Estudo 2 Pedro 3 – Uma mensagem de despedida

Estudo EBD – Jovens – PIB Fortaleza – 10/03/2019
2 Pedro 3 – Uma mensagem de despedida

Pedro, em suas palavras finais, reafirma que em ambas as cartas que escreveu, ele procurou relembrar seus leitores, a igreja, a quem ele tinha em alta consideração (“queridos irmãos” – NTLH), fatos, ou seja, acontecimentos, não apenas sua opinião sobre assuntos diversos ou mesmo “teológicos”.

Eram fatos.

Não se questionam fatos. Podemos até ter diferentes interpretações sobre os fatos, mas eles continuam lá, sujeitos a novo escrutínio, podemos a qualquer tempo visitá-los novamente na memória de nossas experiências pessoais, por meio de um filme, uma fotografia, às vezes até um cheiro, ou mesmo a leitura de um livro ou outro documento que nos faça relembrar de cada detalhe. Como Pedro lhes havia feito ao escrever suas cartas.

Fatos que eram:

  1. de conhecimento comum (“público e notório”). Não era algo escondido ou “criptografado”, limitado a um público específico, particular, um grupo de “iniciados”… Não! Cristo veio em carne, morreu, ressuscitou e foi visto por muitos em carne até que subiu novamente aos céus. Havia um número grande de testemunhas “oculares” desses fatos, muitos dos quais ainda viviam nesse período.
  2. aprendidos dos santos profetas. Os profetas, como vimos várias vezes em aulas passadas, mencionaram o Cristo, seu nascimento, ministério, detalhes de sua vida. Isso também era conhecido dos leitores de Pedro, em sua maioria, porque isso era de acesso livre a todo judeu, que desde criança estudava a Lei e os Profetas.
  3. aprendidos dos apóstolos. Mesmo que parte dos leitores não tivesse visto pessoalmente a Jesus, ou mesmo que eventualmente alguns tivessem outra herança cultural (os “gentios”) e não conhecessem profundamente a Lei e os Profetas, os próprios apóstolos, quem melhor conheceram a Jesus, tinham sido fontes originais da pregação da mensagem do evangelho, a mensagem da salvação que alcançou aqueles leitores – as palavras do próprio Mestre.


A importância de ter em mente as promessas

Quem foi fiel para cumprir as promessas do passado sobre a vinda de Cristo, permanece fiel para cumprir a promessa de seu retorno.

Isso significa uma coisa: podemos confiar em Deus!

Sim! Deus é altamente, perfeitamente confiável!

Sempre houve pessoas que duvidaram das promessas de Deus e infelizmente sempre haverá. Desde a peregrinação de Israel pelo deserto, é difícil para muitos crer, porque crer não é apenas “acreditar”, é confiar, e confiar significa entregar o controle de nossas vidas a Deus.

Pedro vai além ao citar “escarnecedores”, pessoas que não só não creem, mas também debocham dos que creem. Como os samaritanos fizeram na época da reconstrução do templo, do muro e da cidade de Jerusalém que estavam em ruínas quando do retorno de Israel do exílio babilônico, conforme narrado em Esdras e Neemias.

Fica pior. Às vezes, os maiores incrédulos, os escarnecedores estão no nosso meio. Inadvertidamente ou de propósito, muitos irmãos parecem querer apagar o pavio, em vez de reacender a nossa fé.

Assim, como muitos líderes religiosos judeus questionaram a divindade de Cristo na cruz mandando Ele descer, salvando a si mesmo, sem compreenderem que morrer ali era a única maneira de salvar a humanidade, muitos de nós hoje podem questionar o propósito de Deus na “aparente” demora do retorno de Jesus.

Aparente. O próprio Pedro traz luz a essas dúvidas, muitas vezes dúvidas justas e razoáveis que podemos ter. Sim, porque ter dúvidas justas e razoáveis podem fazer parte da vida e da caminhada de um cristão, não é necessariamente um sinal de falta de fé, mas de reconhecer sua/nossa incapacidade de crer como deveríamos, buscando sair de um lugar de menor fé para um de maior fé.

