Quando o natural nos impede de experimentar o sobrenatural

E o barco estava já no meio do mar, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário;
Mas, à quarta vigília da noite, dirigiu-se Jesus para eles, andando por cima do mar.
E os discípulos, vendo-o andando sobre o mar, assustaram-se, dizendo: É um fantasma. E gritaram com medo.
Jesus, porém, lhes falou logo, dizendo: Tende bom ânimo, sou eu, não temais.
E respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas.
E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salva-me!
E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?
E, quando subiram para o barco, acalmou o vento.
Mateus 14:24-32

Eu considero esse um dos relatos mais interessantes da vida de Jesus. É um milagre, mas não sei se a intenção do autor ao narrá-lo tenha sido de descrevê-lo como tal. Nesse trecho vemos uma curiosidade, que a crença em “fantasmas” não é nova, nem sequer medieval, mas já bem antiga, visto que há quase dois mil anos os discípulos de Jesus mencionaram esse tipo de superstição, o que nos faz crer que era algo comum em sua época, região e cultura.

Mas voltando ao foco da mensagem, vemos que os discípulos parecem ter uma experiência, uma relação com o sobrenatural, pois pensaram tratar-se inicialmente de um fantasma. Desconsiderando o fato da mera superstição, muitos hoje em dia negam a existência do sobrenatural, ou desconsideram a importância dessa área da nossa vida, simplesmente pelo fato de não podermos tocar, sentir, ou seja, os nossos cinco sentidos não serem inicialmente afetados, ou o serem de uma maneira que não conseguimos explicar racionalmente, ou sob o viés da ciência a que temos acesso.

A primeira lição que vemos nesse texto, portanto, é justamente da existência do sobrenatural, no sentido mais próprio da palavra, ou seja, aquilo que vai além do normal, do ordinário, do comum, aquilo que não conseguimos explicar pela nossa ciência ou razão. Não é ruim crermos que existe algo para além da nossa compreensão, aliás, o próprio Deus é algo tão infinito que nunca poderíamos compreendê-lo por completo, e para os mais céticos, a própria ciência caminha e avança a cada dia sobre o terreno do desconhecido. Ao contrário, quando cessamos de crer na existência do sobrenatural, deixamos de perceber muito da beleza da própria vida, e inclusive de reconhecer os milagres de Deus no dia a dia das nossas vidas, suas intervenções no sentido de nos abençoar ou nos livrar de algo que nos iria prejudicar.

Em seguida vemos que Jesus fala aos discípulos e estes reconhecem a sua voz. Pensei aqui numa segunda lição, que seria que quanto mais conhecemos os fenômenos que acontecem ao nosso redor, melhor compreendemos aquilo que acontece conosco, passamos a melhor distinguir o natural do sobrenatural. A ciência, embora muitos a usem para o mal e se apoiem nela para negar a existência do sobrenatural, é muito importante e não apenas pelo bem que pode e tem proporcionado ao homem, mas também porque através do conhecimento científico podemos declarar que algo que não poderia acontecer e aconteceu é um milagre de Deus. A ciência desvenda o desconhecido, aproxima o sobrenatural do natural, passamos a conhecer mais, entender mais, e assim não negamos a existência do Criador, mas admiramos cada vez mais a sua pessoa e a sua criação!

Uma terceira lição se refere ao caminhar de Pedro em direção a Jesus. Pedro não simplesmente sai correndo em direção ao “fantasma”. Primeiro ele reconhece a voz de seu mestre, e com isso sua relação de confiança com aquele homem com quem tem convivido nos ultimos anos o faz ir em direção a Ele. Isso nos diz muito a respeito de como nós mesmos devemos nos portar. Muitos se atiram de qualquer jeito em direção ao desconhecido sem qualquer precaução, muitos baseiam sua vida em experiências sobrenaturais sem discernir quem as está promovendo (afinal, nem tudo vem necessariamente do Espírito Santo, e o inimigo e seus demônios também têm algum poder, embora limitado, na dimensão espiritual e sobrenatural de modo que poderiam tentar nos confundir). Devemos, portanto, agindo com prudência, 1) conhecer bem o nosso mestre Jesus, 2) ouvir a sua voz, e 3) só então adentrar no sobrenatural. Isso não quer dizer de maneira nenhuma que devemos abdicar do sobrenatural. Só quer dizer que, para o nosso próprio bem, devemos saber quem estamos ouvindo, quem estamos seguindo. Vemos aqui que Jesus diz a todos os discípulos para terem coragem (ou bom ânimo, a depender da tradução). Jesus não está alheio às nossas necessidades. Antes, Ele vai além, pois como homem que foi, Ele conhece aquilo que se passa no íntimo do nosso coração, Ele sabe muito bem como iremos reagir a cada adversidade que enfrentamos e por isso nos estimula, nos insta a termos coragem, coragem necessária para fazermos muitas vezes algo que pode parecer irracional, como sair do barco, o ambiental mais seguro a se estar, durante uma tempestade.

