O consolo do Senhor

“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.” Salmos 23:4

Quem de nós poderia associar alguma vez nas nossas vidas o consolo com uma paulada, um castigo?

Consolo, ao contrário, no senso comum indica justamente o afago para tentar remediar uma dor, um sofrimento.

Mas pensei aqui com meus botões como a Palavra de Deus às vezes precisa chacoalhar com a gente pra desfazer alguns conceitos e reconstruí-los de uma maneira muito mais profunda, e esse conceito de consolo é refeito nesse trecho de um dos mais belos salmos de Davi.

Não vou analisar o salmo todo, aliás, nem mesmo o versículo todo, só comentar um pouco sobre o final dele, “a tua vara e o teu cajado me consolam”.

Ora, só como pano de fundo, temos que lembrar que Davi foi pastor de ovelhas, então falava de algo que lhe era bem próprio e relevante para sua própria vida, para seu contexto, da figura de Deus como um pastor de ovelhas, que cuida delas, que não as deixa serem arrebatadas por um lobo ou um malfeitor.

Para não chover no molhado, aqui vai uma descrição do que seria o cajado do pastor, que retirei da Wikipedia:

Um cajado é uma vara de pastor, caracteristicamente tendo a extremidade superior recurvada em forma de gancho ou semicírculo. Ele é usado para tocar nas patas das ovelhas de leve para que elas retornem ao seu caminho não se desviando doi caminho. Em algumas ocasiões, o cajado podia ser utilizado como arma. A ovelha conhecia o Pastor pelo cheiro do cajado que se apegava a sua mão, sendo assim, ela conhecia o Pastor e o seu cajado.

O cajado tem duas funções principais: quando segurado pelo lado da curva, serve de vara para corrigir ou castigar as ovelhas que se desviam, e segurando-o pelo lado reto serve para socorrer a ovelha caída em buracos ou precipício, puxando-a pela curva do cajado.

Agora voltando ao assunto, como é que essa ferramenta de trabalho do pastor poderia ser usada para nos consolar? Penso que não há maior consolo do que o livramento de um acidente, de uma catástrofe. Às vezes Deus permite que sejamos esfolados por uma situação, arranhando nossos joelhos, para evitar que quebremos muitos ossos, “so to speak”…

Além disso, a pancadinha é uma maneira pedagógica extremamente eficiente para nos dizer o que é e o que não é bom, saudável, qual o caminho correto que devemos trilhar. Aliás, isso me lembra a educação dos antigos, onde o filho era castigado de maneira a corrigi-lo. Hoje, infelizmente, os psicólogos afirmam que castigar a criança traumatiza, etc. Eu, particularmente, apanhei um bocado e posso afirmar que amo minha mãe, e que fiz por merecer em boa parte das surras que levei, e penso eu como seria se minha mãe não tivesse usado de seu “cajado” para “tocar em minha patinha”, e até para me puxar de volta para o caminho adequado, talvez um delinquente ou vagabundo.

De fato, lembrei de dois versículos que servem para amarrar bem esse conceito:

“Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho.” Hebreus 12:6

“Porque o SENHOR repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem.” Provérbios 3:12

O consolo do Senhor através de sua correção, da repreensão do Pai, e até mesmo do seu açoite, da sua bordoada com o cajado, com a vara, nos deixa duas lições finais:

  1. Deus repreende quem ama. Somente vemos a correção de Deus aos que por Ele são amados. Se na sua vida você não tem passado por momentos de correção, de repreensão, ou uma ou outra: ou você não tem se desviado do rumo (o que, pelo menos comigo, não acontece) não carecendo, portanto, de correção; ou você não está sendo amado por Deus, e você pode se perguntar, então, se você tem um relacionamento com o Pai, pois querer amar você Ele quer, basta você querer, e convidá-Lo para fazer parte da sua vida.
  2. Deus castiga seus filhos. Lógico! Ele não quer que vivamos de qualquer jeito, e nos tornemos pessoas inconsequentes. Não vou me estender, mas como qualquer pai que deseja o melhor para seu filho e eventualmente tem que corrigi-lo quando faz algo que não é bom, assim é Deus para conosco.

O consolo do Senhor às vezes vem acompanhado de uma batidinha, de uma palmada. Não se assuste, nem fique triste pensando que o Senhor não te ama porque é justamente o oposto, é por amá-lo tanto que o Pai cuida de você, de mim, nos puxa para mais perto dEle.

