Aviso aos navegantes: sobre o amor

Mulheres de Jerusalém, eu as faço jurar pelas gazelas e pelas corças do campo: não despertem nem provoquem o amor enquanto ele não o quiser. – Cânticos 2:7

Cânticos é um dos livros poéticos do Antigo Testamento que narra, em forma de poesia, o amor romântico do rei Salomão por sua esposa mais preciosa, a Sulamita, a quem ele se derrama de paixão e amor em todas as esferas em versos até bem explícitos, embora não vulgares, falando sobre muitos temas afetos ao relacionamento conjugal.

Nesse contexto, não deixa de ser um pouco “estranho” Salomão por três vezes recomendar às mulheres de Jerusalém que não despertassem o amor antes da hora adequada, o que nos indica claramente pelo menos três lições:

  1. há uma hora adequada para o amor, e cada tipo específico de amor (amizade, namoro e casamento) possui um contexto específico que não deve ser atropelado sob pena de perder-se o melhor de cada etapa, antecipando dificuldades que a falta de maturidade, experiência e intimidade não permitirão administrar com sabedoria;
  2. o amor é algo que deve vir naturalmente, mas também pode ser buscado, despertado, provocado. Em Cantares 3:5, a segunda vez que aparece esse conselho, Salomão diz para não incomodar o amor, e é curioso essa expressão “incomodar”, como algo que traz um certo desconforto, e não deixa de ser verdade, se meditarmos no aviso do homem mais sábio que já viveu, o amor na hora errada traz uma série de inconvenientes, seja no contexto familiar, responsabilidades laborais ou acadêmicas, e até no âmbito mais pessoal, onde a pessoa precisa dedicar tempo que talvez não possua a sentimentos que talvez não poderá corresponder. É estranho mas é verdade, muitas vezes o amor nasce de um “incômodo”, e dificilmente um amor com semelhante início terá um fim aprazível;
  3. o amor “meio que” tem vida própria, ou seja, tem o tempo certo de nascer, de crescer, de amadurecer, a forma própria de tudo acontecer, e não adianta “forçar a barra”. O conselho é claro, não despertar o amor enquanto ele mesmo não quiser, ou seja, ele não deve ser instigado, de maneira afobada ou por desespero, e os sentimentos que o cercam, embora possam ser nutridos (para que cresçam) ou sufocados (para que diminuam e morram), devem surgir de modo espontâneo, voluntário, com mutualidade e naturalidade.

A forma literária judaica utiliza da repetição para denotar gravidade e importância de determinado assunto. Então, considerando que por três vezes Salomão faz menção a esse tema, é de nossa responsabilidade parar e pensar se não estamos pondo o carro na frente dos bois muitas vezes, provocando sentimentos em outras pessoas de forma inadequada, de maneira inconsequente, os quais, vindos na hora e da forma errada, trarão mais aborrecimentos e sofrimento do que a alegria, paz e regozijo que Deus criou para nosso desfrute.

Nesse sentido, fiquemos com um último alerta, ainda nas palavras do rei Salomão (embora num contexto ligeiramente diferente mas que também serve a este propósito), se esses não foram suficientes, de quão sério é este assunto:

Pode alguém colocar fogo no peito sem queimar a roupa?
Pode alguém andar sobre brasas sem queimar os pés? – Provérbios 6:27-28

Esse é o risco de quem desperta, provoca, incomoda o amor antes da hora, antes que ele mesmo, sentindo-se preparado, acorde por livre e espontânea vontade: por fogo nas próprias roupas, caminhar sobre brasas, ou seja, praticamente atear fogo em si mesmo, no próprio corpo, e como sairá dessa sem se queimar, sem ter um enorme prejuízo?

Deus nos abençoe.

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Primeiro amor

Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor. – Apocalipse 2:4

Jesus elogia a igreja de Éfeso por suas obras, sua dedicação, sua integridade, caráter, mas tem algo que deixou a desejar, eles haviam abandonado o primeiro amor.

Estar apaixonado é uma sensação interessante. Nossos corações batem apressadamente, nossas mãos ficam bulinando umas nas outras suando frio, borboletas no estômago só pela antecipação de ver aquela pessoa alvo do nosso sentimento.

Era com isso em mente que creio que Cristo se referia quando escreveu à igreja em Éfeso, a “noiva” já não estava mais apaixonada por seu noivo, o relacionamento meio que caiu em monotonia, já não havia mais espaço para a novidade, o sabor do vinho novo, tudo havia se tornado em rotina, em mero automatismo religioso sem entendimento, sem verdadeiro relacionamento.

Será que nós também não estamos sendo afetados pela rotina em nossa prática cristã? Será que nosso relacionamento com Deus não está apenas morno, ou pior, frio? Será que aquela paixão que sentíamos por nosso Senhor não ficou para trás, como fotografia em preto e branco que marcou em instantâneo um momento passado e que não volta mais?

O convite de Jesus hoje é para voltarmos ao primeiro amor, nos apaixonarmos novamente por Ele, desfrutarmos da sua doce presença por meio do Espírito Santo que habita em nós, cultivarmos essa paixão, esse relacionamento de ansiedade gostosa, de cuidado, de carinho, de olhar no olho do outro sem conseguir desgrudar, contando os minutos para rever um ao outro.

Ele sempre está assim, continua apaixonado por nós mesmo após tanto o trairmos. Apesar disso ainda hoje Ele nos chama, nos estende a mão para que voltemos aos seus braços de amor.