A Lei da separação

Digam o seguinte aos israelitas: Quando um homem tiver um fluxo que sai do corpo, o fluxo é impuro.
Ele ficará impuro por causa do seu fluxo, quer continue, quer fique retido.
Quem tocar no homem que tiver um fluxo lavará as suas roupas e se banhará com água, e ficará impuro até à tarde.
Qualquer pessoa em quem o homem com fluxo tocar sem lavar as mãos, lavará as suas roupas e se banhará com água, e ficará impura até à tarde. – Levítico 15:2,3,7,11

Quando li esse texto da Palavra de Deus, imediatamente pensei em um dos propósitos da Lei, que muitas vezes nos parece incompreensível ou mesmo beirando o absurdo, pelo nosso olhar do século XXI onde possuímos tecnologia e conhecimento, cultura muito diferentes daquele povo de Israel de alguns milênios antes de Cristo para quem foi dirigida a Lei em primeiro lugar, e esse propósito era de separação do povo de um contexto geográfico e cultural extremamente nocivo que era o dos povos ao seu redor em Canaã, povos que adoravam outros deuses e cujas práticas eram não apenas más enquanto formas de exercitar sua fé ou religião, mas que iam de encontro à própria dignidade humana, já que muitas sacrificavam crianças ou mesmo outras pessoas em busca de aplacar a sede de alguma divindade, e que em sua essência causavam prejuízo à própria saúde das pessoas, já que, lembremos, esses povos não possuíam noções muito desenvolvidas de higiene, limpeza, nem acesso a bactericidas ou remédios para combater enfermidades as mais diversas que os assolavam, que poderiam levar até à morte por coisas que hoje consideramos besteiras, mas que sem o tratamento adequado seriam fatais.

Mas voltando à separação, eu fico triste como a religião distorce muitas vezes algo que é bom, algo que é proveitoso, algo que tem um bom propósito, e a torna em algo vil, algo desumano até. Vejamos que a separação que Deus propõe neste texto e em toda a Lei é PARA o Senhor e não DO Senhor, ou seja, é para preservação da vida, para higiene, para saúde, para um bom relacionamento com Deus e com os nossos semelhantes, mas a religião durante anos e anos cria tradições e interpretações restritivas da Lei de modo que a palavra passa a ter maior valor que a essência, que o princípio por trás daquilo que foi ordenado.

Nesse sentido, lembro da vida e ministério de Jesus, que entre outras coisas, desconstruiu diversas fortalezas erguidas pela religião que afastaram o homem do seu Criador. Uma norma que era para saúde virou razão para banimento e ostracismo social, hierarquia, poder e dominação, onde somente alguns poucos teriam o benefício e o privilégio de um relacionamento com Deus, como foi o caso dessa sobre o fluxo de sangue e outras tantas (a sobre a lepra também me vem à mente).

Quando li esse texto pensei naquela mulher cuja história é descrita em Lucas 8:43-48 que diz:

E estava ali certa mulher que havia doze anos vinha sofrendo de uma hemorragia e gastara tudo o que tinha com os médicos; mas ninguém pudera curá-la.
Ela chegou por trás dele, tocou na borda de seu manto, e imediatamente cessou sua hemorragia.
“Quem tocou em mim?”, perguntou Jesus. Como todos negassem, Pedro disse: “Mestre, a multidão se aglomera e te comprime”.
Mas Jesus disse: “Alguém tocou em mim; eu sei que de mim saiu poder”.
Então a mulher, vendo que não conseguiria passar despercebida, veio tremendo e prostrou-se aos seus pés. Na presença de todo o povo contou por que tinha tocado nele e como fora instantaneamente curada.
Então ele lhe disse: “Filha, a sua fé a curou! Vá em paz”. – Lucas 8:43-48