Ainda sobre o caminhar de Pedro vemos a quarta lição, que é o principal que entendi hoje sobre esse texto, que muitas vezes o natural nos impede de experimentar o sobrenatural de Deus. Vejamos, Pedro já havia começado a andar sobre as águas em direção a Jesus, ele já estava pondo em prática a sua fé, coisa que nenhum dos outros discípulos conseguiu, e como disse Ed René Kivitz, nenhum outro seguidor de Jesus na história provavelmente conseguiu fazer até hoje, no entanto deixou que o vento o distraísse, lhe desse a sensação de medo. Vejam bem, medo. Jesus antes de sequer convidar Pedro a caminhar sobre o mar o manda ter coragem, ou seja, Deus nunca irá exigir da nossa fé algo sobrenatural se não formos capazes de atingir sequer o natural. Primeiro Ele nos capacita, nos encoraja para enfrentarmos as situações corriqueiras e só então nos convida para aquilo que está além das nossas capacidades naturais e humanas. Na verdade, Pedro ter sentido medo, para mim é não só uma resposta natural e instintiva, até certo ponto biológica, como também denota uma falta de confiança em seu Mestre, e até de desobediência. Jesus ao mesmo tempo encoraja e ordena “ter coragem”, o que pode parecer meio absurdo, mas que é isso mesmo que temos que fazer muitas vezes, abdicar dos nossos próprios instintos, lógica, do medo que pode estar nos aprisionando e aprender a ter coragem para tomar decisões, coragem para confiar nAquele que nos convida a seguir, obedecer mesmo quando parece impossível, retirando fé e coragem de onde parecem não existir, e realmente não existem, mas Deus na hora supre, providencia. Ora, qual é mais diferente, forte, poderoso, impactante, o fato de um ser humano estar andando sobre as águas ou o vento de uma tempestade? Qual é mais comum, corriqueiro, natural? Por que nós, como Pedro, muitas vezes cedemos a tentação de ser vencidos pelo natural na nossa busca pelo sobrenatural? Quando deixamos a nossa vista cegar a nossa fé? Vendo aqui duas traduções desse texto, em uma delas temos a expressão “sentindo o vento forte” e em outra temos “quando reparou no vento” e aqui temos o nosso senso natural, nossos sentidos, o nosso intelecto, poderíamos dizer também, agindo contra nossa fé, ainda que essa fé não seja uma fé louca sem embasamento algum, ainda que seja uma fé baseada em experiências de vida e em um relacionamento pessoal e profundo de intimidade com nosso Senhor Jesus. O que Deus nos manda fazer, por exemplo, pode ir muitas vezes contra o senso comum, contra a lógica, e até contra as leis da física e da natureza, mas se temos uma fé baseada em um relacionamento como que Pedro tinha com Jesus, nós também podemos caminhar sobre as águas se Jesus nos chamar até Ele, então não podemos de modo algum “reparar” nas adversidades que porventura nos sobrevenham. De modo algum o “mero” vento será maior que o andar sobre as águas, e mais ainda sobre Quem nos convida a ir ter consigo, então não temos razão de deixar de viver o sobrenatural de Deus por medo de algo natural, algo maior sendo desperdiçado por medo de algo menor. Isso me faz pensar ainda em quantas vezes deixamos de ver as respostas de nossas orações até na forma de milagres mesmo porque temos confiado pouco em Deus, e nos preocupado demais com os problemas pelos quais oramos.

