Pastores de ovelhas e de almas

E, depois de terem jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes? E ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta os meus cordeiros. – João 21:15

Estava ontem pensando com meus botões sobre o ministério e chamado pastoral e me veio à mente esse texto. Jesus falou a Pedro, e por consequência também a nós, utilizando a metáfora agropastoril do pastor e das ovelhas e cordeiros, convocando e ao mesmo tempo ordenando que Pedro cuidasse da vida daqueles a quem Cristo haveria de lhe confiar.

Eu pensei inicialmente sobre as semelhanças entre o pastor de ovelhas e o pastor de almas, e as diferenças também, sendo que uma das semelhanças é o fato de que o pastor de vidas, por mais óbvio que pareça, antes de tudo e qualquer coisa, deve se dedicar ao cuidado de seus liderados, dos servos de Cristo que estão sob sua responsabilidade, percebendo se algo de errado acontece em suas vidas que possa ajudar, orientando no proceder diário e em sua caminhada no relacionamento com Jesus, ou seja, deve o pastor de uma igreja, de uma comunidade, de um grupo pequeno caminhar junto com seus pastoreados, é indispensável a comunhão e a amizade entre eles, e até alguma intimidade, por menor que seja, já que não há como haver confiança mútua sem essa aproximação.

Uma das diferenças que percebo é que o pastor de ovelhas passa mais tempo dedicado aos aspectos práticos de sua vida cotidiana e com o objeto fim de seu trabalho que são suas ovelhas, e infelizmente os pastores de hoje em dia gastam mais tempo, esforço e dinheiro em projetos pessoais, em metodologias de trabalho eclesiástico, em campanhas que visam o crescimento numérico e financeiro, em detrimento da qualidade do rebanho. É como se o pastor de ovelhas tivesse se tornado um mero comerciante, e um mau comerciante pois para ele só interessam números, e nem ainda a qualidade do seu rebanho.

E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores… – Efésios 4:11

Na verdade, um dos problemas que vejo hoje em dia, e não entrando no mérito das brigas denominacionais, da má fé, do orgulho e ganância que tem motivado muitos homens e mulheres a buscarem o “ministério” pastoral mais pelo dinheiro, ou só por ele, pela glória pessoal ou outra vã razão em detrimento das vidas que deveriam cuidar, é que muitos servos do Senhor que têm chamado ministerial ligado profundamente à obra do Senhor, talvez até na forma de dedicação em tempo integral, têm sido chamados não para pastorear vidas, mas sim para pregar o evangelho, como missionários ou evangelistas, por exemplo (e não vou questionar aqui se esses dons ministeriais também não compreenderiam o cuidado com o ser humano), para ensinar como professores de escola dominical ou mesmo em seminários teológicos, para administrar igrejas ou outra função que talvez, antigamente, todo pastor tivesse um pouco, dentre a gama de suas “atribuições”, mas que hoje somente aqueles que pastoreiam as pequenas comunidades podem fazê-lo todo, e olhe lá. De outro modo, aqueles chamados à liderar grandes igrejas, com muitos membros, dificilmente poderiam desenvolver com qualidade todas as atividades que esse “cargo” tem sob responsabilidade. Então talvez devêssemos repensar melhor os modelos de organização eclesiástica, talvez devêssemos investir mais na profissionalização e no suporte financeiro às demais atividades ministeriais, deixando aos pastores a responsabilidade máxima, talvez única, que lhes é dignamente devida, e tão necessária, que é a de cuidar de vidas.

Sendo assim, tenho uma triste constatação, talvez um exergar pessimista da situação das igrejas evangélicas no país hoje em dia, em que o cuidado das ovelhas, e volto aqui para o primeiro versículo, foi e tem sido relegado cada vez mais a segundo, terceiro e quarto planos na vida de homens que inicialmente possivelmente até foram chamados para cuidar de vidas, mas acabaram se perdendo no meio do caminho, desviando-se do seu propósito e chamado maior.

Minha oração, hoje, é que Deus chame de volta seus servos a quem delegou tão nobre atribuição, falar do seu amor, cuidando de vidas, pois precisamos menos de teólogos, menos teoria e mais ação, mais prática, mais cuidado das ovelhas que estão manquitolando em apriscos sujos, comendo comida estragada, vigiadas pelos lobos e raposas de quem os pastores as deveriam livrar. Quem lê, entenda.

Deus nos abençoe.

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