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O temor do Senhor é o princípio da sabedoria

“O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo a prudência.” Provérbios 9:10

Gosto bastante desse versículo que fala da sabedoria. Sabedoria é algo muito importante em nossas vidas pois, nadando no óbvio, precisamos diariamente ser sábios para enfrentar as situações que se nos apresentam, tomando decisões acertadas para que não nos arrependamos futuramente.

A sabedoria é algo tão valioso, que Deus mesmo a reconhece, a ponto de afirmar que “…se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.” Tiago 1:5

Na Bíblia há incontáveis relatos de pessoas que agiram com sabedoria e foram ricamente abençoados por Deus e outras tantas que, por falta dela, sofreram duros revezes. De fato, o homem mais sábio que já viveu, o rei Salomão, teve certa vez a oportunidade de pedir a Deus qualquer coisa e escolheu a melhor, justamente a sabedoria (2 Crônicas 1), e com prazer nesta escolha Deus o abençoou com riquezas, vida longa e próspera e tudo mais que seu coração porventura desejou.

Salomão, autor de boa parte do livro de Provérbios, escreveu que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Não quis olhar para trás nos meus posts antigos porque sei que provavelmente já escrevi alguma(s) vez(es) sobre esse assunto, mas a Palavra de Deus se renova constantemente e por isso quero compartilhar o que pensei Hoje sobre o assunto.

O temor ao Senhor, ou seja, a reverência, o respeito, a consideração, saber quem Ele é e quem nós somos, ou seja Rei e súditos, Senhor e servos, respectivamente, é diversas vezes citada na Palavra, muitas inclusive no próprio livro de Provérbios, como o princípio da sabedoria (9:10), o princípio do conhecimento (1:7), encaminha para a vida (19:23), é fonte de vida (14:27) e tantos outros adjetivos, verdades preciosas.

Mas voltando, gostaria de focar num aspecto que considero fundamental, com o perdão do trocadilho, que é o fato de que o temor ao Senhor ser o princípio, ou seja, o fundamento, a base, o início de tudo. Sem temor ao Senhor não há como se ter verdadeira sabedoria. Só temendo a Deus podemos ter uma base sólida sobre a qual podemos construir nossa vida, nossos relacionamentos.

Quando tentamos desenvolver sabedoria pelos nossos padrões meramente humanos não somente ficaremos longe de atingirmos nosso pleno potencial, como ainda não teremos ao nosso dispor a sabedoria de um ser eterno, criador, que é a fonte de toda a sabedoria, ou seja, nunca seríamos verdadeiramente sábios.

Essa sabedoria teria uma base muito frágil, fosse mera filosofia ou conhecimento adquirido através da ciência ou pelas experiências da vida, sem a perspectiva divina nisso tudo, perderíamos as melhores lições que somente o Pai pode nos ensinar.

Concluindo, volto-me para o final do versículo, “e o conhecimento do Santo a prudência”. Enxergo a prudência como a parte prática da sabedoria, o meio pelo qual ela se desenvolve.

Sabedoria não pode se desenvolver apenas com teorias, temos que vivê-la, experimentá-la, e qual melhor maneira que através da prudência? Aqui a lição vai mais além ao dizer que A prudência é o conhecimento do Santo, conhecer a Deus, relacionar-se com o Pai. Somente nos relacionando diariamente com o Senhor somos verdadeiramente prudentes, só assim construímos e desfrutamos da real sabedoria.

“Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha;” Mateus 7:24

Possamos, pois, edificar a nossa casa, a nossa vida, sobre esta sólida fundação, sobre este alicerce que não se abala. Sobre esse princípio conheceremos a sabedoria que o mundo nunca poderia oferecer, seremos sábios e prudentes para impactar esse mesmo mundo carente dessas virtudes. Deus nos abençoe.