Essa história é narrada por três vezes nos evangelhos, mas gosto da versão de Lucas porque ele traz detalhes que fazem toda a diferença. Primeiro, a mulher, conhecedora da Lei, sabia que não poderia tocar em ninguém. Isso é suficiente para entendermos que a sua vontade de ser curada era tamanha que ela preferiu “transgredir a Lei” para ter restabelecida sua saúde. Ora, um dos propósitos da Lei, como vimos, foi justamente dar saúde e vida, então algo que poderia ser considerado um pecado, um crime até, na verdade pela ótica de Cristo foi valorizado, foi tornado novamente em algo bom, foi retornado ao seu ideal original. Vejam que não havia como ela passar incólume, sem tocar em ninguém, naquela multidão, então ela arriscou até ser reconhecida pela sua doença, correndo o risco de uma punição severa, a fim de tocar em Jesus, a fim de tentar a última esperança de sua vida. Segundo que Jesus novamente revertendo a ordem das coisas, poderia ter ficado calado, a mulher ter seguido sua vida normalmente, agora com a saúde restaurada, mas não, Ele sendo Deus resolve se expor em público, também correndo o risco de ser considerado imundo, já que a Lei afirmava que quem fosse tocado por uma pessoa imunda também ficaria imundo, mas Jesus não liga para a “forma da Lei”, ou melhor, para as tradições humanas que promovem separação, desagregação, Ele mais do que a saúde da mulher Ele desejava restaurar sua dignidade, seu amor próprio, para Deus era mais importante o relacionamento que seria restaurado do que a “mera saúde”, embora esta também fosse muito importante, isso a despeito de Ele mesmo poder ser “diminuído” ou “questionado”. Deus não é um Deus que se prende a formatos ou um Deus a quem possamos enquadrar nesse ou naquele modo de agir ou falar. Deus é um Deus de reconciliação e não de afastamento. Deus toca os intocáveis que são rejeitados pela sociedade, por tudo e por todos, e com eles faz morada, tem comunhão.

Como falei, a vontade de Deus que é boa, agradável e perfeita é para que nos separemos PARA Ele e não Dele, ou seja, nos escondendo de sua face, com vergonha e medo. Deus é um deus de vida, de dignidade, um deus que é bom e não se alegra com a morte, com a doença ou com a separação. Isso vemos, para concluir, em um dos últimos versos desse capítulo 15 de Levítico que diz:

Assim separareis os filhos de Israel das suas imundícias, para que não morram nas suas imundícias, contaminando o meu tabernáculo, que está no meio deles. – Levítico 15:31

Deus sabia, em sua onisciência, que muitas práticas são ruins por afetarem nossa saúde e bem estar, que acabam por prejudicar nosso relacionamento consigo e em comunidade. A minha oração hoje é para que lembremos disso e de tudo que vimos acima, não esquecendo dos princípios por trás da Lei, que a religião não acabe nos afastando de Deus ao invés de nos aproximar Dele, pois os princípios, em sua etimologia, significam o que é principal, fundamental, o que vem antes de tudo em grau de importância e ordem.

Deus nos abençoe.

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Escravidão

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Mais de 120 anos se passaram e ainda vivemos uma escravidão.

E não falo aqui de rincões perdidos na floresta amazônica ou de fazendas no interior do Nordeste ou carvoarias país afora, onde a palavra escravidão sai da condição de exagero vocabular para a dura expressão da realidade.

Falo de Fortaleza, zona urbana, século XXI.

Meu pai comprou umas pedras cariri para uma reforma que está fazendo na casa dele e me pediu para ir até lá receber o material já que ele está no interior.

Quando os funcionários da empresa onde ele comprou o material chegaram e começaram a descarregar as pedras, me deu uma revolta e uma dor no coração de ver a penúria como estavam vestidos, suas condições de trabalho, pegando as pedras com as mãos nuas, sem qualquer equipamento de proteção individual como luvas, botas, algo do gênero.

Comecei a puxar papo com eles para saber se a empresa não tinha fornecido os materiais básicos para a segurança do trabalho, ao que me responderam que não, mesmo eles tendo pedido (segundo eles várias vezes), e olhe que consultei na Internet no intervalo entre um e outro descarregamento para ver quanto custaria o conjunto bota e luva, que era de aproximadamente R$ 28,00.