Os argumentos de Pedro são os seguintes:

  1. esquecimento deliberado, ou memória seletiva. As pessoas contam a história conforme lhes convêm, e deixam de lado o que não lhes convêm. São as famosas “fake news”, histórias contadas pela metade, ou verdades incompletas, onde há parte de verdade e parte fantasia, ou mentira deslavada mesmo. Cheira à verdade, parece com a verdade, tem gosto de verdade, mas é mentira, e quando engolimos se torna veneno em nosso estômago e pode envenenar nosso coração, nossa alma. Isso funciona em tudo na vida, inclusive em matéria de fé e religião.
  2. Deus ordena e coordena a história. Ele é presente e não ausente. Ele não está distante nem alheio ao que se passa conosco, individualmente, no detalhe, muito menos com a igreja e o mundo em larga escala.
  3. também por essa razão, Deus não está preso ou limitado pelo tempo. Diferentemente do que pensam alguns hoje, e até a ciência tem compreendido isso à sua maneira, a matéria e o tempo surgiram no mesmo instante, e estão ligados, interconectados. Deus criou e controla o tempo. Horas, dias, meses e anos são meras “abstrações” para o ser humano perceber a sua finitude e ao mesmo tempo ter esperança de renovo que reside no amanhã.
  4. a aparente “demora” de Deus é, na verdade, sinal de sua paciência e misericórdia para conosco e, principalmente, para com os ainda não salvos. É do interesse e da iniciativa de Deus que todo pecador se arrependa, e não que pereça.

Pedro relembra as palavras de Jesus quando afirma que a vinda de Cristo, seu retorno, é certo mas “inesperado”, e, por isso, devemos estar sempre alertas, vigilantes, para que não sejamos pegos desprevenidos como as virgens néscias da parábola (cf. Mateus 25:1-13).

É um retorno à mensagem da primeira carta, de encorajamento, de uma espera produtiva, em que ansiamos pela vinda de Jesus, não de braços cruzados, mas sim vivendo vidas santas, piedosas, nos esforçando para não pecar, uma luta diária mesmo, o evangelho vivido na prática e não apenas na teoria, andando em paz com todos, não para glória e honra própria, mas para agradar o noivo, que é Cristo.

Além disso, nesse tempo que nos aguarda, nossa missão é partir para o resgate de outras almas perdidas!


Conclusão

Concluindo, Pedro nos exorta a não agirmos como esses escarnecedores, principalmente os que se passam por irmãos, que são os mais perigosos. É o caminho descrito no Salmo 1, onde é feliz o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Andar, se deter, se assentar. Saímos da condição de movimento e paramos, começando a descer a escada rolante da vida cristã. Primeiro apenas um conselho, depois um caminho, uma vida de pecado que vai anestesiando o coração e a mente até ao ponto onde nós mesmos seremos como um daqueles escarnecedores, fazendo pouco-caso das coisas espirituais, irreverentes, contando piada de coisas muito sérias.

O remédio para isso é, nas palavras do salmista, ter prazer na Lei do Senhor e na sua Lei meditar de dia e de noite, e perceba que Lei aqui não são as doces palavras do Salvador capturadas em alguma passagem dos evangelhos ou das cartas de Paulo ou Pedro, mas era o pentateuco, a parte mais “árida”, por assim dizer, do Velho Testamento, mas que para o salmista tinha um sabor muito doce, pois trazia vida.

O gnosticismo, seita que Pedro também busca combater, era como um câncer atacando a igreja por dentro, por meio de homens que se apresentavam como servos do Senhor, mas eram joio, e não trigo, pessoas que deturpavam de propósito a verdade.

O autor aqui reconhece que há coisas nas Escrituras que são de difícil compreensão – não impossível! – e que esses falsos irmãos se aproveitam disso para dar um significado completamente diferente, fora do comum. Ele fala isso sobre as cartas de Paulo, equiparando umas às outras, reconhecendo a inspiração daquilo que viria a se tornar boa parte do Novo Testamento.

