Chamado à conversão

E será que, sobrevindo-te todas estas coisas, a bênção ou a maldição, que tenho posto diante de ti, e te recordares delas entre todas as nações, para onde te lançar o SENHOR teu Deus, e te converteres ao SENHOR teu Deus, e deres ouvidos à sua voz, conforme a tudo o que eu te ordeno hoje, tu e teus filhos, com todo o teu coração, e com toda a tua alma, então o SENHOR teu Deus te fará voltar do teu cativeiro, e se compadecerá de ti, e tornará a ajuntar-te dentre todas as nações entre as quais te espalhou o SENHOR teu Deus. – Deuteronômio 30:1-3

Disse também o Senhor: Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos. – Lucas 22:31-32

Esses dois textos acima são exemplos claros de que nem sempre estar na igreja ou pertencer a uma religião significa necessariamente ser salvo, convertido, verdadeiro filho de Deus.

No primeiro caso vemos Moisés falando ao povo de Israel, povo chamado por Deus para ser sua propriedade exclusiva, farol entre as nações para guiá-los ao Pai, para que eles se convertessem de seus maus caminhos.

Como assim, eles não eram o povo de Deus, como precisavam ainda assim se converter?

O segundo texto fica “pior”, Pedro era líder entre os discípulos de Jesus, estava entre um de seus amigos mais próximos e ainda assim não havia compreendido a dimensão do evangelho transformador, uma boa nova que aponta para o alto, para os lados e para dentro, uma mensagem de arrependimento e mudança de rumo, uma boa nova, de verdade, pois nos tira a desesperança do jugo da lei e do pecado e nos garante a vida eterna ao lado de Deus por Cristo Jesus, recebendo como selo da promessa seu próprio Espírito.

O que você está esperando?

Não importa de que religião você seja, ou mesmo que não pertença a qualquer religião.

Cristo não chama os religiosos ou aqueles que se consideram perfeitos, Ele veio para todos, especialmente todos quantos o quiserem receber como Mestre e Senhor, pelos quais Ele derramou seu sangue precioso na cruz do calvário, nos elevando perante o Pai à condição de filhos.

Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo. – Apocalipse 3:20

Qual será sua resposta?

Deus nos abençoe.

Anúncios

30 segundos

O que você poderia contar se você tivesse que resumir a sua história, isso mesmo, a história da sua vida em apenas 30 segundos?

Talvez gastasse todos os 30 segundos e mais até somente pensando, tentando por em ordem o que dizer e no final não conseguisse dizer muita coisa.

Hoje me deparei com 2 histórias de vida cada uma nos seus 30 segundos.

A primeira foi da sra. Francisca, uma mulher de 90 anos pedindo esmolas no sinal da Igreja da Glória.

Perguntei seu nome, porque honestamente não gosto de dar esmolas, mas as vezes sinto que devo fazê-lo e então, quando faço, eu gosto de saber um pouco da vida da pessoa que está naquela situação.

Ela me disse o nome, e a idade que eu também tinha perguntado.

Agradeceu o trocado que lhe dei, e quando eu disse “Deus te abençoe”, ela perguntou se eu era católico.

Respondi “não, sou cristão”, não que católicos não sejam cristãos, mas não gosto de rotular uma coisa com a outra, religião e cristianismo pra mim não são uma coisa só, por mais que tenham mais ou menos semelhanças a depender do caso.

Só um parênteses, se ela tivesse me perguntado se eu sou evangélico provavelmente a minha resposta teria sido a mesma.

Ela então me pediu pra orar pelo marido dela, que suponho deva ter uma idade parecida, pois ele tem câncer e já está muito mal.

Uma senhora de 90 anos, corcunda – esqueci de mencionar, tendo de mendigar para ajudar a sustentar o marido com câncer.

Dona Francisca soube priorizar seus 30 segundos.

Posteriormente, em outro engarrafamento, em outra sinaleira, vi uma moça muito magra e grávida também pedindo esmolas e igualmente me senti tocado a ajudá-la de alguma forma.

A mesma coisa que fiz com a dona Francisca eu fiz com ela, apesar das buzinadas que os demais motoristas me deram, mas ela não consigo lembrar o nome.

Talvez se fosse alguma gatinha que me interessasse eu não esqueceria mas ela não, com aspecto sujo e maltrapilho, magreza característica de usuária de drogas e talvez até portadora da AIDS, eu não pude lembrar desse “detalhe”.

A droga, a gravidez, a AIDS, o abandono lhe retiraram a identidade.

Perguntando por seu nome ela sorriu pra mim e disse, eu que esqueci, como iria pensar que ela ainda tinha algum sorriso guardado ali dentro?

Fui embora, os 30 segundos do sinal vermelho tinham terminado e eu já tinha de ir.

Será que temos valorizado os nossos 30 segundos?

Será que temos valorizado as histórias de vida que passam por nós em muitos 30 segundos que temos desperdiçado por aí na correria do nosso dia a dia?

O cachorro do bom samaritano

Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: “Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?”
“O que está escrito na Lei?”, respondeu Jesus. “Como você a lê?”
Ele respondeu: “‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento’ e ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’”.
Disse Jesus: “Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá”.
Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: “E quem é o meu próximo?”
Em resposta, disse Jesus: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto.
Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado.
E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado.
Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele.
Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.
No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse-lhe: ‘Cuide dele. Quando voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver’.
“Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”
“Aquele que teve misericórdia dele”, respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: “Vá e faça o mesmo”. – Lucas 10:25-37

Antes de começar, peço perdão pelo título. Realmente não consegui pensar em algo melhor.