A última lição que vejo no texto percebo quando Pedro e Jesus entram no barco e o vento cessa. É curioso que o fato natural que fez com que o discípulo de Jesus duvidasse, começasse a afundar, cessou tão logo eles entraram no barco, em questão de poucos minutos. Quantas vezes somos apresentados a fatos e situações problemáticas mas naturais da vida e que nos impedem de começar ou continuar a experimentar o milagre de Deus? Aqui enxergo isso tudo quase como um teste, um teste que Pedro falhou na metade mas que os demais discípulos nem começaram a prova, tirando zero no início. Deus muitas vezes promete algo para nós, quer caminhar conosco por sobre as águas, quer nos levar a experimentar o seu milagre, o sobrenatural, algo impossível de compreendermos usando apenas a lógica e o aspecto racional, e a prova da nossa fé é algo irrisório, algo do qual não conseguimos abrir mão, nos desapegar o suficiente desse mundo e saltar nos braços do Senhor. Aliás, por falar em saltar, lembrei de duas ilustrações, a primeira de uma criança que quer descer de uma árvore e cujo pai se posiciona embaixo dela e pede para saltar em seus braços, mas a criança fica num impasse por medo da altura em direção ao chão; e a outra de uma escada invisível a qual somos convidados a apenas confiar e dar o primeiro passo rumo ao desconhecido e o restante dos degraus vão “aparecendo” sob nossos pés trêmulos e vacilantes. A vida segue e experimentando ou não o sobrenatural, cedo ou tarde perceberemos que aquilo que nos limitava era bobagem, talvez nem tanto por si só, mas especialmente quando comparado com aquilo que deixamos de usufruir, de experimentar de Deus.

Pense consigo mesmo quantas coisas você começou a vivenciar em sua vida que por razões banais simplesmente pararam pela metade porque você vacilou em sua fé, deixou de confiar ainda que por um instante e então viu-se a naufragar, viu-se engolido pelas ondas do mar da vida? Somos dia a dia desafiados a confiar em Deus. Confiança só se estabelece em um relacionamento pessoal, de intimidade, profundo, onde um conhece o outro, sabe seus limites e fraquezas. Quando nos relacionamos com Jesus, experimentamos a transformação de vida que o caminhar com Ele nos proporciona, podemos saber que seu poder não tem limites assim como também não têm seu amor e seu perdão, suas misericórdias por nós. Somente mantendo o foco nessa relação, mantendo a fé baseada nas promessas de Deus contidas em sua Palavra, e naquilo que Ele já fez na vida das pessoas ao nosso redor e na nossa própria, é que podemos viver tanto o natural quanto o sobrenatural. Não adianta querermos viver o sobrenatural de Deus sem primeiro vivermos um relacionamento natural. Por outro lado, não podemos deixar de experimentar o milagre de Deus por medos, sentimentos (ou sensações), superstições… Uma fé pequena nos fará sair do barco, mas somente uma fé construída com base nesse relacionamento pessoal com Jesus nos fará caminhar seguro, seja qual for o terreno, mesmo que seja por sobre o mar de incertezas, dúvidas, medos e frustrações. Tudo é uma questão de foco. Ou mantemos nosso foco em Jesus e caminhamos seguros, ou desviamos o foco dEle e focamos nos problemas, nos ventos e tempestades, e então afundamos. Deus nos convida a ir em sua direção, mas sem duvidar, confiando apesar de termos certamente razões para ter medo, mas sabendo que Deus é maior que qualquer coisa que possa nos amedrontar.

Deus nos abençoe.

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O bom samaritano

Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: "Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?"
"O que está escrito na Lei?", respondeu Jesus. "Como você a lê?"
Ele respondeu: " ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento’ e ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’".
Disse Jesus: "Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá".
Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: "E quem é o meu próximo?"
Em resposta, disse Jesus: "Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto.
Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado.
E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado.
Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele.
Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.
No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse-lhe: ‘Cuide dele. Quando voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver’.
"Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? "
"Aquele que teve misericórdia dele", respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: "Vá e faça o mesmo". – Lucas 10:25-37

Esses dias Deus tem me falado profundamente e por diversas vezes usando esse texto que há muito não lia. E não foi por tê-lo lido que Deus veio a me falar. Na verdade eu estava de boa no chuveiro tomando um banho quando comecei a meditar em algumas coisas a respeito dessa estória contada por Jesus e que gostaria de compartilhar com vocês. A minha oração é que Deus fale com vocês como tem falado comigo. Deus nos abençoe.

