A parábola dos dois filhos

Pregação ICS 14/03/2021 – A parábola dos dois filhos

Texto base: Mateus 21:28-32

“Mas o que acham vocês disto? Um homem que tinha dois filhos disse ao mais velho: ‘Filho, saia e vá trabalhar na plantação hoje’.
“ ‘Não vou’, respondeu ele, porém mais tarde resolveu ir.
Depois o pai disse ao mais novo: ‘Vá você!’, e ele disse: ‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi.
Qual dos dois estava obedecendo ao pai?”
Eles responderam: “O primeiro”.
Então Jesus explicou-lhes: “Digo a verdade a vocês: Os cobradores de impostos e as prostitutas arrependidos entrarão no Reino de Deus antes de vocês. Porque João Batista pregou para que se arrependessem e se voltassem para Deus, e vocês não creram nele, ao passo que os cobradores de impostos e as prostitutas creram. E mesmo quando vocês viram tudo acontecendo, recusaram-se a se arrepender e crer nele.

Introdução
Jesus tinha uma maneira muito peculiar de ensinar as verdades do Reino. Ele poderia escolher um trecho das Escrituras que falasse a seu respeito, e então explicá-lo, como fazemos hoje quando pregamos, e de fato muitas vezes Ele fez isso. Contudo, uma de suas maneiras preferidas de comunicar os valores de Deus era por meio de parábolas.

Mas… O que são parábolas?

Parábola, segundo o dicionário, é uma “comparação desenvolvida em uma história curta, cujos elementos são eventos e fatos da vida cotidiana e na qual se ilustra uma verdade moral ou espiritual”, ou seja, uma alegoria, como uma estória contada a uma criança pequena por seus pais ou avós com a intenção de lhe ensinar uma lição de maneira mais fácil, sem que sua pouca compreensão ou experiência impeçam seu aprendizado.

As parábolas de Jesus tinham o propósito de ensinar ao povo de modo simples, com situações relacionadas ao seu dia a dia, sem utilizar a metodologia formal ou até obscura da religião tradicional que os judeus estavam acostumados, aquela oferecida pelos fariseus, pelos saduceus, pelos escribas e sacerdotes que pegaram a Lei de Deus entregue por Moisés e acrescentaram tantas regras que findaram por afastar as pessoas desse Deus a quem deveriam servir e com quem deveriam se relacionar.

Além disso, a pedagogia de Jesus cumpria outro propósito: por meio das parábolas, os que se consideravam doutos e entendidos não compreendiam o que Ele queria dizer. É mais ou menos como aquelas pessoas que procuram ler a Bíblia para sua vaidade pessoal ou engrandecimento próprio ou qualquer outra razão que não conhecer a Deus e se relacionar com Ele, e o fazem na força do seu entendimento em vez de em humilde submissão ao seu Espírito. É o que o próprio Mestre nos diz em Marcos 4:10-12:

Quando ele ficou sozinho, os Doze e os outros que estavam ao seu redor lhe fizeram perguntas acerca das parábolas.
Ele lhes disse: “A vocês foi dado o mistério do Reino de Deus, mas aos que estão fora tudo é dito por parábolas, a fim de que, ‘ainda que vejam, não percebam, ainda que ouçam, não entendam; de outro modo, poderiam converter-se e ser perdoados!’”

Ao ouvir as palavras de Jesus, citando um texto de Isaías, talvez você me pergunte: “Mas, Eliade, a ideia não era justamente se converterem? Porque então Jesus usou essa ferramenta que nem sempre é muito clara?”, e a sua pergunta é razoável.

A resposta, meus irmãos, é que a conversão do homem, embora passe sim por uma reflexão racional, deve ser o produto do exercício da fé em Deus, algo que vai muito além daquilo que o nosso raciocínio lógico pode explicar. Crer, como diria John Stott, é também pensar, mas não é apenas pensar. É sim a entrega completa de nossos pensamentos, nossas emoções, nosso espírito. É amar a Deus de todo nosso coração, de toda nossa alma, de todas nossas forças, cf. Deuteronômio 6:5. Todo nosso ser deve se render ao Criador.

O desenvolvimento de uma religião apenas racional produz insensibilidade no coração do homem, algo que nós vimos acontecer na história da Igreja, e infelizmente ainda hoje muitos de nós caímos nesse erro.
Mas, voltemos ao texto de hoje. Nessa estória, Jesus nos fala de três personagens, um pai e seus dois filhos.