Começando, então, gostaria de propor uma ligeira mudança na história do bom samaritano, não para mudar o assunto principal, mas para estendê-lo um pouco, e espero que isso não lhes choque ou faça perder o fio da meada.

Imaginemos a seguinte ilustração: certo dia, um cachorro de rua seguia seu caminho, indo de Messejana para o Edson Queiroz quando, ao passar pelo Lago Jacarey, um carro o atropela e o deixa quase morto.

De repente, várias pessoas, vendo a cena, demonstram seu repúdio e indignação, algumas se comovem com a triste situação do cachorrinho, mas todas vão cuidar de sua vida, afinal, trata-se de um mero cachorro de rua.

Entre essas pessoas talvez haja alguém que tenha seus próprios animais de estimação, alguns talvez nem gostem de animais, outras talvez sejam motoristas e possam calçar os mesmos sapatos daquele motorista responsável pelo atropelamento…

Essa história poderia ser uma mera alegoria tentando transpor para o mundo animal o que se passou na parábola do bom samaritano. Poderia não tivesse acontecido hoje mesmo pela manhã.

É certo que não posso prever da onde aquele animal veio e para onde ia, mas fato é que enquanto eu estava malhando na academia a gente (eu, os outros alunos e os professores) ouvimos aquele ganido do lado de fora e fomos ver o que era, e nos deparamos com o cachorro estendido no meio da rua quase morto, mas ainda respirando.

Os outros motoristas, meio que alheios à situação, continuaram passando numa boa, tentando como podiam se desviar daquele quase cadáver ali na pista, algumas pessoas passando como se aquilo não incomodasse, como se fosse a coisa mais natural e corriqueira do mundo um cachorro ser atropelado, e talvez seja mesmo.

O mal é a indiferença, é a sensação de estar tudo bem, já que é normal, ou seja, se não tem remédio, remediado está, uma aceitação comodista de uma situação de prejuízo, nosso ou de nosso próximo, que não nos dói mais a alma.

Assim como na parábola do bom samaritano, pessoas passaram ao largo do corpo do homem e do animal, mesmo religiosos talvez, sem serem compungidos a ajudar, a sequer verificar a situação ou procurar chamar alguém que pudesse ajudar, caso não soubessem como proceder.

Eu não pude ficar parado, e junto com um professor fui lá por uns cones da rua e desviar o trânsito, depois, com muito cuidado, tiramos da melhor maneira que pudemos o cachorro que respirava com dificuldade, os olhos meio vidrados, do meio da rua, e levamos para a calçada enquanto decidíamos o que fazer.

Daí uma das alunas ficou ainda mais tocada que nós e decidiu levar o bichinho para um veterinário. Graças a Deus pela alma da boa senhora, que em suas próprias palavras, fazia parte de uma ONG que cuidava justamente de animais de rua. Talvez tenha sido um vestígio de misericórdia divina para com aquele cachorro.

Na história do bom samaritano uma das coisas que mais me chama a atenção não é nem o fato absurdo de religiosos se afastarem do homem caído, que é socorrido pelo samaritano. Há tantas implicações aqui, e que necessitam de um bom contexto para explicá-las todas, que não vou me ater ao que seria (e é, de fato) o principal.

O que me chama a atenção talvez seja algo secundário nessa história, que é o fato de sempre arrumarmos uma desculpa para não nos envolver.

Vemos que o perito (ou especialista) na Lei procurou se justificar ao formular a pergunta a Jesus de quem seria seu próximo. Fico pensando nele querendo arrumar uma desculpa para tornar quase todas as pessoas em “distantes” ao invés de “próximas”, ou restringir a tal ponto a pessoa que seria sua “próxima” que, efetivamente, ele teria muito pouco ou quase nada a se preocupar, e não teria que dedicar quase nada de seu tempo, dinheiro, vida, lágrimas, suor, esforço, compromisso com a vida de ninguém.

Pior que essa é a nossa desculpa hoje, quando evitamos a todo custo sequer olhar para o lado no sinal para não ver pessoas em situação de mendicância, ou quando passamos bem longe quando nos deparamos com alguém bêbado caído na rua. Será que, como aquele doutor na lei, nós precisamos que Jesus pegue na nossa mão e faça com que a gente veja aquela pessoa que está do nosso lado?

O próximo não significa necessariamente aquele que está perto geograficamente, embora este também seja muitas vezes ignorado solenemente, as vezes é alguém próximo por ser da mesma família, mesma igreja, mesmo trabalho, mas também pode ser alguém que é próximo por ser ser humano como nós. Isto é, se é que não nos consideramos mais humanos que outros, ou o contrário, outros menos humanos (e, portanto, dignos de atenção e consideração, cuidado) que nós.

Concluindo meu pensamento, tem muita gente que não está nem aí pros animais de estimação. São como coisas, quando abusam simplesmente largam por aí na rua. Animais também sofrem de abandono e desprezo, ainda que talvez (e vejam bem, talvez) não tenha alma, eles de algum modo sentem o que se passa a seu redor. Eu dificilmente diria que são seres totalmente irracionais. O mal é que pessoas também têm sido abandonadas “ao Deus dará”, à própria sorte.