R$ 28,00 pela segurança laboral de cada funcionário que a empresa tem a obrigação de fornecer e que não fazia, aliás, tanto não fazia que 2 dos 3 funcionários tiveram que se virar por conta própria com relação às botas, um deles estava de chinelo de dedo, e nenhum calçava luvas, era na mão seca mesmo.

Depois o funcionário adoece, tem um acidente e se fere e precisa ser afastado e a empresa tem que arcar com o prejuízo de contratar alguém para repor o lugar vago e não sabe o porque.

Se bem que pilantra como é, se acontece algo assim não duvido nada que seja tchau e bênção, mais um desempregado na fila do INSS em busca do auxílio desemprego.

Pior que nem o medo da fiscalização do Ministério Público do Trabalho ou de um processo trabalhista por parte de algum funcionário a “bendita” empresa tinha, afinal, pobres ignorantes como eram os funcionários, eles sequer sabiam seus direitos, como proceder, e certamente não brigariam por aquilo, talvez até com vergonha ou medo de procurar um advogado que os orientasse ou pleiteasse em seu favor.

Mas aquela situação não me deixou quieto, perguntei o nome do funcionário que parecia o mais velho, seu Antônio.

Seu Antônio, juntamente com outros 2 dos 3 funcionários, veio de Paraipaba atrás de um emprego em Fortaleza porque trabalhar na agricultura numa época de seca como essa, em que pese as chuvas que começaram a cair, não dá pra viver.

Eu perguntei a seu Antônio se não era melhor trabalhar na construção civil, em um dos muitos canteiros de obra na região do porto do Pecém.

Ele me disse que lá tinha realmente muitas vagas e oportunidades, mas que para cada vaga eram mil interessados, talvez exagero seu, talvez não considerando a seca e a falta de condições que assola o nosso sertão.

Mas voltei às minhas perguntas sobre a empresa, perguntei se eles tinham ao menos assinado a carteira, ao que me responderam afirmativamente (exceto seu Antônio que confessou ter recusado assinar por não querer perder a aposentadoria rural, já que faltavam só 4 anos para ele se aposentar como agricultor – ele tinha 56 anos).

E quanto ao horário de trabalho, alimentação?

O motorista me disse que só estavam liberados para almoçar após todas as entregas da manhã, mesmo sendo aquela hora 13:30 e ainda faltar uma entrega por fazer.

Além disso, ele me falou que o horário deles ia das 7 da manhã até muitas vezes tarde da noite, e de sorriso amarelo me confidenciou que seu patrão pagava todas as horas extras… a R$ 2,00 a hora.

Mas como se não bastasse isso tudo, o que me causou mais revolta foi o que seu Antônio, novamente ele, contou, que ele e os outros dois de Paraipaba, como não tinham onde morar, vieram do interior, dormiam no trabalho mesmo, em alojamentos repletos de ratos, junto aos materiais de construção que eles iriam entregar, e não bastasse isso, até a água do local, que eles retiravam de um poço artesiano, o proprietário da empresa ameaçou cortar.

E, a gota d’água, foi quando, sem perguntar, um deles me disse “e é porque o dono lá é evangélico”.

Isso mesmo, o cara se diz religioso e trata tão mal, de maneira ilegal e até desumana, seus funcionários, fazendo com que trabalhem longas horas sem equipamentos obrigatórios de proteção, com alimentação precária e em horário irregular, e dormindo em alojamentos insalubres infestados de ratos, ou seja, condição análoga à escravidão como infelizmente ainda vemos e ouvimos muito pela TV, e que eu honestamente nunca poderia imaginar que veria um dia tão perto em plena capital cearense.

Essa cena me deu uma vergonha da minha condição humana, um nojo mais uma vez desse rótulo “evangélico” que não diz nada e que infelizmente dito muito, muito ao contrário do que deveria significar, boas novas, já que tem sido sinônimo de pilantragem, falcatrua e desprezo pela vida alheia.