A mensagem principal da parábola que Jesus contou diz respeito a arrependimento e obediência. Esse era um tema muito recorrente nas mensagens do Mestre e, nesta que seria sua última semana antes de seu sacrifício, Ele põe ênfase ainda maior neste assunto porque tem um sentimento de urgência, Ele sabe que, breve, seus discípulos seriam privados de sua presença então deve prepará-los para conhecer, viver e levar aquela mensagem adiante.

1 – A mensagem de arrependimento
Jesus nos fala sobre um pai, em alusão ao próprio Deus, que tinha dois filhos. Certo dia, ele chega ao seu filho mais velho e lhe manda trabalhar em sua vinha, ao que o filho, de maneira até insolente, responde que “não quer”. Em seguida, esse filho se arrepende do que falou, e acaba indo trabalhar na lavoura do pai.

Nessa primeira parte, várias coisas me chamam a atenção. A primeira delas é quando lembramos de diversas outras parábolas também contadas por Jesus e que trazem contexto parecido, qual seja de um Deus que é Pai, de que esse Pai possui filhos, e de que esses filhos são bem diferentes entre si. Vemos isso, por exemplo, na parábola do filho pródigo, narrada em Lucas 15:11-32.

Nossos comportamentos variam bastante, mesmo em resposta a situações que podem até ser iguais a que outras pessoas enfrentam. Por sermos indivíduos únicos, também teremos reações particulares.

O texto fala ainda de uma vinha, uma lavoura, uma plantação. Isso significa, quando olhamos para outros textos da Palavra e para aquilo que Jesus ensinou, o reino de Deus e a salvação propriamente dita. Vemos isso, por exemplo, nas parábolas do grão de mostarda (cf. Mateus 13:31 e 32) e do joio e do trigo (também em Mateus 13, vv. 24-30).

Sobre a vinha, algumas coisas me vêm à mente: 1) a vinha era propriedade do pai, logo seria um dia herança dos filhos. Ora, se meu pai me manda trabalhar no que é seu, e se eu sou um filho inteligente e diligente, só por essa razão “egoísta”, por assim dizer, eu já deveria obedecê-lo, pois trata-se daquilo que um dia será meu.

É óbvio que não deve ser apenas por essa razão que obedeceremos, senão o relacionamento que construímos com nosso pai terreno e, principalmente, com nosso pai celestial seria somente por interesse, e não teríamos aproveitado o que é mais importante que é o relacionamento em si mesmo.

Essa é a mensagem, por exemplo, com respeito ao segundo filho na parábola já citada do filho pródigo. Mas sim, temos uma herança junto ao Pai! Na verdade, as Escrituras, com relação a herança, nos diz tanto que somos herança do Pai (cf. Joel 3:2, entre outros), quanto que Ele por sua vez também é nossa herança (cf. Salmos 16:5, idem).

Além disso, 2) Deus nos chama a participar de sua obra, algo que é seu, então devemos ter isso como uma enorme honra, mas, ao mesmo tempo, com bastante responsabilidade. O pai da estória contada quer ensinar valores aos seus filhos: a) que devem cuidar do que é seu; b) que devem trabalhar; c) que devem contribuir; d) que devem agir como homens, pois isso é tarefa e atribuição de homens, e falo aqui não especificamente do gênero masculino, mas da condição de maturidade, de ser adulto, então serve também para vocês, mulheres, dever agir com responsabilidade com relação às coisas da vida, frente àquilo que somos chamados a cuidar dia a dia, cada um em seu contexto particular.

Deus não quer filhos mimados, estragados pelo excesso de conforto, preguiçosos. Não! Nós somos chamados a trabalhar em prol da sociedade, para crescermos profissionalmente – e sermos recompensados por isso, claro, afinal isso não é mal nem pecado – mas, principalmente, para trabalhar em sua obra, na plantação e implantação do seu reino na terra.

A resposta que o primeiro filho deu àquele homem é igual à que o mundo muitas vezes dá ao chamado de Deus. Vejam que Jesus já explica a parábola. Não precisamos, aliás, nem devemos, procurar outra explicação. Essa resposta é a mesma de quem não liga para as coisas de Deus, de quem na verdade talvez sequer entenda a importância daquilo tudo. Soa familiar?