Nós é que muitas vezes somos mais bestas feras do que eles, pois racionalmente (se é que isso pode se chamar de razão) decidimos ignorar nosso semelhante, deixá-lo apodrecer na sarjeta da vida e não temos a coragem de lhe estender a mão, talvez por vergonha social de sermos vistos acompanhados de gente vil, desgarrada do convívio da sociedade, talvez por frescura de não querer abraçar alguém fedorento e cuja higiene foi embora junto com a dignidade.

Não importa muito. Importa que hoje também procuramos desculpas para passar ao largo, não nos envolvermos, não darmos a mínima.

Não sei se acho pior alguns de nós cuidarmos tanto de animais até de rua ao ponto de criarmos ONGs em sua defesa e não cuidarmos de outros homens e mulheres como nós abandonados nas ruas, atropelados pela vida, ou de não ligarmos nem para um nem para outro, e ainda arrotarmos em alto e bom som a nossa santidade.

A minha oração hoje é para que Deus nos torne mais humanos, e se isso não for suficiente, mais cachorros talvez, não no sentido pejorativo corriqueiro, mas no sentido de que se o cão é o melhor amigo do homem, então devemos ser nós também parecidos com ele, e nos tornarmos mais sensíveis e amigáveis uns com os outros, como os cães que levam patadas e gritos mas no instante seguinte perdoam e latem, balançando o rabo em sinal de alegria, e nos miram com aquele olhar de carinho e compreensão que nunca teríamos a consideração de lançar ao nosso inimigo.

Deus nos abençoe.

Religião de morte e separação

Esse era o Dia da Preparação, e o dia seguinte seria um sábado especialmente sagrado. Por não quererem que os corpos permanecessem na cruz durante o sábado, os judeus pediram a Pilatos que ordenasse que lhes quebrassem as pernas e os corpos fossem retirados.
Depois disso José de Arimatéia pediu a Pilatos o corpo de Jesus. José era discípulo de Jesus, mas o era secretamente, porque tinha medo dos judeus. Com a permissão de Pilatos, veio e levou embora o corpo.
Ele estava acompanhado de Nicodemos, aquele que antes tinha visitado Jesus à noite. Nicodemos levou cerca de trinta e quatro quilos de uma mistura de mirra e aloés.
Tomando o corpo de Jesus, os dois o envolveram em faixas de linho, juntamente com as especiarias, de acordo com os costumes judaicos de sepultamento. – João 19:31, 38-40 (NVI)

A religião muitas vezes é a responsável por afastar o homem de Deus.

Vemos que por causa dela os judeus condenaram o próprio Deus encarnado, Jesus Cristo, à morte, e esse texto em particular é emblemático porque percebemos que isso ocorreu imediatamente antes da maior festividade religiosa dos judeus que era a páscoa.

No capítulo anterior (João 18:31), os judeus chegam para Pilatos pedindo que condenasse Jesus à morte usando como desculpa esfarrapada o argumento legal/religioso de que eles eram proibidos de matar, conforme o texto da Torá em Êxodo 20:13, ou seja, já que eles não podiam formalmente, foram atrás de quem fizesse o serviço sujo por eles.

Mas a coisa fica pior, em razão da festa da páscoa que seria no dia seguinte, os líderes religiosos judeus acharam que pegaria mal a exposição pública de cadáveres em seu dia mais consagrado, então pediram a Pilatos que terminasse logo o serviço, quebrando as pernas dos bandidos que estavam ao lado de Jesus, para que eles morressem logo e seus corpos pudessem ser sepultados ainda na sexta-feira, já que a agonia poderia se estender sábado adentro.

No entanto, havia nessa história duas pessoas que conheceram a Jesus e foram impactados por sua vida e agora também por sua morte: José de Arimatéia e Nicodemos.

Eles que antes tiveram medo de serem vistos seguindo a Jesus e preferiram buscá-lo na calada da noite, agora apresentavam-se em plena luz do dia para fazer algo inimaginável para um judeu naquele contexto, especialmente no caso de Nicodemos que era um religioso e doutor na lei, que era realizar uma cerimônia fúnebre, afinal, conforme a mesma lei, aquele que tocasse um cadáver estava cerimonialmente impuro e impedido, portanto, de participar de quaisquer celebrações, especialmente a tão esperada festa da páscoa.

Aqueles dois homens que tiveram suas vidas transformadas por completo foram responsáveis por embalsamar o mestre conforme a tradição dos judeus, que por sinal lembra bastante o ritual de mumificação dos egípcios; se colocaram sob risco de serem presos pelos mesmos líderes religiosos que mataram seu senhor; e tornaram-se “impuros” por tocar no corpo mais santo que esta terra já viu, impuros para uma religião que pregava a morte e não a vida, criticada por essa exata razão pelo mestre na famosa parábola do bom samaritano.

A lição que temos hoje é de vermos bem que tipo de religiosidade temos vivido, se as crenças que temos nos aproximam de Deus e dos nossos semelhantes, ou se nos impõem regras e costumes que tornam difícil, praticamente impossível o acesso ao Pai e a convivência com outros homens.

Ao olharmos para trás e para hoje, que possamos ver na vida, morte e ressurreição de Cristo, em tudo que ensinou, que o amor prático que se desenvolve em gestos e atitudes muito mais do que em palavras, esse sim é causa da nossa salvação, salvação do pecado, da morte, de nós mesmos, e uns dos outros, como Deus mesmo demonstra tendo-nos amado até o fim, ao nos entregar seu próprio Filho para morrer por nós naquela cruz.