É difícil viver nesse país onde ainda existam tantos seu Antônios, e tantas empresas pilantras como essa que explorem tanto o funcionário, a pessoa, ao ponto de desumanizá-lo, tratá-lo apenas como mais uma mercadoria, ou talvez até menos, já que muitos cuidam bem de seus produtos e mal de seus funcionários.

Em tempo, essas são as mãos de seu Antônio, não apenas calejadas, rachadas mesmo de ter que pegar em pedra, suor, lágrimas e pó que dizem muito a respeito do que temos sido como sociedade infelizmente.

Cristianismo, o verdadeiro comunismo

João respondia: "Quem tem duas túnicas reparta-as com quem não tem nenhuma; e quem tem comida faça o mesmo". – Lucas 3:11

O evangelho de Cristo, pregado por si, por seus discípulos, por João Batista, e pelos profetas do Antigo Testamento (sim, pois possui a mesma essência dos princípios dados por Deus por meio da Lei mosaica), é a única realidade verdadeiramente comunista que conheço, pois é a única que manda todos trabalharem e todos usufruírem do fruto do trabalho, sem que haja pessoas explorando economicamente outras, nem pessoas passando necessidades.

O comunismo de Marx, conforme experiência russa, cubana, chinesa e todas as demais só serviu para enriquecer uns em detrimento de outros, ou seja, a diferença com relação ao capitalismo, resumindo muito, é que neste último todos são livres (embora certamente nem todos possuam as mesmas oportunidades) para, por meio de sua iniciativa e criatividade, alcançarem o sucesso e desenvolvimento pessoal, liberdade que é tolhida nos regimes comunistas, cujas oportunidades são disponibilizadas apenas à cúpula governante, aos burocratas, aos membros de alto escalão do partido comunista.

Curiosa experiência, em um país capitalista, de um certo comunismo, talvez por sua histórica relação com sua religião, o judaísmo, também em essência "comunista" como o cristianismo, é a dos assentamentos israelenses, onde todos trabalham, todos estudam, todos participam de modo igual das oportunidades.

Não adianta, olhando o exemplo israelense do qual muito temos a aprender, fazer reforma agrária sem dotar o trabalhador de condições econômicas para plantar, adquirir equipamentos, defensivos, e até conhecimento para gerir o seu negócio.

Seria melhor o governo permanecer dono da terra e prover todos os meios necessários para que aquela terra fosse produtiva, pagando salários aos trabalhadores das terras, e participação nos lucros obtidos após a venda da produção.

Essa me parece uma ideia bem melhor do que garantir aposentadoria rural a quem nunca contribuiu, por exemplo, tornando deficitária a previdência oficial, e penalizando aqueles que contribuem de fato para o sistema; também do que bolsa família no campo, incentivando ao invés do contrário, que mulheres tenham mais e mais filhos sem a menor condição de criá-los, gerando uma massa de indigentes e vagabundos (com o perdão da força da expressão) dependentes do auxílio governamental.

Tem horas que discutir esquerda ou direita não serve ao propósito de Deus de que todos tenham dignidade, a mesma perdida no Eden e que nos é novamente disponibilizada por meio de Cristo Jesus.

Nessas horas, é mais uma questão de quem ganha um argumento, ao invés de quem vai e faz, seja o partido que tome, infelizmente.

Contentamento e Honestidade

Então alguns soldados lhe perguntaram: “E nós, o que devemos fazer?” Ele respondeu: “Não pratiquem extorsão nem acusem ninguém falsamente; contentem-se com o seu salário”. – Lucas 3:14

Esse texto da Bíblia nos traz um ensinamento muito importante de não sermos gananciosos. A história aqui é a de João Batista que, preparando o caminho para o Mestre, angariou junto de si discípulos de todos os tipos, entre os quais alguns soldados romanos.

Os soldados romanos, que corresponderiam hoje às forças armadas e às forças de segurança pública (polícias em geral), eram compostos tanto de homens nascidos já sob a cidadania romana, tanto quanto de homens que desejavam obter essa cidadania por meio do serviço militar, uma das formas de adquiri-la na época, sendo as patentes mais baixas ocupadas pelos povos de cada região, cabendo apenas aos romanos natos as patentes mais altas. Assim, nesse texto podemos imaginar, com boa chance de razão, que se tratavam de soldados judeus a serviço de Roma.

