Escravidão

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Mais de 120 anos se passaram e ainda vivemos uma escravidão.

E não falo aqui de rincões perdidos na floresta amazônica ou de fazendas no interior do Nordeste ou carvoarias país afora, onde a palavra escravidão sai da condição de exagero vocabular para a dura expressão da realidade.

Falo de Fortaleza, zona urbana, século XXI.

Meu pai comprou umas pedras cariri para uma reforma que está fazendo na casa dele e me pediu para ir até lá receber o material já que ele está no interior.

Quando os funcionários da empresa onde ele comprou o material chegaram e começaram a descarregar as pedras, me deu uma revolta e uma dor no coração de ver a penúria como estavam vestidos, suas condições de trabalho, pegando as pedras com as mãos nuas, sem qualquer equipamento de proteção individual como luvas, botas, algo do gênero.

Comecei a puxar papo com eles para saber se a empresa não tinha fornecido os materiais básicos para a segurança do trabalho, ao que me responderam que não, mesmo eles tendo pedido (segundo eles várias vezes), e olhe que consultei na Internet no intervalo entre um e outro descarregamento para ver quanto custaria o conjunto bota e luva, que era de aproximadamente R$ 28,00.

R$ 28,00 pela segurança laboral de cada funcionário que a empresa tem a obrigação de fornecer e que não fazia, aliás, tanto não fazia que 2 dos 3 funcionários tiveram que se virar por conta própria com relação às botas, um deles estava de chinelo de dedo, e nenhum calçava luvas, era na mão seca mesmo.

Depois o funcionário adoece, tem um acidente e se fere e precisa ser afastado e a empresa tem que arcar com o prejuízo de contratar alguém para repor o lugar vago e não sabe o porque.

Se bem que pilantra como é, se acontece algo assim não duvido nada que seja tchau e bênção, mais um desempregado na fila do INSS em busca do auxílio desemprego.

Pior que nem o medo da fiscalização do Ministério Público do Trabalho ou de um processo trabalhista por parte de algum funcionário a “bendita” empresa tinha, afinal, pobres ignorantes como eram os funcionários, eles sequer sabiam seus direitos, como proceder, e certamente não brigariam por aquilo, talvez até com vergonha ou medo de procurar um advogado que os orientasse ou pleiteasse em seu favor.

Mas aquela situação não me deixou quieto, perguntei o nome do funcionário que parecia o mais velho, seu Antônio.

Seu Antônio, juntamente com outros 2 dos 3 funcionários, veio de Paraipaba atrás de um emprego em Fortaleza porque trabalhar na agricultura numa época de seca como essa, em que pese as chuvas que começaram a cair, não dá pra viver.

Eu perguntei a seu Antônio se não era melhor trabalhar na construção civil, em um dos muitos canteiros de obra na região do porto do Pecém.

Ele me disse que lá tinha realmente muitas vagas e oportunidades, mas que para cada vaga eram mil interessados, talvez exagero seu, talvez não considerando a seca e a falta de condições que assola o nosso sertão.

Mas voltei às minhas perguntas sobre a empresa, perguntei se eles tinham ao menos assinado a carteira, ao que me responderam afirmativamente (exceto seu Antônio que confessou ter recusado assinar por não querer perder a aposentadoria rural, já que faltavam só 4 anos para ele se aposentar como agricultor – ele tinha 56 anos).

E quanto ao horário de trabalho, alimentação?

O motorista me disse que só estavam liberados para almoçar após todas as entregas da manhã, mesmo sendo aquela hora 13:30 e ainda faltar uma entrega por fazer.

Além disso, ele me falou que o horário deles ia das 7 da manhã até muitas vezes tarde da noite, e de sorriso amarelo me confidenciou que seu patrão pagava todas as horas extras… a R$ 2,00 a hora.

Mas como se não bastasse isso tudo, o que me causou mais revolta foi o que seu Antônio, novamente ele, contou, que ele e os outros dois de Paraipaba, como não tinham onde morar, vieram do interior, dormiam no trabalho mesmo, em alojamentos repletos de ratos, junto aos materiais de construção que eles iriam entregar, e não bastasse isso, até a água do local, que eles retiravam de um poço artesiano, o proprietário da empresa ameaçou cortar.

E, a gota d’água, foi quando, sem perguntar, um deles me disse “e é porque o dono lá é evangélico”.

Isso mesmo, o cara se diz religioso e trata tão mal, de maneira ilegal e até desumana, seus funcionários, fazendo com que trabalhem longas horas sem equipamentos obrigatórios de proteção, com alimentação precária e em horário irregular, e dormindo em alojamentos insalubres infestados de ratos, ou seja, condição análoga à escravidão como infelizmente ainda vemos e ouvimos muito pela TV, e que eu honestamente nunca poderia imaginar que veria um dia tão perto em plena capital cearense.

Essa cena me deu uma vergonha da minha condição humana, um nojo mais uma vez desse rótulo “evangélico” que não diz nada e que infelizmente dito muito, muito ao contrário do que deveria significar, boas novas, já que tem sido sinônimo de pilantragem, falcatrua e desprezo pela vida alheia.

É difícil viver nesse país onde ainda existam tantos seu Antônios, e tantas empresas pilantras como essa que explorem tanto o funcionário, a pessoa, ao ponto de desumanizá-lo, tratá-lo apenas como mais uma mercadoria, ou talvez até menos, já que muitos cuidam bem de seus produtos e mal de seus funcionários.

Em tempo, essas são as mãos de seu Antônio, não apenas calejadas, rachadas mesmo de ter que pegar em pedra, suor, lágrimas e pó que dizem muito a respeito do que temos sido como sociedade infelizmente.

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