Deus chama cada um de seus filhos a participar da sua obra, a qual impacta primeiramente a vida do próprio envolvido. Nós somos os primeiros beneficiados pela salvação que Cristo nos oferece em seu sacrifício na cruz do Calvário. Sua paixão, sua páscoa, deve ter para nós essa compreensão, mas que não deve ficar fechada em nós, ao contrário, ela deve também nos levar para a lavoura, botar a mão na massa e compartilhar essa mensagem de esperança àqueles que estão ao nosso redor e fazem parte do nosso círculo de relacionamentos.

Deus não nos manda – em geral – a uma vinha distante, fisicamente falando, nem uma tal que Ele mesmo não esteja presente, nada disso! Sim, alguns serão chamados a levar sua Palavra a terras e culturas distantes, mas a grande maioria não pode dar essa desculpa porque sempre há um vizinho, um parente, um colega de faculdade ou trabalho que ainda não ouviu falar do amor de Deus e nós seremos os responsáveis por plantar a semente naquela terra.

E essa semente é a mensagem da Cruz. Arrependam-se e creiam no Evangelho! Deixem seus pecados, seus caminhos egoístas e voltem-se para Deus, para o seu reino, para os valores eternos. Simples assim, tão simples quanto lançar uma semente numa terra já preparada. Aliás, nosso trabalho nem sequer é arar a terra, função do Espírito, nem fazer a planta crescer, igualmente função sua, mas simplesmente lançar a semente, como outra parábola do mestre, que fala de um semeador que sai por aí lançando sementes em diversas terras, e numa delas aquela semente produz bastante fruto, cf. Lucas 8:5-15.

Essa mensagem diz respeito a arrependimento porque, como vimos na estória com relação ao primeiro filho, se inicialmente ele diz não ao pai, como nós a Deus, posteriormente ele reflete, pensa melhor e acaba obedecendo. Ele se arrepende do que fez, do que falou. A Bíblia não dá detalhes do que ele pensou, se teve uma lógica pragmática, ou se refletiu no amor do seu pai, mostra apenas o resultado: ele obedeceu à ordem do pai.

Meus irmãos, isso é algo que nos falta infelizmente. Obedecer. Obedecer a Jesus, aos seus mandamentos. Não adianta absolutamente nada a gente falar uma coisa e fazer outra, dizer que segue a Jesus e na verdade os nossos pensamentos, palavras, ações e atitudes demonstram o contrário; mostram, se formos honestos, que não somos realmente seguidores de Jesus.

Arrependimento, pra mim e pra você, da rebeldia que nutrimos contra o nosso Pai. Chega de dizermos não a Deus, basta de desobedecermos o que Ele nos fala. E isso passa por refletirmos em quem somos filhos, quem é o nosso Pai, que sua vontade para nós é o melhor que podemos desejar, e que é através da sua obra que Deus vai trabalhando em nosso caráter nos tornando filhos dignos de receber a sua herança.

Jesus, quando é instado a explicar a parábola que lemos hoje, cita o ministério de João Batista e sua mensagem, conforme descrito em Lucas 3:7-14:

João dizia às multidões que vinham para o batismo: “Filhos de serpentes! Vocês estão procurando escapar do terrível castigo sem voltar-se verdadeiramente para Deus! É por isso que estão querendo batizar-se! Primeiramente deem frutos que mostrem que vocês realmente se arrependeram. E não pensem que estão livres porque são da família de Abraão. Isso não basta. Destas pedras do deserto Deus pode fazer nascer filhos de Abraão! O machado do seu julgamento está posto à raiz das árvores. Sim, toda árvore que não der bom fruto será derrubada e atirada no fogo”.
A multidão perguntou: “O que devemos fazer?”
“Se alguém tem duas túnicas”, respondeu ele, “dê uma a quem não tiver nenhuma. Quem tiver comida de sobra, dê àqueles que estão com fome”.
Até os cobradores de impostos vieram para serem batizados. Eles perguntaram: “Mestre, o que devemos fazer?”
Ele respondeu: “Cuidem para que não cobrem mais impostos do que o governo romano exige de vocês”.
“E nós”, perguntaram alguns soldados, “o que devemos fazer?”
João respondeu: “Não tomem dinheiro com ameaças nem violência; não acusem ninguém falsamente; contentem-se com o seu salário!”