Essa é a minha oração, por mim e por você.

Deus nos abençoe.

Amar a Deus sobre todas as coisas

Amar a Deus sobre todas as coisas, também mencionado como amar a Deus com todo nosso coração, com toda nossa alma, com todo nosso entendimento e com todas as nossas forças. Esse é o primeiro e grande mandamento, desde o Antigo Testamento e também por Jesus enfatizado.

Amar a Deus é sinônimo de uma vida piedosa, uma vida pautada na leitura da Palavra e na oração, que se desdobra em mudança de mente, de uma mente pecadora para a mente de Cristo, de valores egoístas de um sistema chamado mundo, que preza pelo hedonismo que escraviza, para os valores do reino de Deus, que preza pela liberdade da escolha responsável e altruísta, de sermos supostamente senhores de nós mesmos, apesar de escravos do pecado, para sermos servos do Senhor, o que nos torna verdadeiramente livres.

Amar ao próximo como a nós mesmos, que é o segundo mandamento dado por Cristo, resumo dos demais mandamentos da lei mosaica, só vale se vier precedido do primeiro e grande mandamento. Amar ao próximo como a nós mesmos sem uma vida dedicada em primeiro lugar ao Senhor pode até garantir uma sociedade mais justa, o que é bom, pode até fortalecer os laços de amizade e confiança, o que é salutar, mas não leva ninguém a ter um relacionamento pessoal e íntimo com o Senhor, não afasta ninguém do inferno, não molda verdadeiros valores no coração do homem, o que é imprescindível.

O Deus que Cristo nos revela na oração do pai nosso

Vocês, orem assim: ‘Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome.
Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.
Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.
Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém’. – Mateus 6:9-13

O nosso relacionamento com Deus é construído e desenvolvido de diversas maneiras, mas certamente duas das principais são a oração e a leitura da Palavra.

A oração nos permite falar com Deus, expressarmos o que sentimos a seu respeito; é talvez a primeira forma de O adorarmos verdadeiramente, nos colocarmos sensíveis à sua voz.

Não consigo imaginar um cristão que não tenha uma vida constante de oração, e a principal razão para tanto é que se dizemos seguir a Cristo, afinal é isso que ser cristão significa, devemos imitá-lo, e Jesus foi alguém que possuía uma vida de oração.

Para ele a oração não era algo eventual, esporádico, ou mesmo opcional. Era algo fundamental, peça principal de seu dia a dia como vemos em diversas passagens das Escrituras, tais como Lucas 6:12, Marcos 6:46, Mateus 26:36, entre outros textos, e isso tanto em situações de alegria, tristeza, angústia, etc., onde Ele se preparava para o que viria pela frente através de uma conversa com seu melhor amigo que era seu Pai, o nosso Pai.

Eu já falei disso antes, mas não custa repetir, não temos como desenvolver relacionamentos profundos de intimidade com outras pessoas sem diálogo, sem conversa, mesmo no mundo de hoje onde o ambiente virtual tem suplantado o real em tempo, em que passamos tanto tempo conectados pela rede que às vezes até nos esquecemos de nos relacionar presencialmente, mas de todo modo ainda mantemos algum contato, mesmo que por curtidas, compartilhadas e cutucadas.

Jesus em sua época não dispunha dos recursos tecnológicos que estão à nossa disposição hoje. Nem precisava. O seu contato com Deus era melhor do que qualquer acesso à Internet banda larga. Suas atualizações de status eram instantaneamente visualizadas pelo seu Pai e pelo Espírito Santo, que vinham bater papo com Ele no melhor de todos os chats, o da oração, de madrugada, no monte muitas vezes, em lugares isolados, no deserto, longe da perturbação da correria do mundo em que vivia.

Sim, correria. Porque embora não estivesse sujeito ao estresse do trânsito, ele precisava percorrer longas distâncias a pé ou no máximo no lombo de algum animal, no calor de estradas poeirentas do Oriente Médio, ou ainda enfrentando tempestades no mar da Galiléia, lidava com perigo de morte e violência, pois não faltavam bandidos, e sua região era uma região fronteiriça, de passagem, com povos inimigos por todos os lados. Isso sem falar dos religiosos de plantão, ávidos por pegá-lo em alguma falta para poderem desmoralizá-lo.

Jesus mais do que ninguém talvez precisasse de oração, precisasse desse contato com o Pai. Ora, Ele viera do Pai e coexistia com o Pai e o Espírito em perfeita harmonia e em tal nível de proximidade que não teríamos como distinguir uns dos outros. A oração era o seu alimento, seu pão, alimento que também está ao nosso dispor para que desfrutemos dele, comamos dele, aprendamos com ele, tenhamos também esse nível de intimidade e proximidade com o Pai e com o Espírito.

Mas Jesus nos mostra por meio da oração diversas facetas de Deus que eu gostaria de trazer à nossa meditação.

1 – Deus pai
Jesus através da oração do pai nosso opera uma mudança radical de paradigma. Antes dEle, os judeus não se relacionavam com Deus de maneira próxima, era sempre com um profundo sentimento de respeito, a tal ponto que sequer mencionar o nome de Deus um judeu se permitia.

De fato, tal proximidade e intimidade chocou os religiosos daquela época. Embora tenhamos alguns exemplos de pessoas que foram próximas a Deus no Antigo Testamento, como Daniel, que a Bíblia diz que orava três vezes ao dia (Daniel 6:10), e mais notadamente o Rei Davi, homem segundo o coração de Deus (muitas de suas orações vemos na forma de Salmos), que trouxe uma analogia de Deus na figura do pastor de ovelhas, a oração de Cristo a Deus iniciava-se pelo substantivo Pai.

