Não seria Deus onisciente?

"Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse outro evangelho além do que já vos pregamos, seja ANÁTEMA. Como antes temos dito, assim agora novamente o digo: Se alguém vos pregar outro evangelho além do que já recebestes, seja ANÁTEMA." Gálatas 1:8 e 9.

Recebi essa semana um e-mail do meu ex-sogro Itamar com um texto anexado cujo conteúdo falava sobre coisas que estão acontecendo na igreja Betesda, igreja que frequentei durante cerca de dois anos. O texto, de autoria supostamente do pastor Elienai Cabral Jr., fala, dentre outros assuntos, sobre uma doutrina que estaria sendo pregada na Betesda, em particular pelo referido pastor, de que Deus não seria, digamos, tão onisciente assim. Explico: segundo pude depreender do texto, e conforme notícias que correm no mundo evangélico, o sudeste do país resolveu importar uma doutrina que está fazendo muito sucesso nos EUA, de que, inversamente ao Calvinismo original, que crê na doutrina da predestinação, que não vou entrar em detalhes aqui, Deus, não saberia os fatos que cercam o futuro, pois eles não teriam ainda acontecido.

Não vou entrar no mérito de especular se essa afirmação sobre a igreja Betesda como um todo pensa desta forma, na minha opinião, como explicarei a seguir, herética, nem se o texto de fato pertence ao suposto autor; também não vou me posicionar a favor ou contra a predestinação; irei me ater ao princípio doutrinário envolvido, a onisciência ou não de Deus.

Inicialmente, vamos ao dicionário:

Onisciente (Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss)

Datação
1858 cf. MS6
Acepções
■ adjetivo de dois gêneros
que tem saber absoluto, pleno; que tem conhecimento infinito sobre todas as coisas
Etimologia
oni- + lat. sciente, de sciens,entis ‘que sabe, que está informado, ciente’; ver cien(c/t)-; f.hist. 1858 omnisciènte
Sinônimos
enciclopedista, erudito, onissapiente

Dessa definição entendemos, por lógica, duas coisas:

1) Alguém só pode ser onisciente uma vez que saiba tudo sobre todas as coisas;

2) Se alguém não souber qualquer coisa, por menor que seja, sobre qualquer coisa, não será onisciente.

Partindo deste princípio, não podemos admitir que se diga que Deus é "parcialmente onisciente".

Vejamos um excerto do texto que me foi enviado:

"Não cremos em um Deus que escolhe alguns para a salvação e outros para o condenação. Cremos em um Deus que a todos ama e a todos quer salvar (Tt 2.11-14). Por isso afirmamos que não podemos crer em um futuro que já esteja pronto. E que afirmar que Deus conhece o futuro é o mesmo que afirmar que já está pronto. O que anula nossa liberdade e faz de Deus mentiroso, já que na verdade ele se relaciona conosco num tipo de ‘faz-de-conta’, em que ele já sabe o fim da história, mas finge que não. Deus conhece tudo. Mas o futuro não existe, por isso não pode ser conhecido, porque não há nada para conhecer. O que Deus sabe do futuro não são os fatos, pois eles não existem. O que Deus sabe do futuro é o que Ele soberanamente afirmou que pode ou que vai fazer." (grifo do autor)

Agora vamos por partes:

1) Ainda que o futuro não exista "ainda", o futuro pode ser, como de fato já foi, previsto. Que o digam as centenas de profecias a respeito de Jesus que se cumpriram integralmente até a última vírgula. Que o diga a destruição de Jerusalém, prevista por Jesus. Que o diga a libertação do povo de Deus pelo imperador persa Ciro, prevista no livro do profeta Isaías muitos anos antes de acontecer, incluindo detalhes como o nome do próprio imperador, e tantas outras profecias contidas na Palavra de Deus, inclusive as do apostolo João sobre o apocalipse, ou seja, fim dos tempos, diga-se "nossa" linha de tempo.

2) Afirmar que Deus conhece o futuro NÃO anula nossa liberdade, apenas indica que Deus, em sua majestosa onisciencia, já conhece as decisões que iremos tomar, e as consequencias de nossos atos no decorrer da história. Deus respeita nosso livre arbítrio, e mesmo sabendo que decisões tomaremos, ainda assim nos apresenta opções, como por exemplo seguí-lo ou escolher não fazê-lo. No entanto, ressalte-se que Deus, SIM, intervem na história, a começar pelo fato de enviar Seu Filho para morrer por nós na cruz do calvário, maior intervenção na história da humanidade que posso imaginar, pois sem isso, certamente a história seria outra.