Finalmente, o antídoto para esse veneno seria crescermos em força espiritual e conhecermos melhor o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, a quem todos devemos dar a glória, ontem, hoje e eternamente.

Deus nos abençoe.

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In God we trust (nEle a gente pode confiar)

Então disse o Senhor a Moisés: Eis que vos farei chover pão dos céus, e o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu o prove se anda em minha lei ou não. – Êxodo 16:4

O pão nosso de cada dia nos dá hoje; – Mateus 6:11

Deus é um deus provedor.

Ele cuida de nós e deseja o nosso melhor.

Deus nunca nos prometeu riquezas, poder, luxo ou que satisfaria nossos desejos egoístas frutos da nossa sociedade consumista, mas Ele nos prometeu saciar as necessidades mais básicas, o que, na pirâmide de Maslow, corresponde às necessidades fisiológicas, como alimento, saúde, e de segurança, como a moradia, abrigo.

É nesse contexto que o Salmista diz que o Senhor é o nosso pastor, e nada nos faltará (em nada passaremos necessidade), conforme Salmos 23:1, ou ainda no contexto da oração do Pai Nosso, ensinada como modelo de relacionamento com o Pai por nosso mestre Jesus, que Deus veste os lírios do campo em riqueza que nem Salomão usou, e alimenta os pardais que não precisam se preocupar, como não o faria conosco, seus filhos e infinitamente mais preciosos para Ele do que meras flores ou passarinhos?

Vejamos bem que o mesmo que Deus promete para Israel, em Cristo nós também temos acesso, a esse Deus de provisão, à sua generosa oferta de cuidado, de que não precisamos ficar ansiosos, preocupados, muito embora vivamos em um cenário de crise econômica onde muitos de nós estejamos momentaneamente apertados ou mesmo desempregados, esse é o momento de crer, esse é o momento de confiar.

Israel não confiou em Deus, nos versos seguintes vemos que o povo colheu mais do que podia comer com medo de faltar no dia seguinte, e a comida apodreceu.

O desafio portanto é confiar, entregar-nos nas mãos poderosas de Deus e não temos como confiar desconfiando, como diz a bela música do Vencedores por Cristo.

Não!

Ou confiamos ou não confiamos, não há meio termo, e a ansiedade é sinônimo de desconfiança.

Mas como eu, eu sei que você também é humano e fraco, então ainda que tenha apenas uma fagulha de fé e esperança, exercite essa confiança no Pai dando o primeiro passo pela fé, faça como aquele pai desesperado que deseja a cura de seu filho quando vai ao encontro de Jesus, conforme Marcos 9:24, reconheça sua incredulidade e peça a Deus que fortaleça ou aumente a sua fé!

A minha oração hoje é para que eu e você não sejamos teimosos e faltos de fé como aquele povo de Israel no Êxodo, que aprendamos a confiar e depender completamente em Deus, pois Ele nos sustenta e guarda, e diferentemente de nós que somos infiéis, Ele é fiel, Ele permanece fiel pois Ele é constante, Ele não muda, Ele está sempre disposto a estender a sua mão para nos abençoar!

Deus nos abençoe.

Desviados 2

E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores.
E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.
E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai.
Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus.
Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa.
E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus. – Lucas 9:57-62

Não, não acredito em perda da salvação. Não é o tema desse texto, mas é logicamente impossível perder algo por demérito que não se conquistou por mérito próprio (nesse contexto, pelo menos).

Acredito na não salvação, ou ainda mais claramente nos efeitos que a palavra de Deus tem quando não encontra um solo fértil para frutificar (ou melhor, dos solos/corações que a recebem), como Cristo descreveu na parábola do semeador (Lucas 8:5-18), quais sejam a empolgação inicial de um “novo crente”, o apagar de sua “fé” pelas decepções com o meio religioso-eclesiástico, a sucumbência às pressões sociais e do meio onde está inserido, a prevalência da dúvida, a falta de bases sólidas e alimento espiritual para o seu crescimento, enfim.