Percebam que nesse texto de Lucas, a quem João Batista se dirige quando chama de “filhos de serpentes”? Quando ele faz esses “elogios”, João fala especificamente de fariseus e saduceus, conforme Mateus 3:7, ou seja, líderes religiosos que buscavam aquilo, o batismo, 1) por curiosidade, saber quem era aquele homem de roupas e costumes estranhos que estava pregando no deserto e atraindo tantas pessoas; 2) por inveja da popularidade daquele homem que não participava da estrutura da religião formal de Israel, enquanto o que eles recebiam era desprezo do povo, e que de fato era mútuo já que eles rejeitavam quem não era parte de seu grupo; e 3) por falsidade, uma vez que não criam na autoridade de João para pregar e batizar, não criam na mensagem que João pregava, a chamada ao arrependimento e conversão, e não criam que eram destinatários dessa mensagem, ou seja, que eram pecadores, carentes da graça e da misericórdia de Deus.

Infelizmente, meus irmãos, muitos hoje, como antigamente, continuam se aproximando de Jesus pelas razões erradas, seja falso interesse, motivações egoístas, como as dos líderes religiosos de sua época, ou apenas em busca de sua própria agenda, fazendo da fé um negócio, e um negócio muito lucrativo.

Essas pessoas são aqueles a quem Jesus ilustra na parábola na figura do segundo filho, que a princípio diz “sim” ao pai, como um bom religioso de plantão, à vista das pessoas, mas que pelas costas na verdade só faz o que lhe dá vontade, ou seja, tudo que faz é apenas de aparência, da boca pra fora, não tem sinceridade e verdade.

Por outro lado, o filho que primeiramente diz “não” é como, nesse texto que lemos de Lucas, as pessoas da multidão que questionam João o que devem fazer, significando que eles, apesar das vidas de pecados repugnantes que levaram até ali, finalmente caíram em si, caiu a ficha como a gente dizia antigamente, eles foram ao menos honestos em reconhecer que eram merecedores de castigo e que eram maus, talvez não aos olhos uns dos outros, mas certamente aos olhos de Deus.

E o que significa, na prática, essa mensagem de arrependimento? Uma mudança radical de comportamento, que passa necessariamente por uma disposição a obedecer.

2 – A mensagem de obediência
Essa parábola de Jesus, como já falei, diz respeito a dois a comportamentos: arrependimento e obediência. É só prestarmos atenção às palavras-chave que Ele usou: obediência, na pergunta sobre os filhos; e arrependimento, na explicação e censura aos religiosos. Na primeira parte, a gente meditou sobre o arrependimento, mas há ainda algumas lições que podemos extrair dessa parábola.

Quando pensamos em arrependimento, talvez a gente lembre do texto de Romanos 12 no qual Paulo roga que sejamos transformados pela renovação da nossa mente, e é verdade, o arrependimento passa primeiro por essa reflexão, ou seja, a gente precisa reconhecer que errou, que está trilhando um caminho de distanciamento do Senhor, que temos sido rebeldes e pecadores.

No entanto, o arrependimento não para aí. Não basta termos um pensamento transformado com relação ao passado, precisamos que essa disposição mental renovada nos leve a tomar um novo rumo.

Arrependimento que pára na mente não passa de remorso. O genuíno arrependimento é como a fé, como o amor, e como vários outros atributos descritos na Bíblia com conotação prática mas que acabaram assumindo um significado completamente diferente em nosso linguajar religioso, como algo passivo, um sentimento ou algo que existe somente em nosso coração.

Ele não é um mero pensamento, não é uma simples mudança de ideia que fica estática e não produz um resultado prático, não é um sentimento, embora, sim, gere em nós uma tristeza por reconhecermos que decepcionamos aqueles a quem amamos, em especial ao nosso Pai celeste.

Vejamos o que diz 2 Coríntios 7:10:

Porque Deus às vezes utiliza a tristeza em nossas vidas para nos ajudar a nos afastarmos do pecado, nos arrependermos, para, assim, nos levar à salvação. Já a tristeza do homem incrédulo não é a tristeza do arrependimento verdadeiro e produz a morte.

Em outra tradução, o texto diz que “A tristeza segundo Deus produz um arrependimento que leva à salvação e não remorso, mas a tristeza segundo o mundo produz morte”.

Arrependimento que leva, que visa, cujo alvo é a salvação, diferentemente do remorso, que não tem um propósito, não tem um fim útil, produz apenas… tristeza!

Meus irmãos, taí uma coisa que não serve de nada, ficarmos tristes, se essa tristeza não nos levar a um lugar de transformação! Precisamos nos entristecer sim, mas pela razão correta e com a finalidade de mudarmos de comportamento!