Pescadores de homens

Filosofando aqui sobre a metáfora usada por Jesus de sermos pescadores de homens (Marcos 1:17) algumas lições me vieram à mente:

1) era culturalmente contextualizada e relevante, pois alguns de seus discípulos eram de fato pescadores, a pesca era uma atividade comum e bem reconhecida na época (reconhecida, não necessariamente valorizada), e o peixe fazia parte da base alimentar da população da região. Assim também deve ser a pregação da Palavra, pois não adianta falarmos usando jargões de um “evangeliquês” que ninguém poderá compreender, nem deixarmos de explicar aquilo que na Bíblia era contextualizado para o povo de Israel de dois ou três mil anos atrás e esperarmos que alguém entenda tudo perfeitamente. A pregação deve ser na linguagem do povo, aquilo que as pessoas possam entender e correlacionar de maneira prática com sua vida, afinal Jesus não morreu e permaneceu assim há dois mil anos, ele vive hoje e é relevante hoje tanto como foi em sua época;

2) a pesca não é algo que se possa forçar um resultado, apenas fazer a parte que nos cabe que é preparar a isca, lançar o anzol (ou a rede), segurar a vara (ou a rede) e aguardar que os peixes mordam a isca (ou fiquem presos na rede) para então pescá-los. Na pregação do evangelho, de maneira análoga, nos preparamos com a oração e leitura da Palavra, vamos em direção às pessoas falar do amor de Deus, mas somente podemos esperar os resultados. Não podemos forçar os peixes a morderem a isca, assim como não podemos forçar ninguém a aceitar a Jesus como Senhor e Salvador de sua vida;

3) a pescaria é algo relativamente simples, que não demanda muito treino ou experiência para a pessoa pescar alguma coisa, mas que como qualquer outra coisa melhora significativamente com o passar do tempo quando passamos a nos preparar melhor, com melhor equipamento e com o ganho de experiência, o que nos leva a saber os melhores locais para pescar e quais iscas são mais adequadas a cada tipo de peixe. “Pescar” homens parece-me bastante semelhante, pois mesmo sem muita base bíblica ou formação teológica nada nos impede de falarmos a quem está ao nosso lado sobre aquilo que Jesus fez em nossa vida, a mudança por Ele operada, o amor com que nos amou. Contra fatos (aquilo que experimentamos através de Cristo) não há argumentos. Mas, no decorrer da nossa caminhada, lemos mais a Palavra de Deus, temos momentos diários de devocional, oração constante, bons livros, experiências mais e mais significativas com Deus e, quem sabe, até treinamento formal através de cursos ou um seminário teológico, certamente estaremos muito mais preparados para pregar o evangelho a mais e mais pessoas, direcionando muito melhor a “rede” que lançarmos para onde estiver o “cardume”.

E você, que lições essa passagem te traz à mente? Compartilhe comigo, ficarei feliz em ler seu comentário.

Deus nos abençoe e nos torne, verdadeiramente, pescadores de homens.

Deus capacita os chamados

“Eis que eu tenho chamado por nome a Bezalel, o filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, de sabedoria, e de entendimento, e de ciência, em todo o lavor, para elaborar projetos, e trabalhar em ouro, em prata, e em cobre, e em lapidar pedras para engastar, e em entalhes de madeira, para trabalhar em todo o lavor. E eis que eu tenho posto com ele a Aoliabe, o filho de Aisamaque, da tribo de Dã, e tenho dado sabedoria ao coração de todos aqueles que são hábeis, para que façam tudo o que te tenho ordenado.” Êxodo 31:2-6

Acho fantástico esse trecho da Palavra de Deus o próprio Senhor falando com Moisés sobre como tinha levantado homens para o seu serviço, e que tinha dado a capacitação tanto técnica como espiritual para fazer a obra do Senhor, e isso foi verdade nesse momento em particular da história e continua sendo verdade hoje.

Deus chama os capacitados? Com certeza. Mas o milagre maior de Deus é justamente trabalhar em lapidar pedras brutas e torná-las preciosas, especialmente para demonstrar que a obra é dEle e não nossa, para que as pessoas vejam que é Ele acima de tudo quem está operando.

Quando Deus nos chama para um ministério, Ele mesmo pela operação do seu Espírito Santo nos dá diversos dons conforme sua graça (cf. Efésios 4), mas todos para um propósito principal que é edificar o corpo do qual somos membros, o corpo de Cristo, a Igreja. Deus não dá um dom supérfluo, não dá algo que não seja necessário, e não dá algo que será desperdiçado.

Aliás, voltando a tema desse post, Deus tem prazer em capacitar os chamados. Às vezes vemos muita gente boa sentada nos bancos das igrejas e muita gente mais ou menos servindo, e por experiência própria, e em conformidade com esse texto de Êxodo, sei que Deus capacita todo aquele que de coração se coloca à disposição de fazer a sua parte, e fazer com alegria, de coração e dando o seu melhor. Deus pega esse mais ou menos e transforma em algo excelente.

