Desviados

Ontem, conversando com alguns amigos, fiquei triste ao saber que conhecidos meus de tempos passados, ex líderes de jovens em suas respectivas igrejas, que serviram ao Senhor e até abraçaram a obra, tinham se desviado, “chutado o pau da barraca”, indo para o mundão “com gosto de gás”.

Embora falho como todo ser humano e como todo ser humano sujeito a esse mesmo processo de queda, se não me cuidar (cf. 1 Coríntios 10:12), é algo que honestamente nunca vou entender, pois apesar de conviver com uma humanidade falha, pessoas que nos deixam na mão, nos desapontam, cometem todo tipo de sacanagem comigo e com você, eu inclusive infelizmente, o meio religioso, onde essas histórias deveriam menos acontecer, ainda é palco para que muitas vezes continuem ocorrendo, no entanto, a mais remota hipótese de contemplar o mundo como uma alternativa viável e razoável à qualquer igreja, por pior que seja, não me atrai de nenhuma maneira, não tem qualquer resplendor por mais ilusório que pareça.

Ver homens e mulheres outrora dedicados ao Senhor hoje entregues às falsas alegrias que o mundo afirma proporcionar, e não preciso entrar em detalhes, me faz refletir sobre a minha própria fraqueza e humanidade. Penso com meus botões sobre seus líderes, pastores, que devem chorar em seus corações de angústia ao ver suas ex ovelhas tão distantes dos caminhos do Senhor sem nada poderem fazer. Não tenho como ficar feliz ao vê-los dessa maneira, embora certamente agradeça a Deus por, apesar das inúmeras “oportunidades” de também estar lá, Ele mesmo ter me preservado de tamanho sofrimento, mantendo-me sempre perto dos seus caminhos, mesmo quando eu mesmo me achava distante.

A minha oração hoje é que encontremos no Senhor bases firmes para construir a nossa casa sobre a rocha que é Cristo, não pessoas, entendendo que mesmo nos desapontando, decepcionando e traindo, o que não justifica mas explica seu comportamento, elas continuam sendo gente como a gente, e isso não deve ser razão para abandonarmos a igreja, comunidade terapêutica que como hospital deve sempre ser lugar de tratamento para os cansados e abatidos (embora não dirigida por loucos como um hospício às avessas, que é o retrato de muitas comunidades religiosas hoje infelizmente). Pastores também são homens como nós e suas possibilidades de alcançar suas ovelhas só vai até onde elas se permitem tratar, admoestar, mesmo como os animais, com batidas na pata pelo cajado se preciso for, e se como ovelhas nos revoltarmos contra esses chamados de atenção e fugirmos para longe dos caminhos do Senhor, nós mesmos seremos os principais prejudicados.

Deus nos abençoe.

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Estudo EBD 06/12/2015 (Isaías 29)

O capítulo 29 de Isaías continua sob o mesmo contexto do capítulo 28, ou seja, após Deus, através do profeta, ter trazido uma palavra de revelação a respeito da destruição que iria acontecer com as nações ao redor de Israel/Judá, e falar sobre aquilo que cada povo tinha de mais precioso e para o qual o povo de Deus olhava e confiava nessas coisas ao invés de em Deus, e que o Senhor iria destruir, como prova de que devemos depender e confiar somente nEle, temos agora o relato do que iria acontecer especificamente com Israel, primeiro por essa condição, ou seja, de depender dos outros povos e não de Deus, e depois em razão de outros pecados que já não tinham a ver com outros povos.

Os primeiros dois versículos retratam Jerusalém como Ariel, palavra que pode significar duas coisas:

  • a primeira dessas coisas é “Leão de Deus”, já que Jerusalém era forte como um leão na percepção dos povos ao seu redor;
  • a segunda é “altar de Deus”, uma vez que lá ficava localizado o templo do Senhor, onde, na percepção do povo, Deus habitava, e no contexto dessa profecia, indicava o futuro sangrento de Jerusalém, que seria sitiada pelos seus inimigos.

O verso 1 traz ainda a expressão “acrescentai ano a ano, e sucedam-se as festas”, o que alguns comentaristas afirmam que, nesse contexto de início de uma profecia, significava o marco temporal para quando a mesma iria se realizar (pelo menos a primeira metade da profecia, como veremos), ou seja essa palavra começaria a acontecer depois de decorrido um ano.

Isso é importante porque apesar de Isaías trazer uma palavra de “desgraça” e destruição, como já vimos até aqui no chamado do profeta, a mensagem que Deus levaria ao povo através dele não seria ouvida (Isaías 6:9,10), ou seja, ninguém daria a devida importância, não causaria o clamor nem o pesar nem o arrependimento nem o medo que uma palavra de tal ordem deveria causar.

Além disso, vejam que o povo iria continuar na sua vidinha diária, fazendo seus afazeres, e inclusive, pelo costume, participando de manifestações de cunho religioso (as festas da páscoa, do pentecostes e dos tabernáculos), “espiritual”, mas que na verdade não tinham base nenhuma, nenhum significado, era só aparência, só “casca”, era só pra “cumprir tabela”, não demonstravam verdadeiro arrependimento e uma vida consagrada de verdade, e nós sabemos que Deus não se importa com aparência, não se importa com meros rituais, hoje não é assim e já não era no antigo testamento, apesar do contexto e da realidade social serem bem diferentes dos nossos após a primeira vinda de Jesus. Para eles aquilo tudo era uma obrigação burocrática como qualquer outra, e só.

