Diabo

Esse sábado, durante a aula de Sociologia Jurídica, surgiu novamente um tema relacionado a religião, e depois de um colega expressar a opinião dele de que “as religiões só serviam para amedrontar as pessoas a terem medo do inferno”, o professor perguntou se alguém acreditava no “Diabo”.

Para seu estranhamento, e creio que da sala quase toda (ou toda mesmo) eu fui o único que levantei a mão e disse que acreditava.

Pronto, era o que bastava para ele querer tentar me convencer de que o capeta era uma invenção medieval e tal, como se eu já não tivesse ouvido essa teoria (e outras muitas) acerca do mesmo. Disse ele “que poderia me convencer” disso, ao que respondi (para minha surpresa, dele e da sala toda) com alguma intrepidez que muito me falta que não, ele não poderia me convencer daquilo.

Acho que pelo desconcerto resultante da situação, e visto que o assunto não era pertinente ao que estávamos estudando (movimentos sociais) nesse ponto específico, o professor desistiu da empreitada com um sorriso amarelo, e eu também, por minha vez não prossegui com o debate, senão apenas com uma colega minha que perguntou assim de “rabo-de-ouvido” se eu realmente acreditava naquilo.

A ela respondi em poucas palavras, até para não atrapalhar a aula, e porque aquilo certamente poderia nos tomar bastante tempo de conversa, que acreditava sim, apenas não como “pintado” pela televisão e filmes, ou mesmo pelas igrejas aí afora.

Aliás, isso eu não entrei no mérito de explicar a ela, mas aqui o faço, não creio no Diabo como propagado pela televisão, ou seja, a criatura vermelha com pés de bode, chifres e tridente, como bastante denotado pelas imagens artísticas do imaginário católico medieval ao ponto de desfigurá-lo, descaracterizado de modo a tornar a sua existência realmente difícil de crer. Essa figura é apresentada hoje como lenda, inventada, como disse meu professor, como meio de controlar os pobres iletrados, impossibilitados de ler a Bíblia ou ainda que o fizessem, de discutir com a autoridade religiosa local, e portanto não merece crédito, não tem poder para assustar mais que uma estória de carochinha para crianças desobedientes.

Por outro lado, literalmente a outra face da moeda, temos uma sobrevalorização do inimigo das nossas almas no meio religioso atual, especialmente nas igrejas evangélicas de linha (pós/neo) pentecostal. Nesses espaços, o Diabo é tratado como um semideus, um artista global, praticamente, visto o tanto de tempo e espaço nas programações dos cultos e programas televisivos que lhe são dedicados. A ele são atribuídas características qualitativas e quantitativas que são de fazer medo realmente em qualquer pessoa, e ele tem, para quem assim crê, pelo menos, quase tanto poder quanto o próprio Deus. Entrevistas com supostos possuídos são realizadas com frequencia, e há um show (eu chamaria de circo) em torno de sessões de descarrego e de exorcismos.

Não, não sigo nem uma linha nem outra. Aliás, creio que ambas correntes de pensamento são senão artimanhas do próprio inimigo para buscar esconder seu real poder para o mundo que passa a não crer mais nele e portanto não se prepara para enfrentá-lo, e de igual modo para a igreja, que também não lhe dá o real valor, temendo-o mais que o necessário e não exercendo sua autoridade para saquear o inferno no resgate de almas.

O Diabo existe e é real, há tantas e inúmeras passagens bíblicas do velho e do novo testamento que contam sua história, desde um anjo de luz denominado Lúcifer, onde era o mais alto de todos os anjos ao serviço de Deus, o qual deixou-se dominar pelo orgulho e atentou contra o próprio criador, sendo por Ele e juntamente de muitos outros anjos que o seguiram, lançados fora do céu a habitar o inferno, esta terra e o mundo espiritual em geral, até o dia em que Cristo voltar, e o puser de uma vez por todas em seu último lugar de tormento e castigo, o lago de fogo, conforme podemos ler em Apocalipse 20:10.

Sua existência é narrada de maneira inconteste, por exemplo, em Gênesis 3, episódio conhecido como a tentação de Adão e Eva, ou queda do homem, livro escrito por Moisés (e aqui poderíamos dizer que essa narrativa já tinha sido a ele trazida pelo costume da oralidade, mas também não podemos esquecer da inerrante inspiração divina tanto no seu encontro na sarça ardente, quando subiu ao monte para buscar as tábuas da Lei, entre outros momentos de comunhão reveladora com o Pai).

Também no livro de Jó, considerado o mais antigo da Bíblia, no capítulo primeiro e versos seis em diante vemos como Satanás vai ao encontro do Senhor pedir permissão para afligir Jó, porque no servo do Senhor ninguém toca sem Sua autorização (foge ao tema desse post discutir sobre as diversas possíveis implicações teológicas desse livro, poderemos voltar ao assunto posteriormente), e o personagem Jó, admite-se pela análise de diversos aspectos do próprio texto, teria vivido provavelmente na mesma época dos patriarcas (Abraão, por exemplo), sendo o livro escrito possivelmente entre 1800 – 2000 anos antes de Cristo, ou seja, há quase 4000 anos, definitivamente muito antes da idade média e da Igreja Católica.

Finalizando, lembro-me novamente das palavras do meu colega, filósofo, agora estudante de Direito, de que as pessoas vão às igrejas e recorrem às religiões por medo de ir para o inferno. Não tenho o que dizer, senão apenas que de fato ele tem razão. Não toda razão, porque apesar de muitos religiosos terem essa motivação, enquanto outros tantos buscam a Deus/Jesus pelo que Ele pode fazer, numa pseudo-espiritualidade utilitarista de barganhar bênçãos com o Pai desprezando um relacionamento de amor, esse sim real razão da nossa fé, eu creio nas palavras do apóstolo Paulo, de que amamos a Deus (eu, pessoalmente) porque Ele nos amou primeiro, nos deu o seu próprio filho Jesus para morrer em nosso lugar na cruz do calvário, mas ressuscitou ao terceiro dia nos resgatando, a preço de sangue e de uma vez por todas das garras do Diabo, transpondo-nos do reino das trevas para o reino do Filho do seu amor.

P.S.: existem muitas palavras que a Bíblia usa para referir-se ao Diabo, entre elas: inimigo, Satanás, Lúcifer, antiga serpente, dragão.

P.S.2: muito do que atribuímos ao inimigo é de fato problema nosso, maldade nossa, paixões da nossa carne como avareza, por exemplo. Ele tem muita culpa no cartório, de fato, mas muito do que se fala a seu respeito serve mais ao propósito de tirar o peso da responsabilidade dos nossos ombros e lançá-lo ao mais conhecido bode expiatório de todos (ainda que, novamente, ele faça de tudo por merecer esse título).

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