Jesus enxergava em Deus mais do que um pastor, mais do que um guerreiro, um Deus provedor, Deus de paz, Deus presente, Deus de vitórias e general, figuras bem conhecidas e típicas do povo de Israel, mas que de certa forma denotam um Deus distante, quase insensível e impessoal.

Jesus via em Deus a figura do pai, e isso era inédito. Na verdade, tanto era inédito quanto ofensivo considerar Deus à semelhança de um de nós enquanto pai, e mais ainda, considerar-se digno de ser chamado filho de Deus. Era uma blasfêmia!

Note que Jesus nos ensina a chamarmos a Deus de pai, e pai nosso. Deus não é pai apenas de Jesus, seu filho natural único, mas de todos quantos O receberam como Senhor e Salvador, aos quais deu-lhes também o poder de serem feitos filhos, conforme João 1:12,13, filhos por adoção em amor.

Isso nos traz tanto a alegria de compartilharmos de uma família, a certeza de um amor perfeito, porque Deus nunca falha e nos ama de modo até incompreensível para nós muitas vezes, como também a esperança e a certeza de que um dia iremos nos encontrar com Ele face a face como ainda não o conhecemos, mas como seu filho Jesus já conhece, iremos habitar com Ele nas mansões celestiais que tem preparado para nós, um ambiente que é descrito como um lugar de perfeita paz e harmonia onde não haverá mais choro, nem angústias nem tristeza (Apocalipse 21:4).

Isso era algo que o povo de Israel não compreendia. A filiação é algo que só recebe aquele que reconhece o senhorio de Cristo sobre sua vida, logo nem todos são filhos de Deus, embora todos sejamos criaturas suas, feitura de suas mãos.

2 – Deus santo
Cristo então segue dizendo que o nome de Deus é santo e isso não é mera bajulação, como crianças pequenas muitas vezes quando querem um presente de seus pais e chegam dizendo “paizinhoooô”, ou coisa do gênero. Não, Cristo reconhece a majestade de Deus, a glória da santidade de seu pai, e na verdade isso é algo que Ele conhecia bem por ter vivido desde a eternidade em unidade com Deus.

Ele não precisava dizer isso, mas Jesus tem prazer em declarar as virtudes de seu Pai, a sua bondade, o seu cuidado, ensinando-nos que não temos um pai qualquer, uma figura cheia de falhas e limitações como nossos pais terrenos, muitos dos quais cometem até abusos e comportamentos indignos da figura de pai.

Jesus, nesse caso, me parece mais como aquela criança que chega para contar para a outra com todo orgulho como seu pai é importante, verdadeiro super-herói e isso nos mostra que temos muito, tudo mesmo, de que nos orgulhar do nosso Pai, alguém que nos criou conforme sua imagem e semelhança e que veio ao nosso encontro nos resgatar, dar sua própria vida por nós através de seu Filho.

Uma imagem que me vêm à mente nesse momento é uma fotografia que se tornou famosa do ex-presidente americano John Kennedy tirada no salão oval da Casa Branca, nos EUA, na qual seu filho aparece despreocupado brincando aos seus pés ou mesmo sob sua mesa enquanto seu pai, o homem mais poderoso do mundo, discutia assuntos como a crise dos mísseis de Cuba com outras autoridades de Estado.

Assim somos nós com relação ao nosso Pai celeste, nós estamos meio que brincamos ignorando todas as situações de perigo ao nosso redor mas Ele sempre nos protegendo. De fato, não atentamos para o fato de Deus nos chamar a sermos santos como Ele é santo (Levíticos 20:7, entre outros textos), tanto por desconhecermos, muitas vezes, a Palavra, quanto por não entendermos que santidade não significa perfeição, muito embora em Deus até assuma essa conotação.

Santidade, a que somos chamados, significa estarmos ou sermos separados de um meio para outro para um fim específico, no caso Deus nos separando do pecado e da morte, do mundo que jaz no maligno, para o seu reino, para sermos diferentes e impactarmos esse mundo como sal e luz, missão que seu Filho mesmo nos outorgou (Marcos 16:15).

Deus é santo e não conhece o pecado nem o tolera. Na medida em que Jesus nos ensina a orarmos assim, Ele nos mostra que devemos reconhecer a nossa própria fraqueza e limitações perante o Deus que é infinitamente superior.

3 – Deus rei
A seguir Cristo nos remete, e aos seus discípulos, à uma figura que os israelitas já conheciam bem, a figura de Deus como rei. De fato, Israel na época de Jesus, embora sob dominação romana, possuía um rei, Herodes, então a figura de um rei, de um reino, não era algo distante à realidade e compreensão daquele povo.

Nós, por outro lado, talvez tenhamos que nos esforçar um pouco para entendermos a magnitude desse conceito. Primeiro porque vivemos em uma República, onde o chefe de Estado e Nação é o presidente, cujos poderes, embora certamente sejam muitos, sofrem de muitas limitações ditadas pela própria ordem constitucional na qual estamos inseridos.

Talvez possamos entender por analogia, quando examinamos a vida da família real espanhola, sueca, ou principalmente a britânica, que acompanhamos na televisão ou em outros meios de comunicação.