E creio também que muitos que estão entre nós tem aparência de crente, “cheiro” de crente, falam como cristãos (ou pelo menos usam seus jargões de um evangeliquês raso mas convincente), mas não são verdadeiramente salvos, convertidos, transformados, joios em meio ao trigo, como diz o Senhor (Mateus 13:24-30), cujas obras que permanecerem essas darão testemunho verdadeiro de sua salvação (ou não salvação).

Por que lembrei desse texto e resolvi escrever a respeito dele? Porque tenho visto mais e mais pessoas com as quais convivi no meio religioso, muitas delas que trabalharam na obra de Deus como obreiros, missionários, evangelistas, cantores, e hoje estão distantes do caminho do Senhor, vivendo o oposto do que tanto pregaram e cantaram.

Sei que os que foram verdadeiramente escolhidos, eleitos de Deus em Cristo Jesus, como filhos pródigos um dia retornarão para a casa do Pai.

No entanto, lembro também das palavras do apóstolo João:

Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos se têm feito anticristos, por onde conhecemos que é já a última hora.
Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós. – 1 João 2:18,19

Os desviados, que nunca foram cristãos, na verdade se tornaram em anticristos, lutam contra o Senhor, desprezam o seu amor, a sua Palavra, o seu sacrifício, estavam (e estão) em nosso meio, cantam com a gente, falam como a gente, vão para as nossas programações, mas a verdade é que só o tempo dirá que são apenas joio, como palha que é levada pelo vento e não tem substância.

Isso deveria nos mover de compaixão por suas almas, nos causar uma santa indignação, e não sermos por eles enganados e levados ao mesmo erro que cometem.

Deus nos abençoe e guarde.

Porque creio em Adão e Eva

Recentemente vi um vídeo onde uma adepta do espiritismo em tom de chacota pergunta a um padre se ele acreditava em Adão e Eva, primeiros humanos criados por Deus segundo a narrativa bíblica do Gênesis, como se por essa narrativa a Bíblia perdesse a sua credibilidade, como se fosse impossível ter havido dois seres criados da forma que a Palavra de Deus narra.

O padre respondeu que cria que a narrativa de Adão e Eva, como aliás a parte inicial do Gênesis, no relato da criação, tratava-se não de descrição literal da criação do universo, mas uma alegoria do processo através do qual Deus criou todas as coisas, uma forma pela qual Deus explicou de modo simplificado aos homens pela revelação de uma maneira que eles, que não possuíam uma capacidade desenvolvida de ciência, astronomia, física entre outras, pudessem entender, como uma pedagogia em que um adulto tenta explicar algo extremamente complexo para uma criança de modo que lhe satisfaça pelo menos parcialmente a curiosidade, mas que não irá expô-la desnecessariamente a crises intelectuais que não terá condição de assimilar e lidar.

Para tanto lembrou bem os termos “ish”/”isha” que no hebraico significam Adão e Eva, e podem também ser traduzidos por homem/mulher, ou seja, ao invés de serem nomes próprios de dois indivíduos recém criados por Deus, significavam um coletivo, como o gênero masculino e o feminino, e, segundo ele, para os judeus antigos o relato da criação era entendido dessa forma, de modo alegórico e não literal.

É verdade que existe essa corrente teológica séria, a qual muitos pastores evangélicos também acreditam.

Não é uma posição esdrúxula, por assim dizer, embora talvez não seja majoritária.