O texto começa com o contexto no qual Jesus propôs essa parábola. Ele estava, como de costume, ensinando e alguém se levantou no meio da multidão para fazer-lhe uma pergunta. Mas vemos logo de início que não é qualquer pessoa, era um doutor na Lei, especialista em julgar conforme a Lei, em interpretá-la, alguém que dificilmente teria dificuldade com o tema e mais dificilmente ainda com a pergunta que formulou ao Senhor. É clara a intenção do seu coração, tanto para o Mestre, como para os demais ouvintes, aquele homem queria testar Jesus, tentar fazê-lo cair em alguma contradição, tanto que o escritor Lucas deixou bem clara essa menção em sua narrativa.

Mas não é sobre o contexto que Deus me falou, aliás, nem mesmo sobre a pergunta que o doutor da Lei formulou a Jesus a respeito da vida eterna. Passemos à estória em si, que fala de um homem que descia de Jerusalém a Jericó quando foi assaltado e deixado como morto.

A primeira lição que Deus me ensinou é que como aquele homem, muitos de nós estamos levando nossa vida numa boa, em um dia comum, quando de repente algo pode nos acontecer e nos deixar como mortos à beira da estrada. A morte e a dor aqui podem ser tanto físicas quanto emocionais ou espirituais. Aquele homem certamente não podia imaginar ao sair de sua casa aquela manhã que no meio do caminho haveria de encontrar-se com a morte, ou quase, com bandidos. A estrada de Jerusalém para Jericó era conhecida por ser perigosa, e isso guarda muita semelhança com o contexto de violência que vivemos hoje. Quem em sã consciência poderia afirmar sem sombra de dúvidas que vai chegar em determinado lugar, que vai e volta? Não sabemos se seremos vítimas de um acidente de trânsito ou de uma violência qualquer, se nossa saúde não irá nos passar a perna, ou seja, vivemos num mundo de incertezas com a potencialidade de nos causar toda sorte de neuroses e doenças emocionais, quanto mais físicas. Quando nos identificamos com aquele homem caído à beira da estrada podemos entender que a vida é passageira e fugaz, nada nos garante de nada, e certamente não podemos depender do dinheiro, bens, saúde, amigos, pois na hora da adversidade é sozinhos que primeiro nos encontraremos, e Deus ajude que não permaneçamos assim, pois ninguém poderá sentir a nossa dor, por mais próximos que sejam de nós.

