Histórias parecidas, encontros com Jesus, resultados diferentes

Jesus utilizava muito parábolas para ensinar a respeito dos valores do Reino de Deus. Parábolas são como fábulas, estórias com uma moral, um ensinamento central.

Hoje, no entanto, vamos ver duas histórias que realmente aconteceram, não foram fábulas, não foram parábolas, mas como dois homens realmente tiveram um encontro com o Senhor, dois homens com histórias de vida muito parecidas em alguns aspectos, mas que saíram de seus respectivos encontros com Jesus de maneira bem diferente.

A primeira história que iremos ver é a do jovem rico, uma pessoa cujo nome não é mencionado na Bíblia, mas que se encontra narrada em Mateus 19:16-24.

E eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?
E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos.
Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?
Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me.
E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades.
Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus.
E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. – Mateus 19:16-24

Desse primeiro encontro, podemos tirar ao menos duas lições:

  1. O jovem queria fazer algo para conseguir a vida eterna. Ele seguia a lógica do mérito, do esforço pessoal, como ele havia conquistado tudo na vida com base nessa lógica, supôs que a vida espiritual seguiria a mesma lógica de “faça isso” ou “não faça aquilo” e “estamos conversados”, que é a lógica de muitas religiões mas NÃO é a lógica de Jesus nem do cristianismo.
  2. O jovem acreditava que com bajulação (“bom mestre”) e arrogância (“tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade”) poderia conseguir algum favor, como ele provavelmente estava acostumado a fazer com tudo na vida, mas Cristo o repreende mostrando a real intenção do seu coração, o que era realmente importante em sua vida: os bens materiais, o apego que ele tinha por suas riquezas, e não uma devoção sincera a Deus nem uma vontade genuína de seguir a Jesus.

A segundo história que iremos ver é a de um homem rico chamado Zaqueu, um cobrador de impostos para o império romano, que dominava Israel na época de Jesus, como um fiscal da receita nos dias de hoje, considerado um traidor da nação por exercer essa função em prol do império dominante, um pária da sociedade, excluído dos círculos sociais, mal visto, com a fama que um político ou funcionário público corruptos poderiam ter hoje. Sua história é narrada em Lucas 19:1-10.

E, tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando.
E eis que havia ali um homem chamado Zaqueu; e era este um chefe dos publicanos, e era rico.
E procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura.
E, correndo adiante, subiu a uma figueira brava para o ver; porque havia de passar por ali.
E quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.
E, apressando-se, desceu, e recebeu-o alegremente.
E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador.
E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado.
E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão.
Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. – Lucas 19:1-10

Desse segundo encontro, podemos tirar outras duas lições:

  1. Jesus não tem preconceitos. De fato, a Palavra de Deus nos diz que Ele não faz acepção  (distinção) de pessoas (Romanos 2:11). Ele veio buscar ricos e pobres, seja quem for, desde que reconheça que precisa e depende dele. Este é o sinal, reconhecer-se pecador, doente, sujo, maltrapilho. Como o Mestre mesmo falou, Ele não veio buscar os sadios, os justos, mas pecadores ao arrependimento (Lucas 5:31,32).
  2. O coração de Zaqueu, antes corrupto e ganancioso, tornou-se generoso, mostrando a transformação que Jesus operou em sua vida. Enquanto o jovem rico tinha um coração egoísta e mesquinho e preferiu permanecer assim, Zaqueu bastou conhecer Jesus para reconhecer que sua riqueza não valia nada quando comparada ao eterno, àquilo que as riquezas não podem comprar, como saúde, paz, alegria, tranquilidade, companheirismo, amigos de verdade, respeito e admiração etc.

Vimos, portanto, duas pessoas com histórias parecidas, homens com muito dinheiro, bens, que tiveram encontros com Jesus, mas que saíram desses encontros de maneira bem diferente um do outro: enquanto um (Zaqueu) saiu transformado, feliz, o outro (o jovem rico) saiu transtornado, triste, pois não conseguiu abrir mão daquilo que ele considerava mais importante em sua vida (as riquezas) por amor a Jesus.

Como lições finais da diferença entre essas duas histórias e dois encontros temos:

  1. O homem verdadeiramente rico é aquele que reconhece que suas riquezas, poder, bens, influência, fama etc. não fazem dele uma pessoa melhor ou superior aos outros, nem põe a sua confiança nessas coisas, mas em Deus.
  2. Os ricos também precisam de salvação. É muito “fácil” entendermos porque nós, “reles mortais”, precisamos de Jesus, já que Ele nos dá paz, alegria, saúde, e supre as nossas necessidades, mas muitos ricos acreditam que não precisam de nada, que tudo que eles precisarem, eles mesmos irão comprar e não será Deus quem irá suprir ou providenciar. Só que eles estão enganados, pois ricos também têm carências, frustrações, problemas emocionais e familiares, vivem estressados e só a paz de Jesus pode evitar que vejam seus relacionamentos familiares destruídos ou mesmo tirem suas próprias vidas, como é muito comum em países onde a maior parte da população é rica e diz “não precisar de Deus, de Jesus”.