Historicamente, tanto os soldados quanto os cobradores de impostos (chamados de publicanos, os fiscais e auditores das Receitas estadual e federal da época, por assim dizer) eram extremamente mal vistos pelos demais judeus, que os consideravam traidores da nação, e eram assim marginalizados, destratados, principalmente pelos líderes religiosos, mas também pela população em geral. Colaborava para isso o fato de que ambas as categorias profissionais utilizavam de seu cargo e função para chantagear ou extorquir a população, cobrando das pessoas muito além do que deveriam pagar de imposto ou taxa ao império romano.

Nesse sentido podemos entender melhor a passagem acima que não é uma ode ao comodismo, nem nos exorta a permanecermos inertes em nossas profissões, sem aspiração de crescimento profissional. Ao contrário, somos exortados em diversas outras passagens das Escrituras a dedicarmos tudo que temos ao Senhor, inclusive o nosso trabalho, o suor do nosso esforço, de modo a servir de testemunho àqueles que nos cercam.

De fato, quando dou o meu melhor no trabalho, tenho a possibilidade de propagar a ética que Cristo ensinou, viveu e deixou de exemplo para nós seus seguidores mostrarmos ao mundo. Quando me esforço posso abençoar mais vidas, posso alcançar até posições de liderança e destaque que permitirão que muitas outras pessoas recebam das bençãos com que Deus me abençoa. Um exemplo que me vem claramente à memória é a de Mardoqueu e sua sobrinha, a rainha Ester, cuja história encontramos no livro bíblico de mesmo nome (Ester), que utilizou de sua posição de destaque para salvar todo seu povo da morte.

Voltando, então, ao texto acima, o que João Batista nos ensina é o valor da honestidade, algo que há dois mil anos a sociedade de então já padecia da falta, imagine mesmo hoje em dia onde vemos escândalos e mais escândalos envolvendo desde as funções mais baixas às mais altas, políticos, e infelizmente até pessoas que se dizem líderes religiosos.

Não é pecado aspirar por posições de responsabilidade ou desejar crescer profissionalmente. O problema é como se deseja chegar lá. Se para crescermos como profissionais nós pisamos nos nossos colegas de trabalho ou subalternos, se oferecemos propinas ou nos calamos frente a situações de que deveríamos reclamar, se ignoramos a lei, ou mesmo que não seja algo ilegal, se agimos de modo contrário aquilo que Cristo nos deixou de exemplo, se damos um jeitinho nem sempre honesto, se abrimos mão de valores que sabemos serem os certos para atingirmos um propósito por meio de “gambiarras”, como podemos cobrar que nossos políticos sejam honestos, como podemos reclamar que esse país não vai pra frente?

Infelizmente várias categorias profissionais hoje em dia padecem do mesmo estigma dessas duas citadas, inclusive, infelizmente, as polícias e fiscais são vilões muitas vezes, onde não podemos mais distinguir qual é o profissional honesto do bandido disfarçado. Talvez nessas categorias ainda mais do que em outras precisamos urgentemente de homens e mulheres servos verdadeiros do Senhor que demonstrem com seu caráter irreprovável os valores de Deus para este mundo perdido.

Uma última coisa percebo no texto acima e que tem tudo a ver com o que falei até agora é a questão do agradecimento e generosidade. Um coração agradecido dificilmente (eu diria até impossível mesmo) fica descontente com seu salário ao ponto de abdicar de seus valores para alcançar um maior lucro ou ganho. Um coração generoso sabe que o mais importante é dar, ao invés de receber, e que se dou, até sacrificialmente se for o caso, tantas vidas são abençoadas que meu momentâneo descontentamento só pode ser santo, e nunca chegar ao ponto de praticar algo que vá de encontro aos valores de Deus.