Então imagine aí você como profeta trazer a mensagem que vamos ver agora para o povo, uma mensagem terrível, e o povo não estar nem aí, como será que você enquanto profeta ficaria, e Deus enquanto Senhor daquele povo?

A mensagem de destruição é a que se encontra nos versículos 2 a 16 que tem algumas características que vale a pena ressaltar.

A primeira delas é que é Deus mesmo quem exerce o juízo. Vemos que os verbos estão todos conjugados na primeira pessoa, ou seja, é Deus falando que vai agir. Veja: “porei a Ariel em aperto” – v. 2; “te cercarei com o meu arraial, e te situarei com baluartes, e levantarei trincheiras contra ti” – v. 3; “Do Senhor dos Exércitos será visitada” – v. 6; “Porque o Senhor derramou sobre vós um espírito de profundo sono e fechou os vossos olhos. Mesmo que Deus vá usar os povos ao redor de Israel para exercer esse juízo, como vemos no verso 5, é dEle que vem esse castigo, não é algo sem um propósito ou aleatório.

A segunda, como vimos no capítulo 28, versos 10-13, fala novamente sobre o fato do povo não querer ouvir a mensagem, estar completamente cego, surdo e de fato sem entendimento a respeito da mensagem. Como no capítulo 28, é como se Deus falasse como uma criança de colo, palavras balbuciadas sem sentido, as quais não é possível entender, ou mesmo em um idioma desconhecido que não pudessem traduzir, e aqui no capítulo 29 Deus traz novamente uma alegoria para descrever essa situação de descrença do povo, quando diz que derramou sobre o povo um sono profundo, ou seja, as pessoas estavam embriagadas de sono ao ponto de não entenderem direito o que estava se passando ao redor delas.

Cá entre nós, quantos de nós já não experimentamos uma situação assim onde de tão bêbados de sono não sabemos o que está acontecendo com a gente? Eu lembro que quando eu morava no Cambeba, tinha dias que eu voltava da faculdade (eu faço faculdade no centro) tarde da noite que eu não fazia ideia como chegava em casa, só sabia que eu tinha chegado e agradecia a Deus por ter cuidado de mim no caminho. Agora imagine que eu senti a proteção de Deus nessa situação, e se fosse o contrário, se fosse o castigo de Deus? Nós não saberíamos nem o que tinha nos atingido.

A terceira é que de uma situação confortável de alegria, de festa, de prazer, divertimento, repentinamente a situação iria se transformar em tragédia, em dor, em lamento, em choro.

Nos versos 10-12, vemos três novas situações, ou seja, 1) a profecia de Deus não alcançou o povo porque eles estavam “como que dormindo”, sem prestar atenção à sua voz e a todo o cenário que estava sendo montado ao redor de Israel; 2) a profecia de Deus era como um livro selado, o qual as pessoas não podiam ler por causa do selo – e nesse caso, o verso diz que a pessoa que recebe o livro até sabe ler, mas não consegue por causa do selo do livro e aqui não sabemos que tipo de selo é esse, já que antigamente existiam vários tipos de selo, mas o importante é saber que o livro da profecia acabava sem ser lido; e 3) o livro da profecia era dado a quem não sabia ler, que não lia por essa razão. Se prestarmos bem atenção podemos distinguir então que o povo é comparado a esses três tipos de pessoas, que possuem algo em comum, elas não recebem o conteúdo da mensagem, não conhecem a profecia do Senhor, mas cuja responsabilidade era pessoal, fosse por inércia, por falta de cuidado, falta de correr atrás, falta de auxiliar o próximo, fosse porque fosse aquele povo não era inocente e não poderia alegar isso.

Agora vamos prestar atenção em duas coisas que chamam a atenção na forma como está descrito o castigo de Deus: o castigo que Deus dá a Israel seu filho é moderado, Ele age por meio da Assíria utilizando meios de guerra normais, cuja extensão dos danos, o medo causado, tudo é “razoável”; nos versos seguintes vemos o castigo que Deus dá aos outros povos, em especial à própria Assíria, que é muito maior, e ele utiliza de analogias com desastres naturais para mostrar com que poder Deus causaria aquela tragédia. Isso significa que apesar de todo o pecado, Israel ainda recebia da misericórdia e do amor de Deus. Vejam que a Assíria estava sitiando Jerusalém no governo de Ezequias, conforme 2 Reis 19:32-35. 185 mil homens morreram em uma só noite, só um cataclismo de proporções bíblicas para causar tamanha destruição em período tão curto de tempo, o que demonstra o castigo superlativo de Deus sobre os Assírios.
Mas tudo que a gente falou até agora tem uma razão de ser, que é a hipocrisia do povo, conforme vemos no v. 13.

De fato, esse versículo é citado por Jesus em Mateus 15:1-20, especialmente o v. 8,9.