No entanto, existem pelo menos três razões que me fazem, pessoalmente, crer que Deus criou efetivamente Adão e Eva da maneira como descrita no Gênesis, e não apenas eles, mas todo o universo, da exata maneira como ali descrita, não sendo portanto um mito ou uma alegoria, mas a realidade das coisas como elas aconteceram:

  1. O evangelista Lucas, ao trazer o relato da genealogia de Cristo, diferentemente de Mateus que vai somente até Abraão, pai do povo judeu, por razões e público alvos diferentes, vai além, indo até Adão.
    Ora, não faz sentido haver genealogias de pessoas mitológicas, especialmente quando se consegue, partindo-se de um descendente em particular, e subindo na árvore genealógica, chegar até ao patriarca, a quem começou tal linhagem.
    Assim vemos na genealogia de Adão descrita em Gênesis 5, e da mesma forma em Lucas 3.
    Ademais, Lucas era além de médico, historiador, e como tal usou de método científico, na medida do conhecimento da época, para examinar de maneira exaustiva como tudo relacionado à vida de Jesus tinha acontecido (conforme descrito em Atos 1), de modo a dar respaldo ao seu relato, ele foi fiel ao conhecimento histórico, citando lugares, contextos, personagens políticos, enfim, não faz sentido supor que ele usou de tamanho rigor em todo seu texto do evangelho e da carta de Atos dos apóstolos mas deixou de lado na hora de citar a genealogia de Jesus que segue até Adão, e de Adão a Deus, tendo usado de mitologia ao invés de parâmetros e fatos historicamente comprováveis e verificáveis por seus leitores, especialmente pelos judeus da época que conheciam bem de linhagens e genealogias, ao ponto de brigarem por esse tipo de assunto (Tito 3:9).
  2. O apóstolo Paulo, maior teólogo do Novo Testamento, cita Adão por diversas vezes não como uma figura mitológica mas como um ser real, e não apenas isso, como uma pessoa, um indivíduo, criado por Deus, por meio de quem entrou o pecado no mundo, o que corrobora o texto do Gênesis, que de fato era o que os judeus, ao menos os religiosos (o que na época era a maioria), acreditavam.
    Como exemplo dessa afirmação vemos os textos de 1 Timóteo 2:13 e 14, 1º Coríntios 15:22 e 45, Romanos 5:14, etc.
    Paulo estudou sob o mais importante e renomado rabino de seu tempo, Gamaliel, então fosse o caso de ser apenas um mito ou de ter sido empregado por Deus como uma alegoria ou metáfora ou algo do gênero, certamente Paulo faria menção a isso.
    Além disso, apesar do desenvolvimento literário e teológico em Moisés, escritor do Gênesis, não ser tão evoluído, em diversas passagens vê-se construções como figuras de linguagem, como aliterações, hipérboles e outras sendo utilizadas para suprir deficiências da própria linguagem como, por exemplo, pela falta do superlativo, onde o mesmo verbo era repetido, ou a estrutura gramatical usava desse tipo de construção, além da própria narrativa repetida, garantindo a ênfase que não poderia ser dada pela falta de um negrito, por exemplo.
    Não apenas isso, mas em Paulo já vemos, milhares de anos depois de Moisés, um verdadeiro estilo literário, com construções complexas que a própria língua grega permitia, ausentes no hebraico e aramaico do Velho Testamento.
    Isso depõe a favor da existência de Adão como pessoa ao invés de mito.
  3. A possibilidade ou melhor a capacidade de Deus ter criado todas as coisas como descrito no Gênesis.
    Creio que se Deus pôde se encarnar em Jesus Cristo, ter vindo ao mundo, morrido por nossas transgressões, ressuscitado ao terceiro dia, sem contar a vida e obra nesta terra, os muitos milagres que realizou por seu Filho, a obra que em mim opera e em todos os crentes em todas as épocas, passadas, presentes e vindouras, e como bem diz a Palavra nada é impossível para Deus (Lucas 1:37), não creio que seja mais difícil para Deus formar o universo, ter criado as dimensões que existem inclusive o tempo, as leis da física que regulam a natureza e os corpos celestes, ter desenhado o ser humano e os animais e tudo mais que há de vivo.
    Aliás, na narrativa bíblica, o relato da criação “ex nihilo” do Gênesis é provavelmente o menor dos “absurdos” e dos “impossíveis” que Deus se encarregou de realizar porque quis, porque achou por bem fazer, porque desejou, porque viu que era bom (Gênesis 1:31), porque tinha a capacidade, o poder, o intelecto para fazer.