A minha oração hoje, é que Deus nos dê corações agradecidos e generosos em primeiro lugar, de modo a estarmos satisfeitos, contentes com o emprego que temos, até porque muitos que não têm emprego desejariam estar em nosso lugar, com o salário que ganhamos, por menores ou piores que sejam, sabendo que se estamos onde estamos algum propósito Deus tem para nós, e para as pessoas que estão ao nosso redor que podemos ajudar; em segundo lugar nos dê em grande quantidade da virtude da honestidade, de modo que onde quer que cheguemos na nossa vida profissional, a posição que galguemos, tenha sido tudo de modo que tenha abençoado outras vidas, ao invés de maltratado, com o fim de que pelo nosso proceder, pelo nosso trabalhar, vidas tenham sido impactadas pelo evangelho de amor de Deus por nós; e em terceiro lugar que o Pai retire de nós todo espírito de covardia e acomodação, preguiça que nos impede de chegarmos mais longe, de atingirmos com plenitude os propósitos de Deus em nossas vidas, sem os quais muitas vidas deixarão de ser abençoadas, inclusive nós mesmos e aqueles que estão perto de nós.

Deus nos abençoe.

A parábola da bússola

A Bíblia fala sobre o processo de conversão como pré-requisito necessário para a salvação pessoal de cada indivíduo. Mas o que seria essa conversão?

Conversão não significa a mudança de uma religião para outra. Na verdade, gosto muito do termo grego utilizado, metanoia, que significa mudança de mente. Nesse sentido, o processo de mudança de mente que ocorre em alguém é como algo que surge em etapas, que tem seu início em um evento instantâneo mas que se aperfeiçoa com o decorrer do tempo.

Imagino, assim, a figura de algum aventureiro e viajante que depende de sua bússola para chegar em um alvo que traçou em sua mente. A bússola carece de um norte magnético para funcionar, e no caso da conversão, a vida anterior é como se um viajante resolvesse sair em seu caminho sem bússola, ou com uma bússola sem norte, ou ainda com o norte oscilando. Seria impossível chegar ao seu destino, qualquer que tivesse sido. Quando ocorre o processo de mudança de mente, o evento inicial seria portanto fixarmos um norte.

Uma vez definido o parâmetro mais básico, podemos avançar para o segundo, qual seja o alvo, o destino. Não adianta termos uma bússola devidamente ajustada, se não soubermos para onde ir. Na nossa vida antes da conversão, é como se estivéssemos andando sem rumo e, de repente, a bússola fixa o norte então paramos para ver onde estamos em relação ao referencial. Em seguida podemos ver através da Bíblia, da oração, do testemunho de outros irmãos, onde estamos em relação a Deus, nosso destino, e agora sabemos para onde devemos ir, e como chegar nele.

Mas na verdade, não adianta termos ajustado a bússola, termos parado de andar de modo errático, termos fixado nosso destino se não efetivamente começarmos a caminhar. De outro modo nunca chegaremos lá. Aqui cabe a parcela do processo, em que a conversão se aperfeiçoa na caminhada cristã do dia a dia.

Nessa metáfora, o destino final é Deus, nossa bússola é o Espírito Santo e o norte é Cristo. Sabemos, portanto qual o destino, temos o meio necessário para chegar lá e sabemos qual é o caminho. Basta, portanto, apenas caminharmos por Ele.

Deus nos ama

Disse-lhe Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Você crê nisso?” – João 11:25-26

Sinto enorme alegria em ler sobre a comovente história de Lázaro, pessoa que Cristo amava profundamente e que veio a falecer, não sem um propósito, que uma vez ressuscitado por Jesus pudesse servir de testemunho e para glória do Filho de Deus.

Mas o que mais me chama a atenção nessa história é que o amor que Jesus sentia por Lázaro e sua família, e o poder que Ele teve de trazer aquele homem de volta à vida não foi esquecido nem cessou quase dois mil anos atrás. Ao contrário, esse mesmo amor e poder estão disponíveis hoje a todo aquele que crê em seu nome.