3) Afirmar que o futuro não existe e por isso Deus não poderia conhecê-lo significa subordinar Deus à linha do tempo, enquanto que Deus criou o tempo. Vivemos em um mundo multidimensional; além das três dimensões de um plano cartesiano, temos a dimensão temporal, por exemplo. No entanto, a história teve um começo e terá um fim. Só que esta é a linha de tempo dos seres vivos, nós humanos dentre eles, e não a linha de tempo de Deus, que é eterno. Deus não foi, é e será, Deus "É", porque o tempo é uma variável que não se aplica a Ele. Senão vejamos:

3.a) "Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, EU SOU." João 8:58. Jesus estava no início de tudo, criando todas as coisas; quando Ele fala que antes que Abraão existisse, Ele é, Jesus afirma que não é submisso a dias, meses, anos ou estações, pois Ele criou todas estas coisas, Ele é Senhor de todas elas. Ele é o mesmo (com toda a força de significado dessa expressão) de eternidade a eternidade.

3.b) "como também nos elegeu nele ANTES DA FUNDAÇÃO do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;" Efésios 1:4. Paulo afirma que Deus nos elegeu antes da fundação do mundo para sermos santos. Ora, seria um paradoxo Deus nos eleger se não nos conhecesse, e não nos conheceria antes da fundação do mundo, se não tivesse visto tantos anos além, no "nosso futuro", não no seu uma vez que Deus É (verbo no presente), e não teria nos visto se não pudesse ver o futuro, se não pudesse saber como seria.

Bem, concluindo esse breve estudo, lembro-me do que Jesus falou aos escribas e fariseus: "Jesus, porém, lhes respondeu: Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus" Mateus 22:29, ou seja, as doutrinas erradas, as heresias, só aparecem quando não conhecemos Deus em profundidade, a sua pessoa, de maneira que deixamos de compreender a sua Palavra e o seu Poder. Quando não entendemos que Deus é supremo, infinito, majestoso, onipresente, onipotente e onisciente, estamos sujeitos a aceitar todo vento de doutrina que nos seja pregado. Deus é onipresente, pode estar em qualquer lugar, mesmo que este "lugar" seja no futuro, ou no passado, na nossa linha de tempo; Ele é onipotente, pode qualquer coisa, inclusive "torcer" a nossa linha de tempo que Ele criou; Ele sabe todas as coisas, inclusive o que se passa no nosso coração, o nosso futuro baseado em nossas decisões, e o que seria se decidissemos de maneira diversa.

Como falei, não vou entrar no mérito de discutir sobre a predestinação, mas devemos nos lembrar de uma coisa: Deus não se submete ao nosso livre arbítrio, mas sim o nosso livre arbítrio a Deus, porque Ele é o Senhor. Assim como um peixe tem liberdade para nadar num rio ou no mar, mas não tem liberdade fora desse ambiente, assim é nosso livre arbítrio, que transita dentro do propósito de Deus para nossa vida, e para a humanidade. Lembre-se, Jonas não quis ir a Nínive, e em clara desobediência ao Senhor foi de barco a outro local. Quem quiser descobrir como acabou essa história é só ler na bíblia.

Não pretendo com essa palavra esgotar o assunto, até porque existem diversos bons livros sobre a natureza de Deus, a doutrina de Deus, de autores clássicos, bem como inúmeras passagens na Palavra que suportem a boa doutrina; no entanto, espero que ela possa servir para nossa reflexão, para abrir os nossos olhos, pois assim como um oceano não pode caber em um copo d’água, nosso Deus não pode caber na nossa compreensão limitada do mundo, na nossa mente de criatura.

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27 anos

Hoje é meu aniversário. Faço 27 anos. Ou melhor, não faço, inclusive me pergunto, será que alguém faz anos, ou será que são os anos que nos fazem?

De certa forma me sinto mais velho, mais maduro, mais experiente. Já aparecem alguns cabelos brancos, e se for depender da minha ascendência, serão os primeiros de muitos. É interessante que li recentemente o livro "Memórias de minhas putas tristes", de Gabriel Garcia Marques, premio Nobel de literatura há alguns anos, que conta a história de um homem que, ao completar noventa anos (ou noventa e um, agora me fugiu a quantidade de anos dele), resolve celebrar sua velhice com uma noite de prazer com uma adolescente virgem, e nesse livro, muito bom por sinal, o homem tem uma conversa com uma ex-namorada, ambos já muito velhos, e falam entre si como ainda se percebem novos por dentro, crianças, mas que as pessoas é que os enxergavam como idosos. Não é porque hoje fico 9 anos mais velho que minha namorada, pelo menos até agosto quando ela também "faz" anos, talvez, que me sinto como esse homem. Espero que não tenha escandalizado ninguém, porque também não mencionei o livro por causa da noite de prazer com uma adolescente, dentre tantas outras coisas eróticas que o texto contém. Foi pelo fato de se sentir criança por dentro, e as pessoas que nos veem como adultos.

Hoje completo 27 anos, idade em que meu pai já era casado, e já era pai de mim e de meus dois irmãos; na verdade eu já tinha quase quatro anos quando ele completou seus 27, e me olho no espelho e vejo uma pessoa diferente de quem eu sinto, de quem eu vivo.

Agradeço a Deus por esses 27 anos, pela vida que, tão breve como um sopro, Ele me dá, e somente peço que não Lhe falte "fôlego" na hora de soprar os anos que me restam, porque ainda gostaria de viver bastante.