Então, partindo da comparação que fiz com a fé, que se prova por meio das obras, conforme Tiago 2:17 e 18, o arrependimento sincero, e não há outro, se prova por meio da obediência.

Se antes andávamos pelo caminho da rebeldia e desobediência, agora que possuímos uma mente renovada, a mente de Cristo, conforme 1 Coríntios 2:16, nossa nova vida deve ser em obediência aos seus mandamentos, à sua vontade, à sua voz. Não podemos mais fazer a nossa vontade, precisamos perguntar a Deus o que Ele deseja que façamos, para onde Ele quer que a gente vá. Não adianta a gente orar, ler a Bíblia, buscando assim conhecer mais do Pai e saber a sua vontade, se não estivermos dispostos a obedecê-lo!

Em João 15:14, Jesus diz assim:

Vocês serão meus amigos se me obedecerem.

Não é uma opção. Não há plano B. O texto não poderia ser mais claro: andar com Jesus é fazer o que Ele manda. Seremos seus amigos se, e somente se, obedecermos a Ele.

Eu sei que ouvir isso com nossos ouvidos da geração mimizenta que somos e que odeia que nos digam o que fazer dói, incomoda, gera angústia, frustração, mas meus irmãos, quem é Senhor aqui, eu, você, ou Jesus?

Vamos pensar no comportamento dos dois irmãos. Deixemos de lado por um instante o que quer que eles tenham pensado antes, durante e depois de terem falado aquelas palavras; o que especificamente eles disseram; a forma como falaram; e a reação do Pai, tanto imediatamente quanto depois do dia terminar e ficar sabendo o que de fato aconteceu.

No fim das contas, o comportamento daquele filho que foi e fez a obra do Pai falou muito mais alto do que quaisquer palavras que ele ou seu irmão tenham dito. É isso que conta, nossas obras; não para alcançarmos salvação, que não se trata disso, mas que a salvação que recebemos é provada pelas obras que dela se seguem. Nós demonstramos nossa condição de filhos por meio do nosso comportamento como tais.

A fé que dizemos possuir em Deus, em Jesus, produz em nós obras dignas de uma vida arrependida e derramada perante o altar. É disso que fala nosso Senhor quando afirma que João veio mostrar o caminho da justiça. João veio relembrar ao povo, a nós também hoje, os valores do reino de Deus que eles já deveriam conhecer.

Cristo aqui é muito duro com os religiosos e isso serve de lição para nós, quando ele afirma que as pessoas mais rejeitadas da sociedade de então, pessoas notoriamente pecadoras, traidores da nação como era o caso dos cobradores de impostos, ou mesmo pessoas infames, sem moral alguma como eram as prostitutas, quando confrontadas com a mensagem de arrependimento pregada por João, e posteriormente também por Jesus, elas abandonaram seus maus caminhos, voltaram-se para Deus, e começaram a andar em justiça, enquanto aqueles que deveriam fazer assim, porque tinham a lei de Moisés e gritavam pra todos quantos pudessem ouvir o quão “santos”, “puros” e “imaculados” eles eram, mas que, ao contrário, viviam uma vida de religião apenas de aparência, esses, como nós muitas vezes, tiveram enorme dificuldade sequer de se reconhecerem como pecadores, e buscar o socorro daquele que pode salvar religiosos e não religiosos, pecadores que somos.

Vejamos um exemplo desse comportamento, conforme Mateus 9:10-13:

Mais tarde, quando Jesus e seus discípulos almoçavam na casa de Mateus, muitos cobradores de impostos e “pecadores” estavam lá como convidados! Os fariseus ficaram indignados. “Por que o mestre de vocês come com homens como esses cobradores de impostos e ‘pecadores’?”
“As pessoas que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes”, foi a resposta de Jesus. Depois ele acrescentou: “Vão aprender o significado deste versículo da Escritura: ‘Não são os sacrifícios de vocês que me interessam — mas que tenham misericórdia’! Meu trabalho aqui na terra é chamar os pecadores, e não aqueles que se acham bons, para que voltem para Deus”.

Nessa situação, vemos os religiosos questionando os discípulos de Jesus por que o mestre comia com notórios pecadores, quando isso era absolutamente inconcebível para aqueles homens mais preocupados com a aparência de “piedade”, com a sua reputação “ilibada”, do que realmente em estar com o Mestre e aprender dele, razão que motivava aquele grupo que se achegou para comer com o Senhor.