Uma grande diferença entre a Lei e a Graça

Lendo aqui Êxodo 21 vislumbrei algumas diferenças entre a Lei e a Graça, as duas dispensações históricas, as duas alianças, os dois concertos.

Vou colocar aqui uns versículos que demonstram claramente a grande diferença que percebo, que falam por si só. Depois tentarei comentar comedidamente.

“Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.” Êxodo 21:24,25

“Ouvistes que foi dito: olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes. Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;” Mateus 5:38-44

Que diferença entre as palavras de Moisés e as palavras de Jesus!

A Lei era, lembrando-me da faculdade de Direito, direito objetivo. Era o direito dado e que deveria ser obedecido inquestionavelmente, ao pé da letra. A Lei não admitia meio termo, não admitia perdão. O objetivo da Lei era punir, responsabilizar.

A Graça, ao contrário, é perdão, é amor, é misericórdia, é tolerância, é suporte, é cuidado, é o oposto da Lei.

A Lei era proporcional e recíproca, dava-se a cada um o que se merecia, por isso ninguém podia ser salvo por meio da Lei, já que todos somos falhos sob este prisma. A Graça nos ensina que não temos como merecer algo, que recebemos não pelo nosso esforço mas pelo esforço dAquele que morreu por nós na cruz do Calvário, Jesus Cristo.

Aliás, a graça vai mais além, ela faz questão de nos dar mais do que nunca poderíamos merecer de maneira tão clara, explícita, e gratuita, justamente para nos mostrar que não é por nosso mérito, mas pelo amor que Deus demonstrou há dois mil anos na vida de Jesus, por meio de quem somos aceitos, perdoados, amados e feitos filhos de Deus. Somente a graça poderia nos ordenar amar os nossos inimigos, cuidar deles, orar por eles, serví-los, muitas vezes nos humilharmos perante eles, darmos tudo que tivermos para que eles também cheguem a essa compreensão.

Os princípios por trás dos 10 mandamentos

Êxodo 20:3 nos diz: “Não terás outros deuses diante de mim.”

O primeiro mandamento é também o mais importante. Nada na nossa vida pode ocupar o lugar de Deus, o primeiro, o mais importante, o tesouro do nosso coração, o altar do nosso coração. É interessante notar que o versículo fala em deuses, isso mesmo, não apenas um deus, mas vários. Fico pensando, quantas vezes temos colocado tantas coisas no lugar de Deus em nossas vidas: mulheres (ou homens, para o sexo oposto), dinheiro, bens, estudo, trabalho, família, lugar de moradia, felicidade, saúde, realização pessoal, filhos… Um deus é aquilo que tem o poder maior sobre nossa vida, algo de quem dependemos. Quando tiramos do Senhor a posição de deus de nossa vida, a posição que só Ele merece, é o mesmo que dizer que outra coisa ou alguém é mais importante que Ele para nós, e pior, é mais poderoso e real em nossas vidas.

Êxodo 20:4-6 diz: “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.”

O preceito aqui é muito semelhante ao primeiro mandamento, só que vai mais além ao proibir explicitamente que fizéssemos de uma criatura, de algo criado, o criador, ou seja, que déssemos algo que exclusivo de Deus a um terceiro, que é o louvor, a adoração, o reconhecimento pelo que Ele é. Deus não proibiu as manifestações artísticas como pintura ou escultura. O que foi proibido é a veneração de qualquer coisa ou pessoa, da maneira que for, que não o próprio Pai, seu filho Jesus, ou o Espírito Santo. Nada nem ninguém merece esse nível de respeito, consideração e devoção. O texto continua e fala das forças da natureza, como o sol, o mar, rios, adorados em muitas religiões pelo mundo afora, como deuses em si mesmos ou representados por entidades por elas responsáveis, como muitas indígenas ou de matriz africana. Além disso, é importante salientar duas palavras que considero fundamentais: “encurvar” e “servir”. Quando a gente se encurva perante outro reconhece que o outro é maior que nós, mais importante que a gente, que merece mais respeito e consideração. O conceito de servir implica necessariamente no reconhecimento do outro como senhor, como dono da nossa vontade. Por isso fica fácil entender que Deus diga que é zeloso, ou seja, Deus quer para si aquilo que de fato só Ele merece, pois como criador de nossas vidas, só Ele efetivamente merece tal nível de gratidão, de reconhecimento, de importância, de consideração, só Ele pode ser considerado senhor de nossas vidas, e quando damos a outra pessoa, coisa ou força essa importância, é como se tripudiássemos de seu poder, de sua obra, de sua pessoa, e isso é intolerável.

