Texto interessante e uma reflexão

Estou lendo o Novo Testamento todo, mais uma vez, e minha meta é terminar até o fim do ano. Estou no livro de 2º Coríntios, e hoje li o capítulo 6, e neste capítulo o Apóstolo Paulo nos exorta a não manter relações íntimas com infiéis.

Sem discorrer muito sobre o texto, a princípio, vou colocar aqui o trecho que mais me chamou a atenção:

14 Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?

15 E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel?

16 E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.

17 Por isso saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; E não toqueis nada imundo, E eu vos receberei;

18 E eu serei para vós Pai, E vós sereis para mim filhos e filhas, Diz o Senhor Todo-Poderoso.

Vejam aqui o conselho de Paulo à igreja de Corinto, e a nós, povo de Deus, em geral:

1) Não se associar com um infiel. Infiel aqui tem duas conotações, que no entanto convergem para o mesmo sentido. A primeira conotação para infiel é o não cristão, aquele que não compartilha a mesma fé que nós possuímos. A segunda conotação refere-se àquele que, se dizendo cristão, age como não cristão, e isso Paulo já se refere na 1ª carta aos Coríntios, capítulo 5.

2) Quanto a questão da sociedade, muito se fala a esse respeito com relação ao casamento misto entre cristãos e não cristãos. Isso é verdade, também, mas não apenas isso, Paulo refere-se também a outras sociedades, como uma sociedade comercial, ou mesmo uma amizade profunda. Vejamos, um amigo cristão dá conselhos vindos do Espírito do Senhor, fala aquilo que seu coração está cheio, que deve ser da Palavra de Deus, do amor de Deus, e por aí vai. Um amigo não cristão, igualmente, fala daquilo que seu coração está cheio, e não vou ser hipócrita ou ingênuo, ou mesmo ignorar a graça de Deus que opera em todas suas criaturas e dizer que só há maldade no coração de um não cristão. Não, não é por aí. No entanto, sabemos que a ética deste mundo, os valores, são completamente diferentes dos valores e da ética de Deus, então não podemos esperar que os conselhos, as conversas, as brincadeiras etc que um nível de amizade profunda proporciona sejam iguais entre cristãos, ou entre não cristãos. Em um casamento misto, a educação no geral, e específicamente na questão religiosa, é prejudicada pois os valores são diferentes, a crença é diferente. Em uma sociedade mista, um dos sócios oferta e devolve o dízimo, enquanto o outro não vê problema algum em sonegar impostos.

3) Qual a ordenança de Paulo, e por conseqüência, de Deus? Afastarmos-nos, não mantermos relação de sociedade com o infiel. Esse ponto é complicado. O próprio Jesus ao orar ao Pai pedindo para nos proteger desse mundo, afirma que não pede para que Deus nos retire do mundo fisicamente, mas para nos livrar do mal (João 17:15), idéia seguida por Paulo em 1º Coríntios 5:10 e 11. No entanto, neste mesmo trecho é importante salientar que Paulo recomenda que evitemos a sociedade com o infiel "de dentro", mais do que com o de fora, pois o pecado pode, e de fato isso acontece, contaminar todo o corpo, toda a igreja. É importante fazermos essa distinção, embora em termos práticos não haja, porque se fôssemos evitar todo contato com não cristãos não só teríamos que nos mudar para outro planeta, como ainda estaríamos indo contra o próprio mandamento de Jesus de pregarmos o evangelho a toda criatura, pois comos pregaríamos sem contato algum, especialmente se a principal forma de evangelismo é o testemunho, mais importante muitas vezes que a pregação falada em si mesma, numa relação de convívio, como no trabalho, escola, faculdade, ou mesmo em uma amizade?

Caminhando para o final desse post, e abstraindo esse conceito de evitar o jugo desigual, gostaria de explicar o que significa literalmente um jugo desigual, e depois uma última aplicação prática que me vem à mente.

Jugo é uma peça colocada no lombo de um animal, em uma junta de bois ou cavalos, para que eles carreguem uma carroça ou algo do gênero. A disposição desse tipo de equipamento é em pares, onde vai um animal em cada lado carregando parte do peso. O jugo desigual, no sentido original, dá-se quando ao invés de dois animais há apenas um, e isso trás sérias conseqüências pois aquele animal que deveria dividir a carga com o seu companheiro passa a carregar o fardo sozinho, rendendo bem menos do que deveria. Além disso, se o jugo é desigual na primeira fileira, a carreira de animais tende a ser direcionada para o lado onde está o animal, passando a carroça a pender para um lado. Isso torna o veículo mais difícil de ser conduzido, e mais perigoso pois pode vir até a tombar.

Essa explicação, quando levada para o lado dos relacionamentos, que é o que Paulo fez, pode nos fazer pensar em vários tipos de jugo desigual, como por exemplo casamento entre pessoas de níveis culturais, econômicos ou religiosos bastante diferentes. Como conciliar o ensino que alguém de uma religião de origem africana dará a seu filho, com o que o conjuge de uma religião cristã também quererá dar? Alguém que é criado em um ambiente de pobreza, como uma favela, geralmente não terá o mesmo tipo de reação a situações diversas que alguém que freqüentou as melhores escolas. Até o gosto musical, ou o estilo de se vestir, é geralmente diferente. Ou ainda, casais onde um conjuge possui um nível de educação muito alto, como mestrado e doutorado, e o outro não possui sequer o nível médio completo? As conversas serão muito prejudicadas porque os assuntos e até o próprio linguajar é diferente.

Na verdade, não pretendo afirmar que nunca qualquer relacionamento ou sociedade entre cristãos e não cristãos dará certo. Sabemos que Deus, por sua infinita graça e misericórdia, muitas vezes nos protege de situações adversas quando enfrentamos um jugo desigual. Além disso, por vezes Deus usa essa situação que é longe da ideal, transformando um mal em bem, ou seja, quem sabe até trazendo o infiel para a fé. O que Paulo nos exorta é para nosso próprio bem, evitando dores de cabeça futuras que é a regra nesses casos, e não a exceção.

Deus nos abençoe.

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