Reconciliação

Então Esaú correu-lhe ao encontro, e abraçou-o, e lançou-se sobre o seu pescoço, e beijou-o; e choraram. – Gênesis 33:4

Reconciliação.

Desde o antigo testamento, poucas coisas me deixam tão emocionado como as histórias de reconciliação que vemos na Palavra, e essa mais ainda por tratar-se de dois irmãos separados por 20 anos de ódio e uma promessa de morte e vingança, que felizmente Deus tratou de sarar.

Esaú tinha todo direito de querer vingar-se de Jacó pois, apesar da intempestividade, imaturidade, até desprezo pelas coisas importantes da vida que o levaram a perder as bênçãos de seu pai Isaque sobre sua vida, muito de sua desgraça foi também responsabilidade de seu irmão Jacó que o usara e enganara.

Além disso, Esaú tinha todos os meios para exercer a sua “justiça”, uma vez que vinha ao encontro de Jacó com 400 guerreiros, um pequeno exército, especialmente se compararmos com os servos, servas, mulheres e gado que acompanhavam Jacó, povo simples do campo, e ele mesmo manquitolando da recente luta que tivera com o próprio Deus no vale de Jaboque.

Mas Esaú foi humano, aliás, foi soberano, pois exercitou o perdão, promovendo a paz, que abriu as portas para restabelecerem o relacionamento outrora arruinado.

Aliás, normalmente o perdão é uma atitude dos fortes, apenas estes conseguem perdoar. Os fracos podem até esquecer, mas dificilmente perdoam, pois o perdão requer sacrifício, requer submissão, humilhação, o superior colocando-se como inferior.

Esse foi o caso de Esaú, superior a seu irmão, com mais recursos, mais gente, com toda a condição de luta a seu favor, resolver baixar a guarda, desarmar-se e estender a mão, ele mesmo correu ao encontro do seu irmão que um dia lhe ofendera para abraçá-lo e beijá-lo.

Somos também chamados ao ministério da reconciliação (2 Coríntios 5:18,19), a sermos pacificadores (Mateus 5:9); só assim o mundo experimentará a paz e conhecerá verdadeiramente o amor de Deus que em nós habita.

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Porque creio em Adão e Eva

Recentemente vi um vídeo onde uma adepta do espiritismo em tom de chacota pergunta a um padre se ele acreditava em Adão e Eva, primeiros humanos criados por Deus segundo a narrativa bíblica do Gênesis, como se por essa narrativa a Bíblia perdesse a sua credibilidade, como se fosse impossível ter havido dois seres criados da forma que a Palavra de Deus narra.

O padre respondeu que cria que a narrativa de Adão e Eva, como aliás a parte inicial do Gênesis, no relato da criação, tratava-se não de descrição literal da criação do universo, mas uma alegoria do processo através do qual Deus criou todas as coisas, uma forma pela qual Deus explicou de modo simplificado aos homens pela revelação de uma maneira que eles, que não possuíam uma capacidade desenvolvida de ciência, astronomia, física entre outras, pudessem entender, como uma pedagogia em que um adulto tenta explicar algo extremamente complexo para uma criança de modo que lhe satisfaça pelo menos parcialmente a curiosidade, mas que não irá expô-la desnecessariamente a crises intelectuais que não terá condição de assimilar e lidar.

Para tanto lembrou bem os termos “ish”/”isha” que no hebraico significam Adão e Eva, e podem também ser traduzidos por homem/mulher, ou seja, ao invés de serem nomes próprios de dois indivíduos recém criados por Deus, significavam um coletivo, como o gênero masculino e o feminino, e, segundo ele, para os judeus antigos o relato da criação era entendido dessa forma, de modo alegórico e não literal.

É verdade que existe essa corrente teológica séria, a qual muitos pastores evangélicos também acreditam.

Não é uma posição esdrúxula, por assim dizer, embora talvez não seja majoritária.

No entanto, existem pelo menos três razões que me fazem, pessoalmente, crer que Deus criou efetivamente Adão e Eva da maneira como descrita no Gênesis, e não apenas eles, mas todo o universo, da exata maneira como ali descrita, não sendo portanto um mito ou uma alegoria, mas a realidade das coisas como elas aconteceram:

