1 Tessalonicenses 5:8

Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo a couraça da fé e do amor e o capacete da esperança da salvação. – 1 Tessalonicenses 5:8

Acho bacana esse texto de 1 aos Tessalonicenses porque apesar de pequeno, traz profundas lições a nós que nos chamamos de cristãos:

  1. Paulo no contexto compara o mundo enquanto sistema social perverso que foge de Deus e de seus valores, e de modo ativo Lhe desobedece, às trevas, e aqueles que se deixaram impactar pelo amor de Deus, seu perdão, graça e bondade, os homens e mulheres que vivem o evangelho prático de arrependimento, confissão de pecados e obediência ao Pai, à luz. Semelhantemente chama aos primeiros de criaturas da noite, enquanto aos últimos de criaturas do dia, não que a noite em si mesma carregue consigo algum mal, mas pelo aspecto do escondido, da escuridão das trevas como parâmetro de comparação entre aqueles cuja bondade não poderia ser escondida ainda que quisessem, e aqueles cuja maldade reclama a escuridão sob pena de ser exposta, e a seu praticante, à vergonha, ao julgamento, à condenação.
  2. Da mesma forma Paulo toca, repetidas vezes (e eu iria dizer que de forma indireta, mas dificilmente eu poderia entender como algo incidental uma coisa que se repete uma e outra vez) sobre a necessidade de nos mantermos sóbrios, em contraposição à nos embebedarmos, embriagarmos, e aqui não se refere ao mero uso de bebida alcoólica, até porque ele mesmo bebia (e tanto que recomendou a Timóteo que usasse do vinho para combater um problema estomacal), mas se olharmos por esse aspecto, inicialmente, para exercitarmos de moderação em tudo quanto fazemos, mesmo em coisas que não tem valor em si mesmos ou até que são boas, mas quando tomadas em excesso produzem males as vezes irremediáveis, e aqui uso o verbo tomar pela semelhança com o ato de beber, mas coloco verdadeiramente com respeito a qualquer coisa que façamos, deixemos de fazer, pensemos ou falemos. A sobriedade então se reveste mais de uma postura de responsabilidade com relação a nós mesmos, a Deus e aos outros, para não sermos surpreendidos por situações que estariam muito bem em nosso controle e, por descuido, despreparo, irresponsabilidade mesmo, nos achamos reféns de resultados que podem muito nos prejudicar.
  3. Por fim não posso deixar de me lembrar da semelhança desse texto com o de Efésios 6 onde o mesmo Paulo descreve a armadura que todo cristão tem necessariamente de vestir se desejar ser vitorioso contra as armadilhas do diabo. Isso mesmo. A nossa luta não é contra carne ou contra sangue, como diz o verso 12 de Efésios, no sentido de contra pessoas individualmente (ainda que tenhamos muitos “inimigos”, ou desafetos, pessoas que intentam o mal contra nós, psicopatas de um mundo vil, criminosos e tantas pessoas que nos fariam talvez questionar a realidade desse versículo), mas contra um reino espiritual que é real e faz (ou tenta, no melhor de seu esforço) contraposição ao reino de Deus do qual somos ao mesmo tempo súditos e embaixadores, um reino que aprisiona pessoas em ciladas demoníacas de sujeição a desvalores morais, onde pessoas são rebaixadas à condição de coisas, onde relacionamentos não valem mais nada, ou melhor valem apenas o quanto se pode pagar, o quanto um pode representar como vantagem para o outro, de fato, para cada valor ou princípio divino que, creia, é o melhor para a humanidade criada pelo Pai, quer impor, nos indivíduos e no inconsciente coletivo, no sistema político, social, cultural e econômico, o exato oposto, um outro “valor” que deturpe, que destrua, que mate e rouba como o próprio Cristo fez questão de avisar (João 10:10). É uma luta, diária, para a qual não podemos em hipótese nenhuma ir desarmados, desprotegidos, e sem a devida cautela e preparo, tanto físico, quanto psicológico/emocional, quanto, principalmente, espiritual. É interessante, contudo, que não nos valemos da lógica desse mundo para combatê-lo, nem confiamos em armas e estratégias militares (Salmos 20:7) para derrotar tão sagaz, feroz e potente inimigo, mas as nossas vestimentas e a nossa estratégia nos são dadas pelo Espírito Santo que guerreia conosco, ao nosso redor e em nosso coração, e consistem não de qualquer espada de metal, carabina ou canhão, ou ainda capacete ou uniforme camuflado, por exemplo, mas da fé, amor, e esperança da salvação, pelos quais e para os quais lutamos, uma vez que são meio e fins em si mesmos.
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Caridade para ver ou ser vista?

“Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus”. – Mateus 5:14-16

 Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial. “Portanto, quando você der esmola, não anuncie isso com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu lhes garanto que eles já receberam sua plena recompensa. Mas quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a direita, de forma que você preste a sua ajuda em segredo. E seu Pai, que vê o que é feito em segredo, o recompensará”. – Mateus 6:1-4

Dois textos, um mesmo contexto, duas mensagens opostas entre si.

Do mesmo sermão da montanha extraímos alguns ensinamentos de Jesus a respeito da ação de dar esmolas, realizar caridade na forma de ajuda, boas ações, etc, que embora tenham, na ação, o mesmo resultado, trazem consigo motivações completamente diferentes:

  • no primeiro texto, Cristo nos ensina que devemos praticar boas obras, que devemos ser luz, figurativamente falando, em um mundo que jaz na escuridão do maligno que se traduz, além do aspecto espiritual escatológico, e de outros aspectos espirituais, principalmente no aspecto da exploração do homem pelo homem, na coisificação das pessoas e relações, na degradação moral, na falta de amor pelo próximo, amor tão exemplificado na vida e obra do Mestre. Então num mundo tão tenebroso é natural que qualquer luz seja percebida, na pior escuridão qualquer “vagalume” é facilmente encontrado, não “precisamos” de um farol, de luzes produzidas por puro exibicionismo, como verdadeiros holofotes. Essa é a mensagem de Jesus quando diz que nossas boas obras devem apontar para Deus, nós nunca devemos tirar isso da nossa mente, a nossa caridade, fruto da ação do amor de Deus em nossos corações, deve apontar para o Pai e não ser usado para vanglória pessoal.
  • no texto dois, Jesus nos ensina também a praticarmos boas obras, chamadas obras de justiça, mas aqui ele deixa bem claro, se porventura a mensagem não tinha sido bem entendida, de que devemos ter cuidado para não nos aproveitarmos de uma situação de exploração do outro para obtermos vantagens pessoais, engrandecimento próprio, para “querermos aparecer” com a desgraça alheia, ou seja, fazermos nossas doações, de dinheiro, bens, tempo, nossos dons e talentos, verdadeiramente ajudando quem precisa, mas com a motivação errada. Isso desvirtua completamente a prática da caridade pois já não é de coração, e sim do “estômago”, movido por vaidade e não por desprendimento, não glorifica a Deus, muito ao contrário, apenas a nós mesmos, se muito, quando não é tão descarado que gera até constrangimento.

Pensemos nisso, porque até para sair nas ruas e protestar, ou ajudar os outros, tem gente que vai só pela muvuca, pela festa, e fica tirando foto para facebook e instagram, esquecendo-se, se é que pensaram nisso, que no dia seguinte tudo volta ao “normal”, normalidade que é desgraçadamente infeliz para os que sofrem a dor da miséria e abandono.

Deus nos abençoe.