Advogado

Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo.
E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. – 1 João 2:1-2

 παρακλητον, Parakletos, palavra grega cuja tradução mais próxima daquilo que conhecemos hoje em dia, e em nosso idioma Português, significa advogado, alguém que intercede em favor de outrem perante um juiz, mas não qualquer advogado, alguém que apressadamente aceitou uma causa sem saber sequer de quem se trata ou que crime cometeu, ao contrário, alguém que conhece profundamente a situação daquele a quem defende por já ter estado em sua pele, por assim dizer.

Eu curso Direito e no Direito aprendemos a nos despir de alguns de nossos preconceitos e “vestir” alguns novos valores, tudo para que possamos oferecer ao nosso cliente a melhor defesa, até porque, afinal, todos merecem – segundo a lei – serem defendidos em um julgamento por uma defesa técnica, conduzida por alguém capaz, que entenda das leis, que se apresente perante o juiz da maneira digna e com as palavras e a técnica adequadas.

Com isso em mente, fiquei pensando nesse texto de 1 João 2, em como Jesus é o melhor intercessor que alguém poderia ter, alguém que se coloca ao nosso lado (daí o prefixo “para”, ao lado de), aliás, quer chova ou faça sol, nos momentos de alegria, de tristeza ou no auge da dor Ele não sai do nosso lado, como um advogado faria (ou deveria fazer) com seu cliente enquanto não sai o julgamento e ele se encontra preso preventivamente, por exemplo.

Mas o que me veio à mente foi algo que me deixou bastante atormentado, imaginei que eu, como advogado, teria de defender meu pior inimigo, alguém por exemplo que tivesse atentado contra minha própria vida, ou feito algo pior contra mim ou alguém que amo, isso perante o juiz que fosse meu próprio pai, que soubesse toda a situação, e por isso tivesse toda razão de ser “suspeito” em me condenar previamente ao próprio julgamento, e enfrentando o acusador que teria muitos anos de experiência a mais que eu. Eu tremo nas bases só de imaginar uma situação assim.

No entanto, essa é a situação que Jesus assume, ele coloca-se em nosso lugar para nos defender pois Ele esteve entre nós, se encarnou e viveu como um de nós, experimentou todo tipo de emoção, sentimento, calor, frio, suor, lágrimas, fome, sede, dor, alegria, enfim, tudo que nós podemos passar Ele passou e por isso entende perfeitamente, e pode nos defender da melhor maneira possível. De fato, como no exemplo que citei no parágrafo anterior, Ele é capaz de fazer algo que nós como humanos nunca conseguiríamos, esquecer a dor de termos causado a sua morte na cruz por causa de nossa rebeldia, nossa rebelião contra Deus pai, o peso de nossos pecados sobre seus ombros, tudo para não apenas nos libertar da culpa, mas para restabelecer nosso vínculo com o Pai em amor, reconciliando aqueles que eram seus inimigos com Deus, nos adotando em uma nova família para desespero do acusador que, diferentemente do que seria se fosse eu o advogado, nesse caso a longa experiência que possui não chega aos pés da competência do nosso defensor.

Jesus é o advogado que faz (fez) aquilo que nenhum advogado teria a coragem de fazer, de propor ao juiz, e lei humana nenhuma permitiria que isso acontecesse: Ele ofereceu-se para pagar o preço, cumprir a pena do nosso pecado que é a morte. Sim, com sua morte na cruz do Calvário a cédula de dívida que possuíamos perante Deus por toda nossa desobediência e orgulho foi rasgada, cancelada. Não temos mais o que temer, o inimigo não pode mais nos acusar, o juiz já não nos olha pelo que fizemos, pelos “crimes” que cometemos, pela nossa “folha corrida”, nossos “antecedentes”. Não! Voltamos a ser, e em Cristo continuaremos assim, réus primários, de bons antecedentes, por mais que ainda “reincidamos” eventualmente, Ele nos perdoa pois Ele não olha simplesmente para nós, Ele nos olha pelos olhos de seu Filho Jesus, o nosso advogado. Seria uma péssima aproximação dizer que em Jesus temos sempre pronta e à nossa disposição um habeas corpus, porque esse é um remédio constitucional que tende a evitar que uma injusta ameaça de prisão venha a acontecer, primeiro porque no nosso caso, não fosse nosso advogado, a “prisão” não seria um ato injusto, e segundo porque em Jesus, por meio dEle, nossa pena passada, atual e mesmo a vindoura já estão pagas, cumpridas. Esse é o significado de propiciação, satisfação, pagamento. Algo que nunca poderíamos fazer por nós mesmos, algo que nenhuma outra pessoa, por melhor que fosse, poderia fazer por nós ainda que quisesse, algo que somente Jesus pôde fazer.