  1. O evangelista Lucas, ao trazer o relato da genealogia de Cristo, diferentemente de Mateus que vai somente até Abraão, pai do povo judeu, por razões e público alvos diferentes, vai além, indo até Adão.
    Ora, não faz sentido haver genealogias de pessoas mitológicas, especialmente quando se consegue, partindo-se de um descendente em particular, e subindo na árvore genealógica, chegar até ao patriarca, a quem começou tal linhagem.
    Assim vemos na genealogia de Adão descrita em Gênesis 5, e da mesma forma em Lucas 3.
    Ademais, Lucas era além de médico, historiador, e como tal usou de método científico, na medida do conhecimento da época, para examinar de maneira exaustiva como tudo relacionado à vida de Jesus tinha acontecido (conforme descrito em Atos 1), de modo a dar respaldo ao seu relato, ele foi fiel ao conhecimento histórico, citando lugares, contextos, personagens políticos, enfim, não faz sentido supor que ele usou de tamanho rigor em todo seu texto do evangelho e da carta de Atos dos apóstolos mas deixou de lado na hora de citar a genealogia de Jesus que segue até Adão, e de Adão a Deus, tendo usado de mitologia ao invés de parâmetros e fatos historicamente comprováveis e verificáveis por seus leitores, especialmente pelos judeus da época que conheciam bem de linhagens e genealogias, ao ponto de brigarem por esse tipo de assunto (Tito 3:9).
  2. O apóstolo Paulo, maior teólogo do Novo Testamento, cita Adão por diversas vezes não como uma figura mitológica mas como um ser real, e não apenas isso, como uma pessoa, um indivíduo, criado por Deus, por meio de quem entrou o pecado no mundo, o que corrobora o texto do Gênesis, que de fato era o que os judeus, ao menos os religiosos (o que na época era a maioria), acreditavam.
    Como exemplo dessa afirmação vemos os textos de 1 Timóteo 2:13 e 14, 1º Coríntios 15:22 e 45, Romanos 5:14, etc.
    Paulo estudou sob o mais importante e renomado rabino de seu tempo, Gamaliel, então fosse o caso de ser apenas um mito ou de ter sido empregado por Deus como uma alegoria ou metáfora ou algo do gênero, certamente Paulo faria menção a isso.
    Além disso, apesar do desenvolvimento literário e teológico em Moisés, escritor do Gênesis, não ser tão evoluído, em diversas passagens vê-se construções como figuras de linguagem, como aliterações, hipérboles e outras sendo utilizadas para suprir deficiências da própria linguagem como, por exemplo, pela falta do superlativo, onde o mesmo verbo era repetido, ou a estrutura gramatical usava desse tipo de construção, além da própria narrativa repetida, garantindo a ênfase que não poderia ser dada pela falta de um negrito, por exemplo.
    Não apenas isso, mas em Paulo já vemos, milhares de anos depois de Moisés, um verdadeiro estilo literário, com construções complexas que a própria língua grega permitia, ausentes no hebraico e aramaico do Velho Testamento.
    Isso depõe a favor da existência de Adão como pessoa ao invés de mito.
  3. A possibilidade ou melhor a capacidade de Deus ter criado todas as coisas como descrito no Gênesis.
    Creio que se Deus pôde se encarnar em Jesus Cristo, ter vindo ao mundo, morrido por nossas transgressões, ressuscitado ao terceiro dia, sem contar a vida e obra nesta terra, os muitos milagres que realizou por seu Filho, a obra que em mim opera e em todos os crentes em todas as épocas, passadas, presentes e vindouras, e como bem diz a Palavra nada é impossível para Deus (Lucas 1:37), não creio que seja mais difícil para Deus formar o universo, ter criado as dimensões que existem inclusive o tempo, as leis da física que regulam a natureza e os corpos celestes, ter desenhado o ser humano e os animais e tudo mais que há de vivo.
    Aliás, na narrativa bíblica, o relato da criação “ex nihilo” do Gênesis é provavelmente o menor dos “absurdos” e dos “impossíveis” que Deus se encarregou de realizar porque quis, porque achou por bem fazer, porque desejou, porque viu que era bom (Gênesis 1:31), porque tinha a capacidade, o poder, o intelecto para fazer.

Enfim, não é que seja um assunto tão relevante ao ponto de que, se crido de outra forma, e existem várias formas possíveis e intelectualmente aceitáveis de compreender, teologicamente falando, a narrativa da criação, seria uma heresia ou blasfêmia, embora não seja também irrelevante, até porque se está na Bíblia tem o seu valor, inclusive porque aqui está descrita também a queda do homem com a introdução do pecado no mundo, e minha fé não seria particularmente diminuída ou afetada se Deus viesse a revelar, um dia, quando O encontrar nas moradas celestiais, que toda essa história era apenas uma metáfora para me ensinar a caminhar com Ele e me relacionar com Ele fugindo do pecado, penso que se Jesus cria no Gênesis, e tudo indica que creu, e Ele era Deus, afora os demais argumentos que coloquei acima, são razões suficientes para acreditar que realmente as coisas aconteceram dessa forma, e não é nada absurdo se olharmos as possíveis explicações, inclusive as supostamente científicas (embora a Bíblia não seja um texto científico).