A segunda lição que percebo no texto vem das figuras do sacerdote e do levita. O sacerdote era a figura principal do contexto religioso daquela época. Não à toa Jesus toma como exemplo alguém ligado à religião, pois o homem que lhe formulou a pergunta era alguém também da elite religiosa, e vejo Jesus usar uma forma de ironia, sarcasmo ao mencionar o sacerdote e o levita como exemplos aqui. O levita, diferentemente do que muitos pensam hoje a respeito de ser o ministro de música, era o responsável por todas as demais tarefas e atribuições do templo que não coubessem diretamente ao sacerdote. Isso é interessante porque vemos que Jesus fecha o círculo em redor do sistema religioso e isso não é por acaso. O levita era responsável pelo louvor no templo, mas também por atividades banais como varrer o chão, abrir a porta, manter a ordem etc. Mas voltemos ao sacerdote, porque a ele cabia uma importante tarefa que não podemos esquecer sob pena de não entendermos em profundidade as entrelinhas dessa estória. O sacerdote na época de Jesus era o responsável pela saúde pública, por assim dizer, pois era ele quem atestava a saúde de uma pessoa, ou a doença, e o que a pessoa deveria fazer para tratar-se conforme a Lei. A depender do tipo de doença era o sacerdote que determinava se uma pessoa deveria ser afastada do convívio social e por quantos dias, ou por tempo indeterminado, e se, caso curado, poderia retornar à sua vida comum. Era uma espécie de médico-sanitarista. Vemos essa atribuição diversas vezes nos evangelhos, como por exemplo no texto que fala dos 10 leprosos (Lucas 17). Mas qual a relevância desse dado para o texto e para a lição que estamos aprendendo? A Lei mosaica afirmava que qualquer pessoa que tocasse em um morto estaria imundo por sete dias (Números 19:11, entre outros textos) e aqui vem a chave da lição: aquele homem que deveria reconhecer quando alguém estava doente ou saudável, vivo ou morto, deveria ter reconhecido que aquele homem estava vivo e não morto. Por que estou dizendo isso? O sacerdote pela Lei mosaica, pela sua religião, não poderia tocar o moribundo caso ele estivesse morto. Mas aquele homem estava vivo, você pode me dizer… Mas pelo sim, pelo não, o sacerdote preferiu não arriscar e abrir mão de sua vida e carreira religiosas e sociais por uma semana, prazo que ficaria excluído do convívio social caso tocasse em um morto e fosse considerado impuro, e preferiu passar de largo, ao longe, não teve coragem sequer de chegar perto para conferir se de fato aquele cidadão havia morrido ou se ainda poderia ser socorrido. O ponto então é, quantos de nós temos preferido ficar no comodismo da religião por medo do preconceito social, por meio de sermos excluídos da nossa comunidade religiosa por ter tido contato com o profano, com aquilo que a religião condena, ou melhor, com as pessoas tidas como inalcançáveis, mortas para a religião, com os condenados, os vis, os incorrigíveis? Pior ainda, quem de nós temos sido como os sacerdotes, dizendo quem pode e quem não pode frequentar o nosso meio? Acudir o necessitado necessita de um primeiro passo que é aproximar-se para conhecer a real situação daquele que jaz. Não podemos pregar o evangelho relevante a menos que “toquemos no morto”, ainda que isso signifique nos tornar “impuros” sob a ótica da religião. O sacerdote e o levita seguiram seus rumos em direção a mais um dia de atividade religiosa e fico pensando, quantos de nós temos feito exatamente a mesma coisa, cegos ou insensíveis à realidade que nos envolve? Quantos “mortos” temos visto e já não sentimos mais a dor no coração, já não nos imaginamos na mesma exata situação que aquela pessoa? Será que não conseguimos mais reconhecer que o outro ainda está vivo, não morreu ainda, ainda há esperança, ou fingimos que não vemos, preferimos acreditar que não tem jeito? A religião pode ser boa ou pode ser má, e nesse caso ela era diretamente responsável por aquele homem permanecer exatamente como estava, semi-morto, e isso deve nos levar a uma profunda reflexão: que tipo de religiosidade temos vivido? Uma religiosidade que nos afasta das pessoas, nos afasta do ser humano, em razão de um suposto pietismo? Tiago 1:27 nos diz o seguinte: “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.” e isso me leva a pensar que não temos como viver uma experiência religiosa verdadeira, por mais sincera que possa ser nossa fé e nossa busca, se não pusermos em prática o amor vertical que Deus nos dá, espalhando-o na esfera horizontal dos nossos relacionamentos, ou seja, através de atos de justiça e amor para com as outras pessoas, notadamente aquelas que mais estão precisando, as vezes de algo tão simples como um abraço, um toque, um olhar, como mendigos e drogados caídos ao chão, as vezes de ações sacrificiais que demandarão que abramos mão de algo que é nosso, algo que é importante para nós.

