumbas" e "trabalhos", quais as possíveis influências na vida de uma pessoa, e do crente, em particular, bem como que as pessoas estão mais interessadas nos resultados, que tudo aconteça rápido e buscam essas coisas por não ligarem para o "como" acontecem, nem as implicações espirituais (e não apenas espirituais como ele explicou, e segundo os demais textos que ele usou). Além disso falou sobre as possíveis brechas que damos à ação do inimigo nas nossas vidas ao nos misturarmos com esse tipo de coisa, e, generalizando um pouco, nos envolvendo com coisas que, a princípio não teriam problema algum isoladamente, mas num contexto que muitas vezes podemos desconhecer, e conjuntamente podem fazê-lo.

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O mensageiro e a mensagem

Conta-se que os povos antigos, ao receberem uma mensagem da qual não gostavam, como sinal de resposta para quem havia enviado tal mensagem, costumavam matar o mensageiro e enviar seu corpo de volta. Certamente o mensageiro não tinha culpa ou responsabilidade nenhuma sobre o conteúdo da mensagem, só estava cumprindo a sua obrigação ao entregar a mensagem que lhe fora confiada.

Mas, e se o mensageiro, antevendo sua provável execução, resolvesse modificar o conteúdo da mensagem? Se a mensagem fosse escrita, e contivesse o selo do autor, sua adulteração seria muito difícil, embora não fosse impossível. Mas, e se a mesma fosse transmitida oralmente? Com certeza seria extremamente simples o mensageiro alterar a mensagem, de modo a adequar à uma situação na qual o resultado da mensagem entregue lhe fosse mais favorável. Poderia tentar tornar mais suave o conteúdo da mensagem, tirar-lhe a possível dureza, talvez a urgência de determinada decisão ou ação, por medo, ou quem sabe outros sentimentos, do que poderia lhe acontecer se somente entregasse a mensagem original.

Vamos analisar uma outra situação. Digamos que o mensageiro recebe a mensagem de seu senhor e, ao partir ao seu destino, comove-se com a situação de pobreza do local, torna-se amigo das pessoas que receberiam a mensagem, percebe uma realidade na qual a sua interferência torna-se necessária e então passa a anunciar uma mensagem cujo conteúdo, ainda que coerente com a realidade a que se propõe e na qual está inserida, ainda que eticamente (segundo os valores daquela sociedade) correta, ainda que tenha um bom propósito ou a melhor das intenções, é uma mensagem diferente daquela que deveria dar. A sua relação com os destinatários passa a ser mais prioritária em sua vida do que sua responsabilidade para com a mensagem ou para quem lhe confiou a entrega da mesma.

Por que estou escrevendo sobre isso? Não que haja necessariamente um porque em tudo que escrevo, mas percebo, nessa mensagem, uma semelhança com a Palavra de Deus, e os profetas que estão a pregar no mundo e na realidade que vivo.

Com medo de serem crucificados por uma platéia que paga seus salários, preferem falar sobre temas fúteis e que agradam ao coração, ignorando a mensagem que receberam de seu senhor, Deus, e passam a entregar uma mensagem que está apenas em seu interior, sendo fruto de sua própria experiência de vida, seus medos e anseios, diferente daquela que deveria ser anunciada. Esquecem-se que, embora talvez dura, a mensagem original é necessária, se assim não o fosse não teria sido enviada.

De maneira similar, muitos mensageiros hoje em dia alteram a ordem de prioridades, e, esquecendo-se da mensagem principal, aquela enviada e que deveria ser entregue, passam a pregar sobre a ordem política, social e religiosa, como nos adequarmos a uma determinada realidade, como vencermos em um mundo que conspira contra nós, como devemos abrir nossos corações para sentimentos e tantas outras mensagens verdadeiras, dignas, necessárias, mas cuja importância, àquele que enviou a mensagem, é inferior aquilo que ele ordenou que fosse dito.

Mas ainda existe outro tipo de mensageiro, aquele que não entrega a mensagem, não por medo do que possa lhe acontecer, não por se preocupar com a realidade que afeta aqueles a quem deveria falar, mas por perceber, na sua platéia, uma audiência que crerá, inadvertida e inerrantemente, em tudo que disser, seja ou não verdade, seja ou não a mensagem que deveria proclamar. Esse mensageiro ignora tanto o remetente, quanto o destinatário e a mensagem e passa a proferir mentiras que servirão apenas aos seus propósitos, ao seu enriquecimento pessoal, ao orgulho e cobiça do seu coração.