O que isso quer dizer, que as pessoas, pela sua religiosidade vã ao invés de aproximar o homem de Deus fazem é afastá-lo na medida em que impõe sobre si pesadas cargas, regras e mais regras do que pode ou do que não pode ser feito como faziam os fariseus, ou seja, uma religiosidade vazia, de aparência, sem mudança interior, como o povo de Israel da época de Isaías, da época de Jesus, e como infelizmente muitos de nós continuamos a ter ainda hoje.

Segundo um comentarista:

Todos nós somos capazes de agir de modo hipócrita. Muitas vezes caímos em padrões rotineiros em nossa adoração e tornamo-nos negligentes quanto à oferta de nosso amor e devoção a Deus. Se desejamos ser chamados de povo de Deus, devemos ser obedientes e adorá-lo sincera e honestamente.

Além disso, para quem vem acompanhando as profecias desse primeiro terço do livro de Isaías percebe que os líderes políticos e religiosos do povo procuravam outras nações para fazer alianças “por baixo dos panos”, de modo que confiavam nessas alianças e não em Deus para sua proteção. No entanto, Deus deixa bem claro que não foi “surpreendido”, nada ficou oculto a Ele, como vemos no v. 15, ou seja, quando pensamos que podemos esconder algo de Deus, ou fazer algo às escondidas, podemos ter a certeza de que Deus está vendo. Ao contrário, o Salmo 139, especialmente os vv. 1-4 falam sobre a certeza de que Deus tudo sabe, tudo conhece, tudo vê e de que nada podemos esconder dEle.

No verso 16 tem uma das partes desse capítulo que mais me chama a atenção, sobre Deus falando de como as pessoas tencionam fazer dEle, Senhor, em servo, e de nós, servos, em senhores. É uma inversão de papeis. Nada muito diferente, por exemplo, do que muitos fazem hoje em dia quando dizem “determinar” o agir de Deus, “declarando” algo, como se Deus tivesse a obrigação de fazer o que essa pessoa está dizendo, como se Deus fosse um gênio da lâmpada à nossa disposição todo o tempo para fazer tudo que pedirmos, indiscriminadamente, como um pai estraga seus filhos mimados ao fazer tudo que querem. Mas não, Deus não age dessa forma!

Além disso, é muito fácil para nós dizermos que queremos ser os senhores do nosso nariz. Quem nunca ouviu alguém dizer algo do tipo, ou mesmo chegou a dizer esse tipo de coisa? Na verdade, fomos criados para sermos dependentes de Deus e uns dos outros e toda forma de pecado de um modo ou de outro demonstra nossa vontade de sermos independentes do Pai. É como a figura de linguagem usada no texto, de um mero objeto criado dizer ao seu criador que não foi Ele quem o fez, que Ele não sabe o que está fazendo.

A segunda parte dessa profecia de Isaías diz respeito provavelmente ao reino vindouro de Cristo. Tem um caráter bem escatológico e vemos as injustiças serem corrigidas, o que ainda não ocorreu. Parte dessa profecia, porém, tem cumprimento já na primeira vinda de Jesus [Mateus 11:5. Jesus quando falou aos discípulos de João essas palavras, certamente tinha em mente essa profecia de Isaías que se referia ao futuro messias, Ele mesmo, e não apenas isso, mas que João Batista também conhecia essa promessa, e que confrontado com aquela realidade reconheceria que Ele era aquele de quem a Escritura falara].

É interessante notar essa contraposição da injustiça que o mundo experimenta e a proposta de Jesus, porque a lógica do mundo é outra. No mundo a paz é a ausência de conflito, em Jesus podemos sentir paz em meio à tempestade como de fato muitas vezes ocorreu com seus discípulos e acontece com a gente muitas vezes também. Percebam que aqui temos surdos que ouvem, cegos vendo, tiranos sendo humilhados etc. Esse exemplo é muito claro quando vemos as palavras de Jesus no sermão da montanha em Mateus 5.

Finalmente é interessante notarmos essa mesma mudança quando no início do capítulo (vv. 10-12) o povo é cego e sem entendimento porque praticam uma religião de aparências, mas quando a religião do povo se transforma, é como se as escamas caíssem dos olhos, e as pessoas obtivessem o entendimento que lhes faltava.

Para concluir vamos relembrar as lições que vimos hoje:

  1. Deus castiga seus filhos, mas sempre com misericórdia e esperança, enquanto os ímpios têm condenação eterna e muito mais severa;
  2. A religião que agrada a Deus é a sincera, fruto de arrependimento, não a de mera aparência, superficial, de rituais ou de proibições ou obrigações irrefletidas;
  3. Deus não tolera a hipocrisia. De fato, Ele prefere que cheguemos à sua presença reconhecendo nossa fraqueza, nossa fragilidade, pois só assim teremos condição de receber dEle aquilo que precisamos para nos reerguer;
  4. Nem tudo está perdido para sempre. Mesmo depois de muito sofrimento e castigo, Deus não deixa de amar a seu povo e está sempre disposto a dar novo alento e fazer novas promessas de uma vida próspera e feliz a seu lado.

Deus nos abençoe.