Enfim, não é que seja um assunto tão relevante ao ponto de que, se crido de outra forma, e existem várias formas possíveis e intelectualmente aceitáveis de compreender, teologicamente falando, a narrativa da criação, seria uma heresia ou blasfêmia, embora não seja também irrelevante, até porque se está na Bíblia tem o seu valor, inclusive porque aqui está descrita também a queda do homem com a introdução do pecado no mundo, e minha fé não seria particularmente diminuída ou afetada se Deus viesse a revelar, um dia, quando O encontrar nas moradas celestiais, que toda essa história era apenas uma metáfora para me ensinar a caminhar com Ele e me relacionar com Ele fugindo do pecado, penso que se Jesus cria no Gênesis, e tudo indica que creu, e Ele era Deus, afora os demais argumentos que coloquei acima, são razões suficientes para acreditar que realmente as coisas aconteceram dessa forma, e não é nada absurdo se olharmos as possíveis explicações, inclusive as supostamente científicas (embora a Bíblia não seja um texto científico).

Predestinação

Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos de Deus, peregrinos dispersos no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na província da Ásia e na Bitínia, escolhidos de acordo com a pré-conhecimento de Deus Pai, pela obra santificadora do Espírito, para a obediência a Jesus Cristo e a aspersão do seu sangue: Graça e paz lhes sejam multiplicadas. – 1 Pedro 1:1-2

A questão da eleição, ou predestinação, é um dos assuntos mais controversos nas Escrituras, embora constem diversas passagens sobre o tema, é algo que os teólogos nunca chegaram a um consenso. Acreditam uns que Deus escolheu as pessoas e em decorrência disso elas se aproximam dEle, ou que Ele previu aquelas que futuramente iriam estar sensíveis à sua voz e então as elegeu como herdeiras da sua herança.

Embora não seja simples reduzirmos o problema a algo tão simplista assim, até porque de ambas as perspectivas decorrem diversas implicações de caráter sério, como por exemplo a previsibilidade acerca dos desastres naturais, das pessoas que caminham para o inferno, algo é certo, Deus conhece quem é seu filho, afinal, qual o Pai não reconhece sua criança, pois possui seu próprio DNA, marcas características físicas e psicológicas que identificam um com o outro.

De uma coisa podemos ter certeza, ao invés de adotarmos uma postura fatalista de assumirmos a nossa pretensa eleição, e “descansarmos” sem nada fazer em favor dos outros que estão se perdendo, ou a suposta condição de perdidos, “não eleitos”, e chutarmos o pau da barraca, nos afastando ainda mais de Deus, somos desafiados dia a dia a tomarmos nós a decisão de seguir a Deus, “escolhermos” ser eleitos de Deus pois embora a predestinação seja uma doutrina bíblica, ela não afasta a nossa responsabilidade pessoal por nossos atos e escolhas, outra verdade bíblica.

Não é a toa, portanto, que em diversas passagens somos ordenados – isso mesmo, a buscar a santificação (Hebreus 12:4), a desenvolver a nossa salvação (Filipenses 2:12), etc. Aquilo que fazemos, como recém lemos no texto de Tiago, demonstra a fé invisível que age em nosso interior, porque fé sem obras é morta, fé que é apenas teoria é superstição. Como disse Jesus, somos conhecidos pelos frutos que produzimos, frutos correspondentes a comportamentos de pessoas que se arrependeram e se converteram ao Senhor, ou ao contrário, de pessoas que caminham a passos largos para longe de Deus, para o inferno.