Não é meu intuito aqui discutir Direito ou História, e voltando ao texto que lemos, quando Cristo ora clamando para que Deus venha com seu reino, Ele reconhece que os governos deste mundo claramente possuem valores diferentes, distantes dos valores do reino de Deus e que, por essa razão, era necessária e urgente a implantação de maneira definitiva deste reino que, antes de ser político, é um reino espiritual.

Sim, Jesus em diversos momentos, posteriormente, viria a confirmar essa afirmação, quando, por exemplo, disse a Pilatos que seu reino não era deste mundo (João 18:36). O reino de Deus é tratado por Cristo em diversas situações com variadas metáforas, como, por exemplo, na parábola do grão de mostarda (Lucas 13:18 em diante), em que o Mestre ensina que é um reino que começa pequeno, de maneira despretensiosa, e no decorrer do tempo transforma-se em uma árvore frondosa e de grandes proporções.

Cristo nos ensina que os valores do reino são diferentes, e a vontade de Deus, soberano deste reino, é melhor, por isso Ele pede que seja feita a vontade de Deus aqui na terra, no estabelecimento do seu reino de paz e justiça, como espelho do que é nos céus onde está assentado em seu trono.

De fato, uma das últimas orações que Jesus faz aqui na terra antes de ser crucificado é no jardim de Getsêmani, onde clama a Deus pedindo que, se possível, passasse dele o cálice da aflição da separação e da morte em condenação pelo nosso pecado (Lucas 22:42), pecado que Ele nunca experimentou, morte que Ele não precisava passar por demérito próprio, mas que Ele voluntariamente aceitou por saber que era essa a vontade do Pai desde o princípio para sua vida, conforme Gênesis 3:15.

Nem sempre teremos a compreensão plena de qual é a vontade de Deus, ou mesmo que ela é, de fato, boa, agradável e perfeita, conforme Romanos 12:2. A oração que Cristo nos ensina é, então, também nesse sentido, um reconhecimento de que não entendemos tudo, nossa limitação também se estende a esse aspecto da nossa vida, nós dependemos completamente de Deus e por isso rogamos que, por mais que façamos conhecidas a Deus nossas petições com súplicas e ações de graça, conforme Filipenses 4:6, Ele faça a vontade dEle e não a nossa, e que de alguma maneira possamos confiar e descansar nEle e em sua bondade para conosco.

4 – Deus que cuida de nós
Se pararmos para analisar o contexto em que a oração do pai nosso está inserida, percebemos que ela é quase como um grande parêntese que Jesus faz em seu discurso, uma breve pausa para ensinar-nos alguns princípios que dizem respeito a Deus, nos levando a conhecer mais de nosso Pai, e ainda a respeito da oração, uma das principais maneiras de nos relacionarmos com Ele.

Sendo assim, desde a primeira menção à palavra Pai, podemos ter a certeza de que Deus cuida de nós, como afinal, é esperado de um pai. Mas Deus não é um mero pai terrestre. Jesus quando nos ensina a pedir a Deus o nosso pão diário encerra nesse pedido a certeza de que seremos atendidos, pois Deus supre cada uma de nossas necessidades, como vemos na continuação imediata desse texto em que temos meditado, a respeito do que comemos ou vestimos, preocupação constante em nossas vidas e sobre o que o Mestre admoestava os seus ouvintes.

A Bíblia vai além no capítulo seguinte, final do sermão do monte, onde Jesus diz exatamente isso, que Deus não é um pai qualquer, e ainda O compara com nós mesmos, afinal, quando um filho da gente nos pede uma coisa boa, nós não damos uma coisa ruim, que dirá mesmo Deus que é perfeito e é incomparável em termos de poder e amor por nós seus filhos, o que não nos dará.

Isso não significa termos um relacionamento com Deus baseado em bençãos que porventura Ele resolva nos dar, nem orarmos fazendo pedidos egoístas. Deus não tem interesse em ter filhos mimados, e muitas de nossas orações não são respondidas justamente pelo fato de serem pedidos egoístas, conforme Tiago 4:3.

Essa é mais uma razão porque devemos pedir o pão “nosso”, ou seja, não é o meu pão, mas o pão que eu quero compartilhar com você que talvez não tenha o que comer. Deus supre as nossas necessidades, não a minha necessidade apenas, e isso deixa claro que muitas vezes nós mesmos seremos usados pelo pai para ajudar o irmão em seu momento de aflição, de dificuldade.

Vale lembrar, no entanto, que pão não necessariamente quer dizer a comida, ou apenas isso, mas talvez uma roupa, um brinquedo, um livro, ou mesmo tempo de qualidade para ouvir a dor do outro, dar um abraço e carinho que ninguém mais se disporia a fazê-lo.

Enfim, o alimento que pedimos a Deus pode ser de ordem física, emocional e quem sabe até espiritual, na medida em que nos dispusermos a compartilhar o Pão da Vida que é Jesus (João 6:35, entre outros) com pessoas que ainda se encontram perdidas neste mundo, vivendo uma vida de frustrações, passando necessidade mesmo tendo tudo que alguém poderia desejar em termos materiais.

Mas o cuidado que Deus demonstra para conosco deve ser razão para confiarmos nEle e não ansiarmos pelo dia de amanhã. O pão nosso é de cada dia, ou seja, não devemos nos preocupar com o que aconteceu ontem, nem o que porventura venha a acontecer no dia seguinte. Basta a cada dia o seu mal, conforme Mateus 6:34, ainda no contexto dessa oração.