Para muitos daqueles líderes e pessoas importantes da sociedade da época, ao se deparar com alguém de má fama, era preferível cruzar a rua do que passar ao lado, que dirá mesmo compartilhar uma refeição juntos e conversar sobre as realidades espirituais. Isso diz muito a respeito do tipo de religião que aqueles homens praticavam, baseada em rituais, cerimoniais, em aparência, em vez de piedade, uma dedicação ao Senhor de maneira relacional.

É importante reconhecermos que todos temos necessidades espirituais, porque todos somos pecadores, incluindo aqueles que fingem não se interessar, ou que verdadeiramente não se importam com seu destino eterno, então ver que os pecadores buscavam a Jesus com genuíno interesse, enquanto os religiosos não o reconheceram como o messias prometido, como Cristo, mas apegaram-se apenas ao conceito de rei político que traria novamente a glória dos dias antigos a Israel, então com relação a Jesus nutriam uma relação de mera curiosidade, quando não de explícita inveja e confrontação.

Percebam que, no texto de nossa meditação, o Pai provavelmente ficou desapontado com as palavras do primeiro filho, mas, com a boa surpresa ao fim do dia, deve ter se enchido de alegria. Por outro lado, o filho que prontamente se disse disposto a obedecer e fazer a vontade do Pai, deixou de lado suas responsabilidades, desprezou o valor que sua palavra dada deveria possuir, e que decepção foi para seu pai.

Há um texto do profeta Ezequiel que fala muito claramente sobre esse assunto. Ele se encontra no capítulo 18, versos 26 em diante, que diz assim:

Se o justo deixa de lado a justiça para viver no pecado, e morre sem se arrepender disso, morrerá por causa do mal que cometeu. Mas, se uma pessoa que vivia no pecado se arrepender de suas maldades e desobediências, e passar a praticar a justiça, não será castigada com a morte. Ele salvará a sua vida.
Quem considerar os seus pecados e se arrepender deles, será perdoado e viverá; não será castigado com a morte.
Apesar de isso ser uma coisa tão clara, vocês continuam reclamando: ‘O Senhor está sendo injusto no seu julgamento!’ Os seus caminhos é que são injustos, não os meus.
“É por isso que vocês serão julgados, ó povo de Israel. Eu mesmo julgarei cada um segundo as suas próprias ações. Palavra do Soberano, o Senhor. Arrependam-se, abandonem os seus pecados! Essa é a única maneira de escapar ao castigo do pecado e da maldade.
Livrem-se de todos os pecados que vocês vêm cometendo há tanto tempo! Assim vocês ganharão um coração novo e um espírito novo. Para que morrer? Para que ser condenado, ó povo de Israel?
Eu não tenho prazer na morte de ninguém. Palavra do Soberano, o Senhor. Arrependam-se! Arrependam-se e vivam!”

Aqui temos exatamente o que aconteceu com aqueles dois filhos. Um que fez o mal, mas se arrependeu e foi fazer o que era bom. Esse agradou seu pai. Esse foi salvo. O outro que fez o que era bom, ao menos inicialmente, mas não perseverou até o fim. Esse desagradou o pai e sofreu as consequências de suas próprias escolhas.

O que Deus deseja para nós é obediência, e não meras palavras. A ida à vinha é sinal de obediência, e trazendo para o aspecto da salvação e do reino, e para nossa realidade hoje, indica que aquilo que recebemos do Pai deve significar tanto para nós ao ponto de nos dar satisfação em cumprir a importante missão de ir para a seara buscar novos frutos, resgatar novas almas para Jesus.

Conclusão
Antes de encerrar, quero chamar a atenção para algumas lições finais que talvez possam ter passado desapercebido.

Em primeiro lugar, a parábola diz respeito a dois filhos. Filhos. Percebam que nem todos são filhos. Como já falei, em outra parábola semelhante a essa, o filho perdido, ao ver-se na situação de miséria, se arrepende e pensa consigo mesmo: “quantos trabalhadores de meu pai tem pão com fartura e eu aqui passando fome”. Disso, tiramos que nem todos que trabalham para o pai são seus filhos, alguns são apenas isso mesmo, trabalhadores, estão na obra do pai, na presença do pai, junto com a família do pai, mas não pertencem a família, e por isso mesmo, ao fim do dia, terão de retornar a suas próprias casas, não desfrutarão do relacionamento mais íntimo que só o filho desfruta, e nem os direitos decorrentes dessa filiação, como a herança que está prometida, novamente, só aos filhos.

