Catarse coletiva; a igreja do Brasil se aproxima da igreja americana

Esse fim de semana passado estive em Fortaleza para o feriado do dia do trabalho.

Como costumo fazer sempre que estou lá, fui para uma igreja que uns amigos freqüentam e que gosto bastante, tem um pastor famoso (apesar dele não ter pregado essa vez), e que é uma igreja muito grande, com uma quantidade significativa de membros.

Não vou comentar nada de “errado” que vi na igreja. Não é isso. Não sei nem se posso considerar certo ou errado o que vou falar aqui, mas tudo bem, e sem querer filosofar a respeito, vou logo começando dizendo que estava eu bem sentado em minha cadeira ao lado da minha mãe, e os pais do marido da minha irmã que estão de volta ao Brasil depois de uma temporada nos Estados Unidos, sentados ao lado dela, quando um dos pastores se dirigiu a platéia pelo nome, ao que foi ovacionado com um “boa noite fulano”.

Obviamente o nome dele não é fulano, coloquei fulano para preservar a identidade do pastor e da igreja, apesar de que honestamente nem lembro o nome dele.

Depois ele falou algumas coisas e sempre a igreja respondendo.

Nesse momento fiquei imaginando uma conversa que tive com o tio Ari (o pai do meu cunhado) sobre as igrejas nos EUA, a maioria quase morta, esvaziada, só com pessoas idosas. Lembrei-me durante a conversa do que o pastor da igreja que freqüento aqui em Salvador falou de sua visita à Suécia ano passado, que as igrejas lá estavam encolhendo, definhando, morrendo mesmo, onde havia um culto por semana de uma horinha no domingo pela manhã e se houvesse no sábado anterior alguma programação, já era motivo suficiente para não ter nada no dia seguinte.

É triste ver que os Estados Unidos, que já foram o berço do movimento missionário mundial até bem pouco tempo atrás vê-se nesse estado. Igualmente triste é ver a Suécia, palco do movimento pentecostal tradicional no final do século XIX e início do século XX ter chegado a esse nível de frieza espiritual.

Jesus já bem disse que no fim dos tempos o amor de muitos esfriaria (Mateus 24:12), mas como Ele mesmo colocou, a razão para que isso acontecesse é a multiplicação da iniqüidade.

Tio Ari falou ainda que o culto de oração nas quartas-feiras era mais um lanche coletivo com alguma palestra insossa do que um momento dedicado ao louvor do Senhor. Falou o quanto era difícil conseguir pastores para trabalhar na obra e ao invés de ficar estudando, teologizando nas escolas e promovendo a criação de doutrinas as mais confusas e estranhas possíveis.

Pensei ainda com meus botões que desde a década de oitenta temos importado os costumes, modismos e teologias, normalmente as piores, principalmente dos Estados Unidos, e é isso exatamente que me preocupa.

Se hoje somos considerados o celeiro de missões mundiais, como um dia foram os Estados Unidos, e anteriormente a Europa (e hoje essa última está ainda em pior estado do que o primeiro), temos que tomar cuidado para não enveredarmos justamente pelo mesmo caminho de erro que eles antes de nós trilharam.

Os Estados Unidos e os países da Europa, desenvolvidos socialmente, onde a pobreza, em geral, é algo do passado, onde vive-se tão bem, com expectativas tão altas de vida, e “vida em abundância”, como diria o Mestre, estão vivendo um caos espiritual e decadência moral cada vez maiores, em completo abandono e esquecimento do amor de Cristo, isso deve-se a terem se apegado aos bens materiais ao invés dos bens morais e espirituais, terem esquecido o amor ao próximo e terem aprendido, e como, o amor ao dinheiro.

A catarse coletiva em que se transformou o culto americano, isto é, pelo menos aquele que ainda existe porque a maior parte dos cultos é de meros rituais religiosos sem função ou causa que seja mais profunda do que a mera casca superficial, algo que venha do âmago do nosso ser (digo, do deles), começa a repercutir e gerar seguidores aqui no Brasil.

Enquanto isso, tio Ari me disse que ele, como brasileiro que é, bastante efusivo e carinhoso, chegava para abraçar as pessoas depois do culto e muitas delas, senhores e senhoras já de idade, vinham às lágrimas pelo mais simples contato humano que há tanto não sabiam o que era.

Essa experiência na igreja no fim de semana passado pode não ter nada a ver com isso. Deus me fala muitas vezes sobre situações específicas em lugares que não tem necessariamente a ver com o assunto em fim. No entanto, é curioso ver o direcionamento que a igreja no Brasil tem tomado nas duas últimas décadas, e é só desse período que posso falar, já que só tenho vinte e nove anos de idade e de igreja, e ver aquela realidade que vi ali, onde pessoas tinham um momento semanal de experiência religiosa que culminava em uma catarse coletiva proporcionada pelo pastor, pela banda, pelo ambiente.

Fico pensando, e termino aqui até porque continuo mastigando e ruminando essa idéia, em como eu penso que a igreja se vive mais na realidade do dia a dia, do pequeno grupo onde um conhece o outro, apóia e sustenta, onde você estabelece vínculos de amizade, onde o irmão mais experimentado exorta o mais novo na fé, ou seja, um cristianismo mais próximo daquilo que lemos na Bíblia, do que essas experiências psicológicas regadas a muita música (e algumas vezes danças, e muito mais) que chego mesmo a questionar muitas vezes se fui para o local certo, se fui prestar um culto a Deus ou assistir um espetáculo, um “show” da fé.

Será que é esse caminho que estamos andando, de uma igreja que prega, que louva, para uma igreja “satisfeita”, como alguém que comeu um churrasco, e de “barriga cheia” fica apenas contemplando, deixa de agir, de cumprir o seu propósito não apenas social, mas vital-existencial-espiritual, que é o de levar pessoas a Cristo, como diria a missão de uma igreja aqui em Salvador, através de atitudes, palavras e ações?

Deus nos abençoe.

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