Por falar em abrir mão, pensei aqui na terceira lição, que vemos na figura do samaritano. Somente para contextualizar, o samaritano era descendente dos remanescentes do povo de Israel que, quando do exílio na Babilônia, permaneceram na região e acabaram se miscigenando com os povos que vieram ocupar a região, adquirindo também costumes religiosos sincréticos entre o judaísmo e as religiões desses povos. Por não serem de origem “pura”, os samaritanos eram profundamente odiados e segregados pelos judeus. Eram a escória da sociedade, inimigos de Estado, e particularmente nesse contexto que Jesus estava mencionando seria como, trazendo para a nossa realidade evangélica brasileira, se um ateu, espírita ou praticante de uma religião afro, homossexual, aidético e com passagem pela polícia tivesse praticado aquela boa ação. Seria um absurdo. Algo tão estarrecedor para o religioso “cristão”, enclausurado em suas estruturas religiosas que não consegue ver para além de suas igrejas que prosperam “de vitória em vitória”, que seria mesmo uma blasfêmia! Mas voltemos ao texto e à lição. Jesus menciona que o samaritano (ele mesmo, o gay, ateu, preto e pobre – aqui mencionados somente para efeito de constatação da realidade preconceituosa do meio religioso, não em demérito para qualquer pessoa nessa condição ou que assim seja) vê aquele homem caído e não fica parado. A situação daquele homem, semelhante seu, prostrado quase morto toca profundamente em seu coração. Ele não está alheio aos perigos que o cercam, ele mesmo poderia ser a próxima vítima daqueles bandidos que atacaram anteriormente, e que, inclusive, poderiam estar à espreita justamente de alguém que porventura socorresse aquele homem caído para voltar a atacar. Mas Jesus fala que o samaritano aproximou-se, não ficou parado, não ficou distante, decidiu tomar parte na situação e na realidade do outro (aliás, profundamente semelhante nesse sentido ao próprio Jesus que não ficou em seu trono de Glória junto ao Pai celestial, mas veio habitar em nosso meio, sofrendo, vivendo e experimentando nossas dores e mazelas como um de nós). O samaritano tratou daquele homem, gastou tempo e dinheiro seu com ele. Pense consigo mesmo, será que você teria essa mesma disposição de espírito de gastar tempo e dinheiro com um estranho? Aliás, com relação a isso, já ouvi dizerem que quando gastamos nosso tempo e dinheiro com alguém isso significa que essa pessoa realmente significa algo para nós, que essa pessoa é importante. Então a estória nos conta de um samaritano que decidiu tornar alguém sem importância alguma em alguém de suma importância para ele. Posteriormente o samaritano colocou o homem em cima de sua montaria, espere, é isso mesmo, ele cedeu seu lugar para aquele homem desconhecido. O samaritano foi além do “mínimo necessário”, ele fez uma escolha de algo sacrificial. Ele deixou o “conforto” de sua montaria e andou a pé, enquanto o homem foi em cima de seu animal. A estória continua com o samaritano levando o homem até uma pousada, não havia hospitais na época, pelo menos não como conhecemos, e ele mesmo tratou daquele homem ferido, perdendo o tempo de sua viagem, quem sabe até negócios importantes ou deixando de ver sua família que pela demora já deveria estar preocupada, sabendo que a estrada pela qual ele passaria era perigosa. Além disso, o samaritano deu de seu próprio bolso para a hospedagem daquele homem até que ele ficasse bom novamente de saúde e em condições de sair dali, e não apenas o suficiente para dois dias, mas comprometeu-se a voltar ali para ver se havia alguma pendência. Pense bem, o samaritano comprometeu-se a voltar. quantos de nós iniciamos uma obra mas nunca mais retornamos para ver o resultado daquilo que começamos? Quem sabe se a energia e os recursos que empregamos inicialmente foram suficientes se não voltarmos para conferir? A obra do Senhor requer não apenas a nossa inicitativa, mas também dedicação e compromisso constantes. A volta do samaritano indica que sua preocupação com aquele homem não foi apenas circunstancial ou superficial, mas foi duradoura e profunda e isso é algo que devemos meditar com relação a nossos projetos sociais e missionários. Será que estamos fazendo algo apenas por fazer, por obrigação, ou ainda, será que nossa preocupação com nosso semelhante é superficial ou é profunda, é sincera e autêntica, ou é “forçada”, por alguma razão que preferimos nem admitir ou pensar, é duradoura ou dura apenas o impulso inicial e logo se acaba como fogo de palha? Quantos de nós poderíamos sinceramente abrir mão do nosso salário, do nosso tempo, da nossa própria vida por amor a alguém, por um parente, por um amigo, por um conhecido, por um desconhecido, por um inimigo?

A última lição que Deus falou ao meu coração diz respeito à pergunta de Jesus em contraposição à pergunta do mestre da Lei. O religioso procura desculpas para não fazer, tenta limitar a atuação do seu amor porque, afinal, não é um amor sincero e sim um ato de mera religião e a religião diz que devemos fazer por merecer aquilo que recebemos, especialmente o amor, então só faremos por quem possa nos pagar de volta. Jesus, por outro lado, nos ensina que devemos ser e ter próximos. É curioso o uso dessa palavra. Jesus poderia ter usado qualquer palavra mas não creio que a escolha dessa em particular tenha sido por acaso. Jesus não usa simplesmente “o outro”, ele usa “o próximo” porque, por mais que a pessoa seja um completo desconhecido, ela nunca poderá ser uma completa estranha. Nunca poderemos olhar o nosso semelhante com olhar de superioridade, de que “nunca faríamos isso”, de que a culpa é dele e ele mesmo fez por merecer a sua situação. Nunca poderemos viver o evangelho sem a esfera horizontal do nosso relacionamento. O amor que Deus nos deu e com que nos amou transborda e necessariamente deve fluir em direção ao nosso semelhante. Amor não é um sentimento, é uma escolha, escolha de aproximar-se, de tocar o morto, de se importar, de gastar do próprio tempo e dinheiro, de trazer o que estava distante para perto, de usar de misericórdia com quem está precisando, na hora que está precisando.