Revisitando as lições e os textos acima, minha oração hoje é para que Deus nos ajude a nos despirmos de todo preconceito quando ouvirmos e pregarmos o amor de Deus, que é para todos, afinal todos precisam de Deus, entendendo ainda que não podemos colocar nossa confiança e nossa força em riquezas materiais, ou mesmo em outros atributos que porventura consideremos como qualidades ou virtudes pessoais (ex.: podemos não ser ricos, mas confiarmos em nossa força física, beleza estética, conquistas acadêmicas ou profissionais etc.), e sim em Deus, que verdadeiramente é a nossa força e sustento, em quem podemos depender e confiar em tudo, em todas as horas.

Deus nos abençoe.

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A insuficiência da Lei

Fará restituição plena, acrescentará a isso um quinto do valor e dará tudo ao proprietário no dia em que apresentar a sua oferta pela culpa. – Levítico 6:5b

A Lei, embora justa em seus princípios e finalidade, tinha um condão apenas fiscalizatório, guiando o homem pelo caminho correto como uma espécie de tutor, de babá, como afirma o apóstolo Paulo em Gálatas 3:24,25, sendo portanto falha e insuficiente, pois não almejava mudar o homem de dentro para fora, e sim apenas freá-lo em seus instintos egoístas, proporcionando, em caráter pedagógico, uma punição CASO alguém fosse pego descumprindo alguma de suas ordenanças, tanto positivas (fazer) quanto negativas (não fazer).

O evangelho, por outro lado, tanto requer quanto inspira mudanças: mudança de comportamento, que é externo, e semelhantemente de temperamento, que tem feições externas mas também internas, e por último de valores, que embora tenham repercussões de caráter público, são predominantemente internas, de foro íntimo, experienciadas no privado, no particular, onde apenas uns poucos podem saber quem realmente é a pessoa que aparente ser algo que talvez não seja de fato.

Um grande exemplo da mudança que o evangelho causa na vida de uma pessoa vemos na história de Zaqueu, um cobrador de impostos, do tipo de gente mais desprezada na sociedade judaica por ser considerado corrupto e traidor à pátria, que quando conhece Jesus, VOLUNTARIAMENTE, movido por uma profunda transformação vivenciada, resolve devolver não o que a Lei ordenava, acrescido da multa de 20%, mas 4 vezes mais, ou seja 400%, conforme vemos no texto abaixo:

Mas Zaqueu levantou-se e disse ao Senhor: “Olha, Senhor! Estou dando a metade dos meus bens aos pobres; e se de alguém extorqui alguma coisa, devolverei quatro vezes mais”. – Lucas 19:8

Vejam que a Lei dizia que SE alguém fosse pego furtando, SE alguém fosse condenado, ou seja, necessitava um processo judicial onde a pessoa poderia ainda escapar de ser condenada, sair ilesa sem cumprir a pena, somente se confrontada ela devolveria o valor extorquido e pagaria a multa. Era a “mão do Estado”, por assim dizer, naquele proto-sistema judiciário de então, fazendo valer a justiça humana, em que pese baseada na vontade de Deus.

O evangelho vai muito mais além. Não é à toa que Jesus disse que se levássemos um tapa deveríamos oferecer a outra face, ou ainda se tirassem a capa, não deveríamos recusar também a túnica (Lucas 6:29), é o poder radical do amor de Deus que nos constrange de tal modo que não nos sentimos bem ao pecarmos, ao defraudarmos alguém. Não é preciso vir alguém e apontar o dedo, pois o próprio Espírito Santo nos incomoda, não para nos acusar, mas para nos ensinar e nos corrigir e trazer novamente para o caminho correto, para perto do Senhor, cuja vontade e valores são bons para nós como indivíduos e como membros da sociedade.

A Lei representa então a religião, em que vivemos apenas andando sobre uma linha, como a corda bamba (ou o moderno slackline), de fazer e não fazer, de proibições e obrigações, mas que na verdade não geram verdadeira transformação nem impactam o mundo, ao contrário, qualquer coisa é motivo para cairmos, não há um relacionamento genuíno com o Pai já que impera o medo e no medo não há amor, não há paz, não há benevolência, paciência, fraternidade, não há voluntariedade nem generosidade (1º João 4:18, entre outros).

O evangelho demonstra, no sentido oposto, a graça de Deus por nós e que em nós opera em favor dos outros. Só a graça percebida e experimentada pode traduzir-se em generosidade, de tempo, dinheiro e outros recursos, à obra de Deus e aos outros (que também é obra de Deus, convenhamos), só essa graça perdoadora faz com que um homem reconheça publicamente sem ninguém lhe apontar o dedo que é pecador, que errou, que deseja restaurar sua vida e seus relacionamentos, pedir perdão a quem machucou, e procurar restituir não apenas o que a lei manda, como um limite máximo, e sim, quando muito, como um “piso”, por assim dizer, ou seja o que ele mesmo reconhece como justo sabendo que também Deus lhe perdoou infinitamente mais do que merecia ou poderia fazer por merecer.

A minha oração hoje é para que possamos experimentar o verdadeiro, doce, simples evangelho de Cristo que vai além de qualquer religião, cujo fardo é leve e não pesado (Mateus 11:28-30), e que, com isso, vivamos uma vida mais plena, sem medo, sem limites senão o próprio amor e graça que Deus derrama em nossas vidas cada dia.

Deus nos abençoe.