1 Tessalonicenses 5:8

Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo a couraça da fé e do amor e o capacete da esperança da salvação. – 1 Tessalonicenses 5:8

Acho bacana esse texto de 1 aos Tessalonicenses porque apesar de pequeno, traz profundas lições a nós que nos chamamos de cristãos:

  1. Paulo no contexto compara o mundo enquanto sistema social perverso que foge de Deus e de seus valores, e de modo ativo Lhe desobedece, às trevas, e aqueles que se deixaram impactar pelo amor de Deus, seu perdão, graça e bondade, os homens e mulheres que vivem o evangelho prático de arrependimento, confissão de pecados e obediência ao Pai, à luz. Semelhantemente chama aos primeiros de criaturas da noite, enquanto aos últimos de criaturas do dia, não que a noite em si mesma carregue consigo algum mal, mas pelo aspecto do escondido, da escuridão das trevas como parâmetro de comparação entre aqueles cuja bondade não poderia ser escondida ainda que quisessem, e aqueles cuja maldade reclama a escuridão sob pena de ser exposta, e a seu praticante, à vergonha, ao julgamento, à condenação.
  2. Da mesma forma Paulo toca, repetidas vezes (e eu iria dizer que de forma indireta, mas dificilmente eu poderia entender como algo incidental uma coisa que se repete uma e outra vez) sobre a necessidade de nos mantermos sóbrios, em contraposição à nos embebedarmos, embriagarmos, e aqui não se refere ao mero uso de bebida alcoólica, até porque ele mesmo bebia (e tanto que recomendou a Timóteo que usasse do vinho para combater um problema estomacal), mas se olharmos por esse aspecto, inicialmente, para exercitarmos de moderação em tudo quanto fazemos, mesmo em coisas que não tem valor em si mesmos ou até que são boas, mas quando tomadas em excesso produzem males as vezes irremediáveis, e aqui uso o verbo tomar pela semelhança com o ato de beber, mas coloco verdadeiramente com respeito a qualquer coisa que façamos, deixemos de fazer, pensemos ou falemos. A sobriedade então se reveste mais de uma postura de responsabilidade com relação a nós mesmos, a Deus e aos outros, para não sermos surpreendidos por situações que estariam muito bem em nosso controle e, por descuido, despreparo, irresponsabilidade mesmo, nos achamos reféns de resultados que podem muito nos prejudicar.
  3. Por fim não posso deixar de me lembrar da semelhança desse texto com o de Efésios 6 onde o mesmo Paulo descreve a armadura que todo cristão tem necessariamente de vestir se desejar ser vitorioso contra as armadilhas do diabo. Isso mesmo. A nossa luta não é contra carne ou contra sangue, como diz o verso 12 de Efésios, no sentido de contra pessoas individualmente (ainda que tenhamos muitos “inimigos”, ou desafetos, pessoas que intentam o mal contra nós, psicopatas de um mundo vil, criminosos e tantas pessoas que nos fariam talvez questionar a realidade desse versículo), mas contra um reino espiritual que é real e faz (ou tenta, no melhor de seu esforço) contraposição ao reino de Deus do qual somos ao mesmo tempo súditos e embaixadores, um reino que aprisiona pessoas em ciladas demoníacas de sujeição a desvalores morais, onde pessoas são rebaixadas à condição de coisas, onde relacionamentos não valem mais nada, ou melhor valem apenas o quanto se pode pagar, o quanto um pode representar como vantagem para o outro, de fato, para cada valor ou princípio divino que, creia, é o melhor para a humanidade criada pelo Pai, quer impor, nos indivíduos e no inconsciente coletivo, no sistema político, social, cultural e econômico, o exato oposto, um outro “valor” que deturpe, que destrua, que mate e rouba como o próprio Cristo fez questão de avisar (João 10:10). É uma luta, diária, para a qual não podemos em hipótese nenhuma ir desarmados, desprotegidos, e sem a devida cautela e preparo, tanto físico, quanto psicológico/emocional, quanto, principalmente, espiritual. É interessante, contudo, que não nos valemos da lógica desse mundo para combatê-lo, nem confiamos em armas e estratégias militares (Salmos 20:7) para derrotar tão sagaz, feroz e potente inimigo, mas as nossas vestimentas e a nossa estratégia nos são dadas pelo Espírito Santo que guerreia conosco, ao nosso redor e em nosso coração, e consistem não de qualquer espada de metal, carabina ou canhão, ou ainda capacete ou uniforme camuflado, por exemplo, mas da fé, amor, e esperança da salvação, pelos quais e para os quais lutamos, uma vez que são meio e fins em si mesmos.