Êxodo 20:7 diz “Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.”

Os judeus consideravam esse mandamento tão sério que não ousavam sequer pronunciar o nome de Deus, de tão solene que deve ser tratado. Deus não é brinquedo. Embora pai amoroso, Ele é rei e como para nos dirigirmos a qualquer rei terreno somos cercados de toda sorte de ritos e cerimônias, não podemos falar de qualquer jeito nem nos referirmos de qualquer maneira a eles, imagine com o Rei dos reis e Senhor do universo? Deus merece respeito! Tomar o seu nome em vão pode se dar de diversas formas, desde ficar repetindo “rezas” sem sentido, por mera religião ou superstição, até de fato blasfemar contra seu santo nome, passando por atribuir a Deus algo que claramente não lhe pertence, ou tirar dEle algo que é claramente obra de suas mãos.

Êxodo 20:8-11 diz: “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou.”

Eis o princípio por trás desse versículo, devemos dedicar os nossos dias ao Senhor, e vivermos de um modo em que o trabalho não consuma nossa vida. Ora, se o próprio Deus descansou ao sétimo dia, demonstrando a importância de descansarmos, estamos muito errados se não respeitarmos esse direcionamento vindo do próprio Deus. Particularmente entendo que o sábado aqui não é o sábado literal, até porque devemos santificar todos os nossos dias, ou seja, devemos viver uma vida em constante ligação com o Pai, e não apenas nos voltarmos para Ele em um dia particular da semana. Isso é principalmente válido para aqueles que gostam de trabalhar diretamente na obra de Deus, e se enchem de atividades na igreja de modo que não conseguem viver um relacionamento saudável com o Pai, com sua família, e acabam estressados e extenuados. Perderam o sentido do sábado do descanso.

“Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá.” Êxodo 20:12

Como diz o apóstolo Paulo, esse é o primeiro mandamento com promessa (Efésios 6:2) e qual é essa promessa? Que viveríamos uma vida longa. Mas qual a condição para vivermos essa vida longa? Honrar os nossos pais, e não apenas aqueles que biologicamente nos criaram, mas aqueles que nos formaram, nos deram educação, cuidaram de nós. Honrar aqui significa uma porção de coisas, entre as quais: 1) dar a devida honra a quem merece, por terem sido e feito tanto em nossas vidas; 2) sustentar financeiramente os pais que passam por necessidade ou não tiverem como se sustentar por conta própria; 3) respeitar; 4) tratar com cuidado, com carinho…

Êxodo 20:13 diz “Não matarás.”

Aqui não temos só um princípio transformado em lei pelo art. 121 do Código Penal. Não. O valor da vida humana para Deus que a criou é tão preciosa que não temos como entender senão se imaginássemos um terceiro tentando fazer um mal físico a um filho nosso (eu não tenho filhos ainda, então imagino com meus irmãos). Jesus vai mais além ao dizer que se alguém odeia seu irmão é assassino porque em seu coração não tem amor por essa pessoa, não tem consideração, para ela tanto faz como tanto fez se a pessoa viver ou morrer. Não matarás não é só não assassinarás, ou seja, não matar por motivo fútil, por contenda, por ganância, por ira. É tudo isso, mas é também não destratar o próximo, não desprezá-lo, não ignorá-lo. Certa vez ouvi de uma missionária que o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença, e concordo em parte, e nesse sentido penso que quando somos indiferentes às pessoas é como se as estivéssemos matando. Pensemos nisso (a começar em mim mesmo, é sério) a próxima vez que alguém vier bater na janela do nosso carro parado na sinaleira e pedir por uma esmola, e o pensamento de incômodo, de raiva, ou pior, de indiferença, de que aquela pessoa não é tão “gente” como a gente, não é tão criatura de Deus como somos, quiser aparecer na nossa mente.