Um último tipo de mensageiro é aquele que, como o profeta Jonas, recebe sua mensagem, e resolve fugir da sua responsabilidade. O mensageiro não deseja ser mensageiro, não deseja entregar essa mensagem em particular, não deseja entregar a quem foi enviado a entregar, tem interesses diversos daqueles cuja mensagem fala, ou tantas outras razões que o fazem ignorar a mensagem, o autor e o destinatário, não para falar do que lhe agrada, mas apenas para, em sua inércia, fugir para uma realidade alternativa onde não precise ser o responsável pelo destino daqueles a quem cabia receber a mensagem. Este tipo de mensageiro talvez seja o pior de todos, não sei se poderia julgar, mas ele eventualmente até pode entregar a mensagem, mas entrega incompleta, fala apenas superficialmente sobre a mensagem, mas não entra no assunto que deveria ir, no nível de profundidade necessária, não fala tudo que deveria falar, que é uma fuga muito mais ardilosa do que a fuga física, pois é uma suposta presença, algo que gera um sentimento de dever cumprido em si, e a sensação nos outros de que a mensagem foi entrega, quando a mesma não foi na sua integridade.

Concluindo, a mensagem de Jesus foi clara, objetiva, simples, e estava caracterizada em dois eixos principais e dois mandamentos: arrependimento e urgência, e amor a Deus e ao próximo, respectivamente. Quando um mensageiro, um pregador, um profeta, um discipulador, alguém, resolve entregar ao povo de Deus, ou mesmo à sua Nínive particular, uma mensagem diferente desta, ou que não tenha a prioridade que esta tem, ao invés de falar daquilo que deveria falar, seja por medo, por compaixão à realidade das pessoas, por interesse pessoal ou por fuga, o mensageiro deixa de cumprir o seu papel, não serve para aquilo a que foi convocado pelo seu senhor.

Deus não se interessa por mensageiros que fujam, que modifiquem sua mensagem, que fale aquilo que está sem seu próprio coração ou faça outra coisa que não aquilo para o que foi escolhido e a que foi confiado esta missão. Quando perdemos o foco daquilo para que fomos chamados, quando esquecemos a mensagem que nos foi entregue, perdemos a nossa razão de existir, nos tornamos mais um na multidão, talvez necessitando que outro mensageiro venha a entregar a mensagem original, e nos traga também um recadinho do nosso senhor nos chamando de volta à responsabilidade, à realidade, à prioridade.

Sofrimento

Jesus nunca prometeu a ausência de sofrimento na vida de ninguém, menos ainda na daqueles que porventura o seguissem.

Ao contrário, ele disse "no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo". Muitos interpretam erroneamente esta passagem como se ‘nós’ tivéssemos vencido o mundo, ou ainda ‘porque (ou assim como) Jesus venceu o mundo, eu também vencerei’. Esta passagem não fala disso, fala apenas que tenhamos bom ânimo confiados no fato que Jesus venceu o mundo, com tudo que há de mal nele. Ponto. Nada mais. Sem especulações, filosofias ou devaneios.

Por que estou escrevendo sobre isso? Porque estou lendo o livro de Jó, e para aqueles que não sabem, como aparentemente as igrejas neo(pós)pentecostais parecem não saber (especialmente a Universal, cujos mega-templos exibem em letras garrafais faixas contendo os dizeres "pare de sofrer", e coisas semelhantes), o livro de Jó trata basicamente do sofrimento. E pasmem, sofrimento do justo, alguém tão justo que chama a atenção de Deus a ponto dEle desafiar Satanás a fazê-lo esmorecer (eu não sei vocês, mas provavelmente eu não duraria nem um dos ‘rounds’ que Jó aguentou, ainda que eu fosse tão justo a ponto de chamar a atenção de Deus, o que infelizmente não sou).

Jesus nunca prometeu uma vida livre de tribulações, aflições, problemas, então pare de reclamar, porque TODOS os discípulos de Jesus foram perseguidos, viveram (e morreram) duramente, aliás, os profetas também, cristianismo não é bote salva-vidas de problemas (ainda que eventualmente alguns tipos de problemas deixem de acontecer devido a transformação de vida operada pelo Espírito Santo). Essa teologia imediatista de que o cristão não pode sofrer, de que o cristão não adoece, me desculpe, mas não é cristã.