Que algo pior não nos ocorra

Mais tarde Jesus o encontrou no templo e lhe disse: “Olhe, você está curado. Não volte a pecar, para que algo pior não lhe aconteça”. – João 5:14

João 5 narra a história de um homem paralítico que jazia na beira de uma piscina chamada Betesda, onde uma vez ao ano um anjo descia e agitava as águas, onde quem primeiro entrasse seria curado de qualquer doença.

Aquele homem, no entanto, por ser paralítico, nunca conseguira entrar a tempo, sempre outra pessoa pulava à sua frente e conseguia a benção.

Jesus no entanto chega para fazer uma revolução na vida daquele homem. Mostra que não é a água benta que vai curá-lo, não é a atuação de um anjo, mas a fé do homem em Deus, no Cristo mesmo que cura, que é o médico dos médicos, que poderá operar o milagre que tanto espera.

Esse episódio nos traz algumas preciosas lições:

  1. era crença daquele povo e período histórico que toda doença era castigo de Deus por algum pecado. Jesus em outra ocasião refuta essa idéia (João 9:2) dizendo que as doenças não eram castigo de Deus, nem vontade do Pai, embora muitas vezes até servissem para algum propósito, como glorificar a Deus através de algum aprendizado, de modo que a doença nos permitisse ser mais humanos, sensíveis às necessidades uns dos outros;
  2. mas o salário do pecado é a morte (Romanos 6:23), então muitas doenças são castigo de Deus. Espere, como assim? Você acabou de dizer que as doenças não são castigo de Deus e agora vem dizer que são? O que quero dizer é que as doenças não possuem uma conotação espiritual enquanto castigo de Deus (embora até haja exceções, veja bem, exceções, em que o castigo de Deus se dá por meio de uma doença, como o caso da lepra em Geazi, servo do profeta Eliseu, que quis enganar Naamã, conforme 2 Reis 5), mas no sentido físico, biológico, elas agem como castigo de Deus na medida em que são consequências naturais de ações irresponsáveis nossas. Então não é Deus criando do nada uma doença para afligir o ser humano, mas o próprio ser humano se colocando em uma situação que irá experimentar as consequências da doença que ele próprio foi atrás, como as pessoas que experimentam as dificuldades de um sistema imunológico deprimido em consequência de terem contraído o HIV por via de drogas, sexo promíscuo e fora dos propósitos de Deus, e outros comportamentos que não glorificam o Pai nem valorizam o ser humano de modo geral;
  3. o pecado pode sim nos trazer consequências sérias. O perdão de Deus nos proporciona a cura para a alma e muitas vezes também retira as aflições do corpo, então o desafio de Cristo hoje é para que não voltemos ao lamaçal de onde Ele nos tirou. Uma vez limpos, sarados de nossas enfermidades, somos chamados a viver em santidade, a termos um padrão de vida, de valores, de comportamentos, que façam permanecer a cura em nossas vidas e em nossos relacionamentos. Jesus não faz uma ameaça, Ele como amigo que é, que deseja o nosso bem, nos avisa que o pecado traz consequências sérias, que destrói as nossas vidas, os nossos sonhos, os nossos relacionamentos inclusive com o Pai, que mata nossa saúde e vitalidade, em suma, que devemos nos manter o mais longe possível do pecado e de suas consequências.

A minha oração hoje é para que consigamos ver em Jesus e não na “piscina em Betesda” a fonte da nossa cura, cura física, emocional e espiritual. Que possamos confiar nEle de maneira integral e irrestrita. Que fujamos para longe do pecado, não apenas por medo de que algo pior possa nos acontecer, como nos alerta o Mestre e Senhor, mas em decorrência de um senso de responsabilidade e consideração com o Pai que nos cura, e não deseja que qualquer de seus filhos sofra de maneira desnecessária as consequências de seus próprios pecados.

Deus nos abençoe.