Isso deveria nos levar a uma necessária reflexão, nós que temos vindo domingo após domingo a este lugar, ou, em razão dessa pandemia, que temos cultuado a Deus de maneira virtual, será que somos filhos, ou será que somos apenas trabalhadores que vêm, trabalham, recebem seu salário, e simplesmente vão embora, voltam pra suas casas para longe de Deus?

Até com relação aos religiosos, Jesus na parábola os coloca na condição de filhos, no mesmo status dos notórios pecadores, então isso pode nos ensinar ainda uma segunda lição, de que não importa qual o nosso background, nossa história de vida, se puritanos ou promíscuos, Deus quer fazer de nós seus filhos, nos resgatar da condição de pecado em que nos encontramos, mesmo aqueles de nós que porventura não se achem tão maus assim, e nos adotar, dando-nos a honra, a dignidade e a herança que cada um de seus filhos possui, não por mérito próprio, mas por sermos filhos de um Deus que é cheio de honra, pleno em dignidade e extremamente generoso e galardoador dos que o buscam, conforme Hebreus 11:6.

Mas há ainda uma terceira e última lição, Jesus quando explica a parábola aos fariseus, saduceus e demais líderes religiosos, ele deixa claro que os coletores de impostos e prostitutas, como símbolo máximo do que aqueles homens consideravam como imundos pecadores, estavam entrando antes deles no reino de Deus. Isso significa algumas coisas:

1) que qualquer tipo de pessoa pode entrar no reino de Deus, desde que se arrependa de seus maus caminhos. Isso para nós é um sinal de esperança, é a boa nova do evangelho de que em Cristo, qualquer um de nós, por pior que tenha sido, agora é aceito perante Deus, amado pelo Pai e transformado em filho. Percebam que o primeiro rapaz da estória, a quem Jesus compara com esse grupo de pecadores, primeiramente se arrependeu, e depois obedeceu, indo trabalhar na vinha;

2) os religiosos não necessariamente entrarão no reino de Deus, embora muitos irão fazê-lo, mas não por mérito ou em razão da sua religião. Isso, por outro lado, significa que muitos que se dizem religiosos ficarão de fora do reino! Ora, se Jesus disse que os pecadores entrariam no reino antes daqueles religiosos, é porque eles também entrariam, mas aqui cabe um porém, não seriam todos os religiosos, como também não seriam todos os pertencentes ao grupo dos pecadores, somente, em qualquer caso, aqueles que se arrependessem e obedecessem ao Pai.

Arrependimento e obediência, portanto, meus irmãos, são sinais distintivos daqueles que são genuinamente filhos de Deus, aqueles que, uma vez adotados pelo Pai, passam a honrá-lo dedicando sua vida a obedecê-lo e agradá-lo.

Que Deus nos ajude, portanto, a crermos em seu filho Jesus, nos arrependendo de tudo quanto tivermos feito de errado até aqui. Eu não entrei no mérito de dizer o que vocês devem fazer ou deixar de fazer, como João Batista até fez (mas ele era João Batista), porque isso acaba virando religião, mas peçam ao Espírito Santo que revele em suas vidas por meio da oração e da leitura da Palavra, entre outras maneiras, os comportamentos e valores que vocês como filhos, se é que são filhos mesmo, precisam abandonar, e não porque eu vou dizer a você, ou a religião diz, que são errados, mas porque a Palavra de Deus e o próprio Deus lhes exortaram a fazer isso, e porque ao fazê-lo, vocês honram e agradam ao seu Pai, e isso acaba por fazer bem também a vocês mesmos!

E que, uma vez que Deus tenha falado ao seu e ao meu coração aquilo que precisamos fazer ou deixar de fazer, não para obter salvação, nem para nos tornarmos filhos, porque já vimos que não se trata disso, que Ele mesmo nos capacite a obedecê-lo, porque, mais uma vez, não adianta sabermos qual é a sua vontade se não a obedecermos, é até pior do que a ignorância de não sabê-la.

Que o Deus que opera em nós tanto o querer quanto o efetuar, segundo a sua boa vontade, nos abençoe, completando em nós a sua boa obra até o dia de Cristo Jesus.

Amém.

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