É uma confiança que se estabelece dia a dia, as experiências que temos com o Pai ontem nos levam a confiar mais nEle hoje, e assim por diante. Tudo volta ao aspecto relacional, pois como qualquer relacionamento baseado em confiança, a confiança se constrói por etapas, e se sabemos que podemos confiar em Deus que foi fiel ontem, igualmente temos a certeza de que Ele é fiel hoje e continuará sendo amanhã pois Ele não muda, e permanece fiel ainda que nós sejamos infiéis, pois Ele não pode negar a si mesmo (2 Timóteo 2:13), antes é fiel em amor a cada um de nós e para glória de seu próprio nome.

Por fim, o clamor pelo pão de cada dia serve como lembrança que o nosso relacionamento com Deus é diário. Não estamos pedindo um bolo de festa onde só comemos em ocasiões especiais, e da mesma forma o nosso momento a sós com Deus não deve ser só no domingo, ou na ocasião do culto comunitário, mas desenvolvido no nosso quarto, no dia a dia.

5 – Deus que nos perdoa
Jesus mais uma vez inova ao dizer que devemos pedir o perdão de Deus em oração. Ele estabelece não uma condição para o perdão de Deus, pois Deus só requer de nós que aceitemos o sacrifício de seu Filho na cruz do Calvário, reconhecendo que somos pecadores e carentes do seu perdão, nos arrependendo de nossos males e nos convertendo de nossos maus caminhos, mas sim algo que Ele sempre nos ensinou que era darmos o exemplo.

Deus já nos perdoou em Cristo Jesus na cruz do Calvário, então qual seria a razão de fazermos esse tipo de pedido?

A primeira razão diz respeito à nossa responsabilidade pessoal pelos nossos atos, ou seja, assumirmos perante Deus as nossas faltas cometidas contra a sua lei, tenha sido por ações, omissões, palavras ou pensamentos de rebeldia contra o Pai, contra outra pessoa, ou mesmo dirigidas contra nós mesmos.

Isso é importante especialmente no mundo de hoje onde muitos jogam a culpa de todos os seus males em Deus ou no diabo mas esquecem-se de que a grande maioria das aflições pelas quais passamos são consequências diretas das nossas más escolhas e pecados, pecados estes que são gerados em nosso coração poluído. Como diz Lamentações 3:39, de que se queixa o homem senão de seus próprios pecados?

Não! Devemos agir não como crianças que, quando pegas em flagrante, desandam a chorar ou mentem, jogando a culpa em outra pessoa. Devemos reconhecer a nossa necessidade de correção, sabendo que ela se destina a polir-nos, moldar-nos e nos transformar em pessoas melhores, afinal, é o Pai educando seus filhos com amor, pois o pai que ama seu filho ensina o certo do errado.

Em segundo lugar, pedimos a Deus para nos perdoar como perdoamos aos nossos devedores, reconhecendo que nós também falhamos, tanto em relação a Deus quanto em relação ao nosso semelhante, e isso, portanto, nos impede de nos julgar superiores aos outros, ou de considerar suas faltas piores que as nossas.

Nesse sentido, se analisarmos bem como essa frase está escrita, vemos que o pedido a Deus para que nos perdoe é na forma como nós temos perdoado, ou seja, o nosso perdão deve preceder o pedido de perdão, não podemos chegar a Deus para “exigir” o perdão de nossos pecados, que já sabemos estar perdoados, se guardamos rancor ou mágoa de outras pessoas que nos ofenderam.

Em terceiro lugar, Tiago 5:16 nos diz para confessarmos nossos pecados mutuamente e orarmos uns pelos outros para que sejamos sarados, então quando pedimos perdão a Deus pelos nossos pecados, somos alvos de seu poder curador, a nossa própria oração tem efeito terapêutico em nossas vidas, como alguém que procura um psicólogo, por exemplo, para, através de análise, resolver vários de seus problemas e dificuldades pessoais.

6 – Deus que nos livra do mal
Cristo aqui nos mostra que Deus tem tanto uma atitude passiva de proteção como uma ativa em nosso favor e contra a tentação e o mal. Como assim?

Quando Ele pede para Deus não nos deixar cair em tentação, Ele está reconhecendo e ao mesmo tempo afirmando categoricamente que passaremos por tentações, muito embora as tentações não venham de Deus, afinal Deus não tenta a ninguém, conforme Tiago 1:13, mas que com toda tentação, o próprio Deus nos supre com os mecanismos de escape, conforme 1 Coríntios 10:13.

Deus novamente me parece a figura do pai que tem cuidado de seus filhos pequenos e não os deixa, por exemplo, correr para o meio de uma rua movimentada onde os carros estão passando e que correrão, dessa forma, um sério risco de vida.

O diabo usa as nossas próprias fraquezas e concupiscências da carne para nos testar até o limite, mas Deus sempre providencia, através do seu Santo Espírito, um alívio NA aflição, NA angústia, embora nem sempre nos tire nem uma nem outra, como bem nos lembra a história de Daniel na cova dos leões e de seus amigos na fornalha de fogo.

Por outro lado, percebamos que não devemos nós mesmos alimentar nosso lobo interior. Eu costumo dizer que dentro de nós há um lobo e um cordeiro em constante luta. Ora, por sua própria natureza, o lobo é mais forte e feroz que o cordeiro, então ele não precisa ser alimentado para vencer essa luta. Ao contrário, se esperamos ou desejamos que o cordeiro vença, devemos sempre alimentá-lo e deixar o lobo morrer de fome.

