O café e as implicações sociais de uma outra bebida

Ontem estava no salão principal do meu setor conversando com alguns colegas enquanto eles tomavam um cafezinho.

Eu gosto de café, não costumo tomar porque me dá dor de barriga, mas às vezes vou numa boa cafeteria no shopping e tomo um capuccino, ou um expresso. Não, não sei muito sobre a bebida, passo longe de sequer me achar um especialista.

Um dos colegas perguntou se eu não bebia café. Eu disse que bebia, mas que não costumava beber pelo que já falei.

Pouco depois acabei pegando um copo e pondo um pouco para socializar…

Esse mesmo colega me disse “não resistiu, ein?” e então fiquei pensando em como o fator social atua de maneira significativa nos nossos hábitos, e lembrei-me especialmente desse aspecto com relação ao uso de bebidas alcoólicas.

Existem bebidas alcoólicas que são gostosas, não tenho dúvida disso, e não pretendo fazer juízo de valor se beber ou não beber é certo ou errado, se é melhor ou pior em termos de saúde do que tomar um refrigerante, um suco ou uma água, mas o que quero colocar aqui é como o fator social talvez seja o principal motivador para quem bebe bebidas alcóolicas.

Alguns exemplos:

  1. Tenho um conhecido que bebe bastante, mas sempre que saímos em um local onde só ele bebe, ele normalmente não bebe. Não é porque não haja bebida sendo oferecida, nem porque poderia constranger alguém presente, não seria o caso, mas ele simplesmente não bebe. Isso acontece com várias outras pessoas que conheço e não é nem por vergonha ou por constrangimento, como já disse. Aliás, talvez eu pudesse afirmar o contrário, que eles se sentem muito mais constrangidos explícita ou implícitamente por seus pares quando vão a um barzinho, por exemplo, caso resolvessem, pelo menos a princípio, não beber.
  2. O alcool é um desinibidor. Não sou médico, nem químico, nem conheço muito da biologia do corpo humano mas sei que o alcool afrouxa os limites e as amarras que nós nos auto impomos. Assim, não cabe dizer por exemplo que um santo vira um demônio quando bebe, mas quem sempre tem pensamentos ruins mas consegue se controlar, quando bebe pode não conseguir mais. Assim uma pessoa explosiva mas que se contem pode agredir outras pessoas e quem sabe até pior. Aquela pessoa que é tímida mas no fundo gostaria de ir atrás de outra, se sente confiante para fazê-lo. Além disso, sob a ótica de quem bebe, tudo tem mais graça, ou seja, os padrões sensitivos também caem, fazendo a pessoa tolerar circunstâncias que talvez em sobriedade passasse longe.

É interessante como quem não bebe é confrontado, ridicularizado, segregado mesmo socialmente por quem bebe. A bebida passa a ser fator de exclusão tanto quanto uma doença, o que, aliás, é capaz de acontecer com quem se excede no alcool e não com quem se abstem do mesmo (não no sentido geral, mas no alcoolismo enquanto doença, e nas outras doenças correlatas).

Por outro lado, a bebida pode nos trazer dois sentimentos conflitantes e que normalmente caminham juntos. O primeiro é a falsa sensação de alegria, de preenchimento do vazio existencial que muitos temos. A certeza de que nossos amigos esperam que nós bebamos já é razão mais do que suficiente para fazê-lo, especialmente nesse mundo de indivíduos e não de pessoas. Ninguém quer ficar só por que não bebe. Essa sensação de euforia e alegria momentânea passa normalmente quando se retorna à sobriedade, e aí chega-se à depressão, ela que muitas vezes já começa durante a própria embriaguez, onde a pessoa reconhece o ridículo em que está, a ilusão de tudo aquilo, o quão fugaz é o sentimento de prazer que está desfrutando.

Não vou colocar meu posicionamento religioso com relação a isso tudo. Talvez eu pudesse falar que Jesus é quem preenche os vazios existenciais de nossa alma, de modo que nenhuma bebida pode fazer. Seria chavão mas ainda assim verdade. Mas isso não implica numa proibição de beber como muitos religiosos fazem crer, elevando o consumo do álcool à condição de pecado mortal. Não, afinal, o próprio Cristo era conhecido pelos fariseus de sua época como “comilão e bebedor de vinho”. Jesus sabia que um bom vinho alegra a alma, traz sentimentos e sensações positivas. Mas não vemos Jesus caindo pelas sarjetas, embriagando-se, ou dependendo disso para viver, para ser feliz.

O que quero colocar é, para concluir, que depender do álcool para garantir a solução, ainda que meramente momentânea, dos problemas, é fugir dos mesmos, procurando esquecê-los, o que não é o certo a se fazer. A verdadeira alegria também não se consegue pelo seu consumo, ainda que em momento de socialização. Quem é feliz traz a sua felicidade internamente e externaliza isso com ou sem o uso de bebida alcoólica. Aliás, por falar nisso, lembro que nunca na minha vida, apesar de toda timidez, precisei tomar nenhuma bebida alcoolica para “chegar junto” de uma menina, rir um bocado com meus amigos, falar em público ou resolver meus conflitos internos ou externos.

Ao invés de incentivarmos socialmente o uso do álcool, tornando cultural o seu abuso com tantas propagandas de cervejas e mulheres, esportes e coisas que aludem ao sucesso pessoal, deveríamos sim colocar em pratos limpos os efeitos nocivos que a combinação de álcool e direção proporcionam, as vidas ceifadas, os abusos cometidos contra os familiares que têm que suportar um pai alcoólatra, por exemplo.

Isso não se faz, pelo menos não com tanta propaganda, com tanta ênfase e pressão social.

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