“Não adulterarás.” Êxodo 20:14

O princípio por trás desse versículo é a proteção, o amor, o plano de Deus para a família. A família está no coração de Deus desde o Gênesis quando disse que não era bom que o homem estivesse só, e para isso fez para ele uma ajudadora fiel. O verbo adulterar tem várias conotações, mas para mim o primeiro deles é mudar a essência, falsificar, mudar o propósito e de fato é isso que adulterar significa. Quando desviamos o nosso olhar do nosso cônjuge, da nossa namorada, por exemplo, para outra mulher, estamos mudando a direção que Deus estabeleceu para o nosso relacionamento, estamos dizendo que aquela pessoa que Deus escolheu para nós não é o melhor de Deus para nossa vida, demonstrando ingratidão para com o Pai e falta de respeito para com Ele e para com a nossa amada. Adulterar começa no pensamento, como disse Jesus (Mateus 5:28), e para não fazermos isso devemos disciplinar nossa mente e nosso corpo, renovando-a com a Palavra do Senhor, enchendo-nos com seu Espírito, dando o valor devido à pessoa que Deus separou para nós, e passando a olhar as outras pessoas não como meros objetos ou produtos, mas como filhos e filhas do Senhor, como irmãs e irmãos mesmo como diz a Palavra (1 Timóteo 5:2).

“Não furtarás.” Êxodo 20:15

Deus não é certamente um deus materialista, que se importa mais com as coisas do que com as pessoas, e certamente não é essa a idéia por trás desse versículo. A idéia é o respeito pelo trabalho, pelo esforço que fazemos para conquistar as coisas, e que as coisas que possuímos devem ser resultado do nosso trabalho e não serem obtidas de maneira ilícita, como “vida fácil”. Quando se furta é o mesmo que dizer que podemos ter aquele objeto de qualquer forma, de qualquer maneira, sob qualquer circunstância que tanto faz, não importam os métodos, os meios, e sim os fins. Furtar é subtrair algo que pertence ao próximo. Quando furtamos estamos dizendo que somos mais importantes que o verdadeiro dono dessa coisa. E olhe que estou falando aqui de coisas, mas poderíamos abrir e generalizar para sentimentos que furtamos dos outros quando enganamos alguém, quando traímos uma pessoa, quando investimos em algo que sabemos que não irá ter futuro. Furtamos tanta coisa no nosso dia e muitas vezes nem nos apercebemos que me encho de vergonha toda vida que penso nesse assunto e olho para minha própria vida. Certamente não meto a mão no que não é meu, no que é dos outros, literalmente, mas quantos “furtos emocionais” eu cometi em minha vida. Quantas coisas que efetivamente são furtos nos damos ao trabalho de inventarmos desculpas dizendo que todo mundo faz, que o imposto é caro demais, procurando brechas no sistema para não fazermos o que devemos. Tudo isso também é furto.

“Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.” Êxodo 20:16

O princípio por trás desse versículo é uma clara oposição entre Deus que é um deus de verdade (João 14:6) e satanás que é o pai da mentira (João 8:44). Como podemos, sendo cristãos, filhos de Deus, falar uma mentira a respeito de alguém? Isso atenta não só contra aquela pessoa mas contra o próprio Deus, já que Deus é a essência da verdade. Falso testemunho me lembra demais o mandamento anterior, no sentido de que quando mentimos furtamos a verdade, furtamos a confiança da outra pessoa, ou de terceiros com relação à pessoa da qual mentimos. Falso testemunho também me lembra um tribunal, onde todo mundo espera de você um comportamento, que você tome uma posição e uma decisão, e de repente você utiliza de um artifício para ludibriar a todos, falseia a verdade, distorce os fatos e as circunstâncias. Quando mentimos destruímos a confiança que as pessoas depositam em nós.

“Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.” Êxodo 20:17

Esse versículo meio que relembra os mandamentos de não adulterar e não furtar, uma vez que se desejamos loucamente a vida de outra pessoa, fazendo o possível e o impossível não para termos as nossas próprias realizações, mas as do outro, dizemos a Deus que não estamos satisfeitos com as incontáveis bençãos e livramentos que Ele nos concede a cada manhã juntamente com as suas misericórdias. Aqui fala-se da casa, o lar, a família, os bens; a mulher, sua companheira, seu apoio, seu próprio corpo como Paulo faz menção (Efésios 5:28); servo, serva, boi, jumento, coisa, aqui fala de tudo que é o sustento financeiro da pessoa, seu trabalho, sua capacidade intelectual, seus recursos. Deus nos dá os meios de atingirmos e conquistarmos todas essas coisas de modo digno, dependendo dEle e sem precisar apelarmos para o que é de outra pessoa. Se desejamos que as pessoas respeitem o que é nosso, devemos nós ser os primeiros a fazer o mesmo!