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O juízo espiritual

A Bíblia, palavra de Deus, nos ensina, numa metáfora jurídica, que nós somos os réus, Deus é o juiz, o diabo é o acusador, e Jesus é o nosso advogado.

Acho bacana essa metáfora porque nela percebemos que os papéis são claros e bem definidos.

Nós somos os réus de todo pecado e comportamento egoísta cometido contra nós mesmos, contra outras pessoas ou especialmente contra Deus em sua infinita santidade.

O diabo é quem conduz a acusação, apontando todas as nossas falhas de caráter e defeitos, vícios, enumerando um a um os pecados que cometemos, porque mesmo que ele mesmo tenha nos plantado a semente em nosso coração, ou dado as ferramentas necessárias, a decisão final de agir, de pecar, acaba sendo nossa, então não podemos alegar a sua cooperação ou instigamento em nossa justificativa.

Jesus, por sua vez, é o nosso defensor público, e eu prefiro essa terminologia porque o defensor público age em favor daquele que não pode pagar pela causa, e é justamente essa a nossa situação. Jesus tem toda a competência técnica porque conhece a todas as partes envolvidas, e mais, Ele mesmo nos criou, e ainda por cima viveu em nosso meio, tornando-o o especialista em ser humanos.

Deus, finalmente, é o juiz porque é a Ele que cabe finalmente a decisão pela absolvição ou condenação de nossa alma, após apresentada a “queixa crime” por parte do diabo, e a contestação por parte de Jesus. Mas dificilmente eu chamaria Deus de um juiz imparcial, e entenda o que vou dizer antes de me chamar de blasfemo, porque pense comigo qual o juiz terreno conseguiria ser imparcial a uma causa defendida por seu próprio filho, tivesse ou não mérito o pleiteante ou o réu?

Nessa causa que envolve a nossa alma e cujo termo da pena é a eternidade, o diabo tem lá sua razão, e se fosse pelo nosso mérito apenas certamente já estaríamos condenados. No entanto, Deus revela seu amor e seu “partidarismo” por seu Filho, resolvendo ignorar solenemente todas as acusações do diabo contra nós e decretando de uma vez por todas que somos livres, somos inculpáveis, a dívida que tínhamos contra Si foi rasgada pelo sacrifício de Jesus na cruz do Calvário e tornada efetiva em nossas vidas pelo seu sangue no momento que O recebemos como Senhor e Salvador.

Agora, concluindo, imagine-se nessa mesma situação descrita mas sem a figura do defensor público. O Direito brasileiro não permite à própria pessoa se autorepresentar, salvo em raras exceções, dentre as razões para o efetivo o exercício da garantia de defesa, mas não funciona assim nesse juízo espiritual. Se negarmos o auxílio do nosso advogado, se recusarmos sua intervenção em nosso favor, somente o diabo apresentará o nosso caso perante Deus pedindo a nossa condenação, e à pena capital da morte eterna, e Deus, que é um juiz justo, realizará a justiça que é devida, e nós não temos, por melhor que tenhamos sido, como justificar os nossos pecados, e pleitear a nossa própria absolvição.

Que essa lição seja mais um motivo para nos estimular a buscar o amor de Deus em Cristo Jesus, não por mero medo de uma condenação eterna, muito embora isso seja verdade, mas para que experimentemos desde já a vida eterna e o relacionamento de amizade, maior de todas as bençãos da herança espiritual que adquirimos pela adoção com que Deus nos torna seus filhos, sua família.