A parábola do bom samaritano nos diz muitas outras coisas, de que existe bondade lá fora, de que Deus se fez semelhante a nós para nos tornar próximos dEle, de que Ele se importa e cuida de nós, nos ama, nos trata, e quer que sejamos e ajamos da mesma maneira. É impossível olhar para a cruz de Cristo e não ver esse amor. Jesus também foi um excluído social e por isso ele sabia exatamente a situação daquelas pessoas. A tônica dessa estória é de que a religião pode estar sendo justamente aquilo que nos separa de Deus, e não o contrário, e não apenas isso, tem servido para justificar, infelizmente, as nossas ações que tem nos afastado das pessoas e estas do próprio Deus.

Podemos tirar diversas conclusões dessa estória, e espero que Deus toque em seu coração para alcançar aquilo que você também precisa trabalhar em sua vida, mas uma que tocou em meu coração foi com relação à indiferença com relação ao meu semelhante. Eu admito que sou o primeiro a passar de largo, muitas vezes, quando vejo um mendigo, um bêbado caído na sarjeta, e peço perdão a Deus por ser tão insensível às suas necessidades. Peço a Deus ainda que me ajude a vencer e sair das garras da religião enquanto algo meramente formal, sair das estruturas religiosas e das quatro paredes de uma construção a que denominam igreja. Igreja segundo a Bíblia são pessoas e não construções e é de pessoas que precisamos. O evangelho de Cristo vem resgatar a nossa dignidade e é através das nossas mãos que nós, que um dia fomos resgatados, podemos resgatar outros para o nosso Senhor. O bom samaritano não guardou o remédio para si, ele aplicou naquele homem que estava bem na sua frente e precisando do mesmo. A pergunta que não quer calar em meu coração é “se tenho o remédio para a enfermidade de muitos, como não dispensá-lo, como posso guardar comigo algo que me salvou da morte enquanto tantos outros estão aí fora precisando desse remédio”? Esse remédio é Jesus, mas só através das nossas bocas, das nossas mãos, das nossas vidas, os mortos, aqueles que jazem em seu pecado, assim como também em leitos de hospital, sarjetas ou prisões, muitas vezes, poderão viver novamente, poderão ter esperança. Se somente nos dispusermos a sair de cima da nossa montaria e chegarmos perto, tocarmos em suas feridas, cuidarmos deles, gastar do nosso tempo e dinheiro, voltarmos para acompanhar a “evolução do tratamento”, aí então eles viverão. Se somente…

Deus nos abençoe.

Moda?

"O enfeite delas não seja o exterior, no frisado dos cabelos, no uso de jóias de ouro, na compostura dos vestidos" – 1 Pedro 3:3

"Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos" – 1 Timóteo 2:9

Com o devido respeito às minhas amigas que escolheram como profissão trabalhar na área da moda, a verdadeira beleza da mulher deve ser construída de dentro para fora.
Isso não é para justificar aquelas que se deixam "embarangar", de modo algum (muito embora para muitas mulheres a beleza, mesmo estética e externa, se resuma a roupas, maquiagem e acessórios).
Para essas, a solidão será castigo suficiente.
Por outro lado, a beleza que é apenas baseada em adereços externos, maquiagem e roupas extravagantes é uma beleza que hoje é e amanhã já deixou de ser, como, afinal, é a moda, em constante "evolução".
Devemos nos perguntar se realmente vale a pena gastarmos tanto tempo, preocupação e dinheiro com tantas futilidades, nos esquecendo das coisas que valem mais a pena, que duram mais…
Investimos muito em nos tornarmos aquilo que a mídia e a moda capitalistas nos enfiam goela abaixo, muito mais do que buscando ser as pessoas que Deus quer que sejamos, pessoas melhores por nós mesmos pelos outros.
Para as mulheres, fica a dica, embora você deva se sentir bonita por você e para você, pergunte ao seu namorado/noivo/esposo se e o quanto do que você tem feito tem impactado no seu relacionamento, e o que poderia ser feito diferente?
Às vezes, eu diria talvez a maioria, em lugar do novo vestido ridículo da moda atual, seu companheiro preferia que você fosse mais atenciosa, carinhosa, amiga e bem menos futil…