A Bíblia afirma em diversos textos que nós mesmos estávamos mortos em nossa imensidão de pecados, pois o salário do pecado é a morte, mas quando Cristo chega em nossas vidas com seu amor, e nós aceitamos a sua obra salvadora e seu senhorio, então somos ressuscitados, voltamos à vida e não apenas à mediocridade da vida biológica que vivemos, ou sobrevivemos na maior parte, mas à vida eterna.

Jesus chorou. Disseram, pois, os judeus: Vede como o amava. – João 11:35-36

Novamente o texto nos mostra a faceta humana de Jesus, o quanto Ele se importava com Lázaro ao ponto de isso ser notório em meio aos judeus. Hoje também Cristo chora por nós, sua igreja, seus filhos, enquanto permanecemos mortos espiritualmente, enquanto Ele espera pacientemente que nos convertamos de nossos maus caminhos e nos entreguemos completamente a Ele, dispostos a ouvir sua voz a chamar o nosso nome, a clamar “venha para fora”!

Nunca permita, portanto, que pensamentos de baixa auto-estima ou falta de amor próprio lhe escravizem ou que queiram te dizer que Deus não te ama, que você é pecador demais e não tem jeito, ou que você não é merecedor de seu amor, por que em Cristo Jesus, pelo seu sangue derramado por nós na cruz, somos feitos dignos, somos aceitos na presença de Deus, somos de fato adotados como filhos pelo Pai.

Deus não é um deus distante, que não se importa com o mundo e muito menos comigo e com você. Se tem algo que podemos aprender com esse e muitos outros textos da Palavra é que Deus se importa sim, e muito, com seus filhos, a quem carinhosamente ele trata como ovelhas de seu aprisco pessoal, pintinhos que uma galinha quer aninhar sob suas asas. Deus nos ama tanto, de modo tão incondicional, que foi capaz de sacrificar seu único Filho legítimo, para resgatar todos nós, inicialmente bastardos, mas cuja dignidade foi restaurada, e que agora possuímos como herança, já em vida, o seu amor, o seu perdão, a sua paz, a sua companhia.

Deus nos abençoe.

Deus é o meu policial

O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará. – Salmos 23:1

Davi é um cara que admiro muito. Ele é um alguém como eu e você, que erra, infelizmente comete pecados, mas se arrepende, se humilha na presença do Senhor e alcança graça e misericórdia.

Esse salmo tão batido foi escrito por Davi, e acho fantástico o fato de Davi se utilizar de recursos de sua própria cultura e experiência de vida para criar e transmitir esse louvor, afinal ele próprio fora pastor de ovelhas um dia, então ele sabe muito bem do que está falando.

Mas esse pano de fundo foi apenas para lançar luz em algo que Deus revelou ao meu coração através de diversos salmos e da experiência de Davi e da minha própria experiência cotidiana, que Davi vivia Deus, experimentava Deus em seu dia a dia, não era algo abstrato, longínquo, meramente transcendental. Longe disso, Davi atribui a Deus algo tirado de sua própria profissão, em vários momentos da sua vida.

Inicialmente pastor de ovelhas, enquanto menino, Davi soube bem reconhecer em Deus as características de um pastor, e não de qualquer pastor, mas do melhor pastor que possivelmente haveria de existir. Davi compara Deus a um pastor, e nós seus filhos a ovelhas, e então usa essa ilustração bem contextualizada em sua realidade, para demonstrar a extensão do amor de Deus para conosco.

Quem é este Rei da Glória? O SENHOR forte e poderoso, o SENHOR poderoso na guerra. Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória. Quem é este Rei da Glória? O SENHOR dos Exércitos, ele é o Rei da Glória. – Salmos 24:8-10

Aqui vemos novamente Davi fazer essa extrapolação de uma característica sua pessoal, enquanto general de exércitos e rei, para a figura do Deus que adorava, verdadeiro antropomorfismo, e somos obrigados a reconhecer novamente que Davi não fala de algo que lhe é estranho, mas algo profundamente ligado à sua história de vida e que fazia total sentido.