Em outras palavras, se não queremos ser nossos próprios algozes, se não queremos cair no despenhadeiro, fiquemos longe da beirada! Assim, se cairmos, não teremos ninguém a quem culpar senão a nós mesmos. “Pobre” do diabo, que já levou muita culpa na história por atitudes, comportamentos, falhas de caráter e pecados planejados e executados unica e exclusivamente por nós mesmos, embora ele certamente tenha muito a colaborar em nossa queda.

O livramento passivo não quer dizer que Deus nos deixa abandonados nem sugere que Deus não se importa conosco, ou que não cuida de nós. Ao contrário, é uma estratégia da batalha que consiste em dois polos, o atacar e o defender, onde, neste caso, é o caso de resistir ao diabo, e ele fugirá de nós, como bem diz o texto de Tiago 4:7.

Deus também nos auxilia na batalha contra o mal de modo ativo, nos fortalecendo em meio à adversidade através do seu Santo Espírito. Como o texto de Tiago 4:7 já mencionado afirma, devemos nos submeter a Deus, então resistir ao diabo, ou seja, não temos como conseguir, de modo algum, resistir ao diabo se não tivermos, primeiramente, nos submetido a Deus.

Deus nos veste com sua armadura, conforme Efésios 6 em clara citação de Isaías 59, ou seja, Deus, que é conhecido como general no antigo testamento, nos comanda como um exército vitorioso contra as hostes do mal, uma batalha que, como diz as Escrituras, não é contra carne nem contra sangue, mas contra principados e potestades (Efésios 6:12), ou seja, uma realidade espiritual que não podemos negar a sua influência maligna neste mundo, especialmente na vida daqueles que ainda não se converteram a Cristo.

7 – Deus que é dono e senhor de todas as coisas
Cristo quando menciona Reino, poder e glória exprime a extensão do poder e do domínio de Deus para além da esfera espiritual, política, social, ou qualquer outra que haja. Ele coloca o Pai como Senhor absoluto do universo e todos os seres criados, afinal Ele mesmo desenhou, projetou e executou tudo que existe, dos animais às plantas, rochas, planetas, leis da natureza, até ao homem, criado à sua própria imagem e semelhança.

Mas além disso, Jesus faz um reconhecimento público de que nós possuímos nosso próprio reino, poder e glória particulares, nem que seja apenas nossa casa, nossa família, nosso trabalho, nossas realizações e méritos pessoais, mas que estes devem ser depositados aos pés do Senhor porque dEle vieram em primeiro lugar, pois foi a capacitação do Pai que nos permitir alcançar e conquistar o que conquistamos.

De fato, em Apocalipse 4 vemos as figuras dos 24 anciãos lançando suas coroas perante o trono do Deus altíssimo, demonstrando claramente que qualquer autoridade, qualquer poder, qualquer glória, qualquer honra ou riqueza que porventura possuíssem não era fruto apenas de mérito pessoal, antes eram verdadeiramente devidos ao Pai, e por isso mesmo a Ele eram dedicados e devolvidos.

Mas o reino, o poder e a glória de Deus não são limitados pelo tempo, não têm começo ou fim, porque o próprio Deus é senhor do tempo, criação sua e que diz respeito apenas a nós seres mortais. Deus é eterno, e igualmente eternos seu reino, poder e glória.

Cristo nos ensina que tudo aquilo que o diabo nos promete é mentira. Não podemos esquecer que essa foi uma das promessas que ele fez a Jesus quando o tentou, que se o Senhor o adorasse ele daria todas as riquezas e poder do mundo, algo que nem seu era, mas do próprio Deus. O diabo quer sempre tentar tomar o lugar de Deus em nossas vidas, mesmo que seja através de mentiras deslavadas, artimanhas suas que tem usado para enganar homens e mulheres desde Adão.

Conclusão
A oração do pai nosso não deveria ser feita como uma reza, uma mera repetição formal de palavras, como um encantamento ou mantra. Jesus não nos manda orarmos repetindo essas exatas palavras. Em verdade, no próprio contexto da palavra lida, Jesus rechaça esse comportamento feito pelos pagãos ou incrédulos, que pensam que pelo muito repetirem uma mesma oração serão ouvidos.

A oração do pai nosso, portanto, nos revela como devemos nos relacionar com nosso pai através da oração. Mais que isso, nos revela o próprio Deus com quem nos relacionamos, um Deus que é pai, que é santo, que é rei, que cuida de nós, que nos perdoa, que nos livra do mal, e que é dono e senhor de todas as coisas.

Isso não é razão suficiente para adorarmos esse Deus de verdade, em sinceridade de coração, com tudo que temos e que somos?

Como falei no início, a oração tem o “poder” de nos tornar mais sensíveis a voz de Deus, pois quanto mais falamos com o Pai, mais facilmente reconhecemos seu tom de voz, como se parece sua face, nós O conhecemos e nos fazemos cada vez mais conhecidos dEle, como ovelhas conhecem o seu pastor, como servos o seu senhor, amigos uns aos outros, e filhos a seu pai.

A minha oração hoje é que Deus continue se revelando cada dia a nós na medida em que o busquemos através da oração e leitura da Palavra. Que as palavras de Jesus possam ecoar em nossos corações revelando um Deus relacional, perto, não distante, um Deus que é pai, o nosso pai.

Deus nos abençoe.