Deus é rei, é soberano, e como tal pode fazer como bem lhe aprouver com relação a seus súditos, Ele mesmo estabelece as leis e princípios pelos quais vivemos, mas diferentemente de reis terrenos, falhos e gananciosos por poder, Deus prefere se relacionar conosco não por medo mas por amor.

Semelhantemente, Davi vê em Deus as características de um general, e ele sabia bem do que estava chamando Deus porque ele mesmo era um general dos exércitos de Israel, então em Deus Davi exalta a sabedoria, a liderança, o cuidado com seus subordinados, a estratégia contra o inimigo de nossas almas, a vitória final na guerra pela humanidade, vitória esta vencida por Cristo Jesus na cruz do Calvário.

Penso que Davi como general deve ter dobrado seus joelhos perante Deus como alguém que reconhece que outro é superior e deseja dar reverência, como uma pessoa em alta patente reconhece de imediato seu superior e lhe presta continência em sinal de respeito e honra.

Igualmente como rei, Davi pôde experimentar glórias indescritíveis que somente podemos imaginar ou perceber através de filmes ou histórias, mas que dificilmente poderíamos entender o sentimento de alguém que vive esse tipo de vida. Então Davi nos fala de um deus, o Deus de Israel, que é o Rei dos reis, ou seja, Ele está acima de todo homem, de toda majestade, de todo domínio, sua glória não pode ser comparada nem com a totalidade das glórias de todas as monarquias deste mundo.

Mas tudo isso, se não trouxermos para nossa realidade pessoal hoje, em pleno século XXI, serviria apenas como um bom modelo de alguém perdido no tempo, como um mestre antigo em quem poderíamos meditar.

Davi nos ensina algo mais profundo, afinal, quantos de nós poderíamos com sinceridade olhar para Deus e atribuir a Ele algo próprio nosso? Quantos de nós teríamos a coragem de dizer “Deus é o meu policial”, ou ainda, “Deus é o meu professor”, “Deus é o meu fisioterapeuta, psicólogo, bombeiro, dentista, engenheiro”?

Estamos acostumados com algumas figuras que os antigos usaram para descrever a Deus, a seu Filho Jesus e ao Espírito Santo, como Pai, Advogado, Consolador, Médico, mas quantos de nós entendemos verdadeiramente o que isso significa? Talvez um médico entenda o que quer dizer quando chamamos a Cristo de o médico dos médicos, ou ainda um advogado quando João diz que se pecarmos temos um advogado junto ao Pai (1 João 2:1), mas quantos de nós conseguimos vislumbrar em Deus algo de parecido conosco, quantos de nós usamos nossa profissão para a glória do Pai?

Especialmente nós jovens, e aqueles que estão entrando na faculdade agora ou apenas decidindo ou começando a sua vida profissional, será que você se imagina um dia fazendo como Davi, podendo olhar para Deus, o Deus que você conhece e se relaciona, e dizer a Ele o quanto Ele representa, agradecendo a Ele por sua profissão, porque é algo de que você pode se orgulhar, porque é algo que colabora para a construção de uma sociedade mais justa, ou você apenas repete palavras soltas que aprendeu na Bíblia de ouvir falar, ou mesmo de ter lido sem meditar a respeito, de algo que não tem a menor relevância para você, não se relaciona com sua vida hoje e talvez não faça mais o menor sentido uma vez que você não vive uma vida agropastoril ou em alguma situação vivida pelos personagens descritos nas Escrituras?

A minha oração hoje é de agradecimento a Deus porque posso dizer com orgulho “Deus é o meu policial”, e não apenas como uma interpretação aproximada do texto de Salmos 127:1, mas porque realmente me sinto seguro e protegido à sombra de seu poder, algo que nenhuma polícia do mundo poderia garantir, uma paz que excede todo entendimento (Filipenses 4:7); é também de pedido, que Deus se revele de modo pessoal e íntimo a cada um de nós, para que nós, seus filhos, Lhe conheçamos como é, não de ouvir falar, não de histórias do passado – por melhores que sejam, mas pela experiência pessoal, individual, única e ao mesmo tempo constante e duradoura que viermos a ter consigo.

Deus nos abençoe.